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Memórias da travessia: reflexões sobre uma ação inspiradora

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por Luana Almeida de Souza

 

Migração com origem ou destino ao concelho do Fundão – Memórias da Travessia

Certo dia, ao pesquisar e estudar ações educativas em museus iberoamericanos, deparei-me com uma iniciativa portuguesa que despertou o meu interesse. ‘Memórias da Travessia’, vencedora do 11º Prêmio Ibermuseus de Educação, foi elaborada pelo Museu Arqueológico Municipal José Monteiro, em 2020 e busca construir uma coleção a partir das memórias individuais de migrantes em suas múltiplas realidades — refugiados, imigrantes voluntários e emigrantes. O que mais me chamou a atenção foi a maneira como essas histórias foram registradas e preservadas: por meio de arquivos multimídia, garantindo que experiências de vida pudessem alcançar outras pessoas.

Essa iniciativa me levou a refletir sobre o potencial do espaço virtual como ferramenta para ampliar a comunicação de forma acessível e inclusiva. Como a tecnologia pode contribuir para tornar essas histórias mais visíveis e conectá-las a diferentes públicos? É sobre essa questão que vamos tratar neste texto.

Nesta era tecnológica, as plataformas digitais se tornaram uma ferramenta de alcance ampliado, e que permite que cada vez mais pessoas tenham acesso a informações de maneira rápida, boas músicas, ótimos ebooks, belas histórias e adoráveis memórias. As redes sociais, em especial, tornaram-se um meio poderoso de compartilhamento, favorecendo a inclusão por meio de narrativas digitais. Todavia, no mundo atual vivenciamos um aumento da violência e da disseminação do ódio, sendo esse espaço virtual alimentado de discursos de estereótipos prejudiciais que normatizam o preconceito e a fake news, contribuindo para a perpetuação de narrativas danosas, no qual intensificam o impacto negativo sobre as pessoas afetadas. A partir disso, é gerado um ciclo de intolerância que deturpa os fundamentos de uma internet inclusiva.

Atualmente, vivenciamos momentos mais inclusivos através de vídeos legendados, tradução em Libras, fotos e arquivos descritos com padrões específicos. Além disso, já existem plataformas otimizadas que são programadas para serem mais leves e acessíveis para diferentes dispositivos e conexões, promovendo iniciativas de alfabetização digital para aqueles com menor familiaridade com a tecnologia, como idosos.

O espaço virtual possui, portanto, um enorme potencial para promover uma comunicação acessível e inclusiva, alcançando públicos diversos e rompendo barreiras físicas, sociais e culturais. Para que isso aconteça, é fundamental adotar estratégias que priorizem a inclusão, como o uso de tecnologias assistivas, design universal e a disponibilização de recursos como legendas automáticas, leitores de tela e descrições alternativas para imagens. Além disso, a oferta de conteúdos multilíngues e a integração de ferramentas de tradução em tempo real podem eliminar barreiras linguísticas e ampliar o alcance da mensagem.

Outro aspecto essencial é garantir a inclusão digital, investindo em plataformas leves e acessíveis para diferentes dispositivos e conexões, bem como promovendo iniciativas de alfabetização digital para quem tem menos familiaridade com a tecnologia. Personalizar formatos de comunicação, como textos, vídeos e áudios, e criar espaços interativos, como fóruns e enquetes, também ajudam a engajar diferentes públicos, enquanto campanhas educativas reforçam a importância da acessibilidade. Por fim, manter um processo contínuo de coleta de feedback permite que o espaço virtual evolua para ser cada vez mais inclusivo, representando e valorizando a diversidade em todas as suas formas.

A partir dessa explicação, ao estudar sobre a ação educativa ‘Memórias da Travessia’, percebi a importância do espaço virtual para a disseminação das memórias de migrações compartilhadas. Esse ambiente permitiu a exposição dessas histórias em diferentes formas de arte, tornando-as acessíveis a diversos públicos. A exemplo desta poesia tão impactante:

 

Fundão, Ditoso Abrigo

No mapa dos povos

infelizes

Há geografias de medo

e fome

Praias onde se morre

inocente

E gestos desesperados

procurando

céus sem guerra

pegadas de esperança

buscando a paz.

Eu canto a terra acolhedora

onde os sorrisos renasceram

entre serras de sonho e poesia

fraterno chão da alegria

paraíso da castanha e da cereja

Fundão, ditoso abrigo

que a Gardunha beija…

Luís Felipe Maçarico, Testemunho em Verso (sem data)

 

O maior alcance possibilitado pelo meio virtual faz com que mais pessoas possam se identificar e aprender com as experiências de outras. Acredito que isso contribua para um olhar mais empático da sociedade e fortaleça o uso da internet como um meio de impacto positivo, que promove conhecimento por meio das vivências de pessoas em contextos diferentes.

Além disso, considerando que a internet evolui constantemente, esses relatos podem ser acessados independentemente do tempo em que foram publicados, tornando-se atemporais. Dependendo do momento em que são lidos, vistos, escutados ou sentidos, cada história pode ganhar novos significados ao longo dos anos.

Outro ponto que me fez refletir foi como esse espaço de desabafo proporcionou reconhecimento às pessoas que estavam vivendo essa realidade. Mais do que preservar essas memórias, o meio digital permitiu uma ação educativa ágil, promovendo a paz e combatendo a xenofobia. Dessa forma, valoriza-se a circulação dos povos e culturas como algo positivo, expressão de cidadania e respeito à diversidade cultural.

Com isso, a mensagem que desejo compartilhar através deste breve texto é de como podemos transformar o espaço virtual em uma estante de compartilhamento de memórias e aprendizado para todos os públicos, que vai além do tempo. Um lugar onde experiências são trocadas e as peculiaridades das vivências nos ensinam, através das histórias, a enxergar um amanhã mais consciente, libertador, e empático, mobilizando o espaço virtual como um espaço de preservação das memórias reais.

INFORMAÇÕES SOBRE MIM – Luana Almeida de Souza

Graduanda em Arquitetura e Urbanismo (UERJ) – 7° período, que detém de interesse nas áreas de projeto arquitetônico, sustentabilidade, design, tecnologia, inovação, história e museologia. Atuando como pesquisadora científica e bolsista da CNPq no projeto “Lições das Coisas”, colaborando com estudos, pesquisas e fichamentos, explorando o campo da arquitetura e suas múltiplas formas dentro dos museus.

Link para a ação: https://www.ibermuseos.org/pt/recursos/boas-praticas/memrias-da-travessia/

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