Construindo um Educativo no Museu do Clube de Regatas do Flamengo
por Monalysa da Silva Borel Sarmento

Em 2018, ainda como aluna da graduação de história da UERJ, me tornei estagiária do Clube de Regatas do Flamengo, mais especificamente do Departamento de Patrimônio Histórico, que possui a missão de gerir e conservar todo o acervo do Clube. Comigo entraram também mais 2 estagiários de história, em um momento que havia o interesse de construir uma equipe de profissionais para pesquisar, documentar e escrever sobre a história do Flamengo.
No período de atuação na equipe de história, foram desenvolvidas pesquisas, entrevistas de memória oral, mesas de bate-papos com atletas, pesquisadores, jornalistas, materiais que ajudavam a buscar fontes primárias para o trabalho de pesquisa.
O Clube de Regatas do Flamengo é uma associação civil, sem fins lucrativos e de utilidade pública, fundado em 1895. Estamos falando de um Clube que em 2023 teve um faturamento de 1,3 bilhões de reais e possui uma das maiores torcidas do país. Por isso, desde sua origem, o Educativo nunca pensou em colocar preço em suas visitações, pois entendemos que democratizar o acesso está alinhado com as diretrizes estabelecidas no estatuto do Clube sobre a sua função social e a missão do Departamento de Patrimônio Histórico, conforme o “Artigo 2º: VI – Atividades culturais e de promoção à cultura, através de projetos, programas e medidas que fomentem os conhecimentos históricos e as tradições do FLAMENGO, por meio de espetáculos, cursos, simpósios, artes audiovisuais, exposições, concursos e quaisquer manifestações culturais vinculadas aos objetivos do Clube” (2015, p. 5).
Existia esporadicamente uma demanda de escolas e projetos que queriam conhecer o antigo museu Fla Memória e a própria sede social. Isso era feito de forma muito improvisada com quem estivesse disponível da equipe de história, era uma visita muito expositiva sem nenhum tipo de aprofundamento histórico ou organização pedagógica. Nós, estagiários da equipe de história, enxergamos uma necessidade e resolvemos construir uma visita mais pedagógica. Assim, foi elaborado um percurso e um roteiro, que até então seria livre com o auxílio de totens espalhados pelo clube com QrCode, que trariam trechos da história dos locais com fotos de acervo. Porém, por diversas questões, não houve a construção desses totens, por isso a visita mediada se tornou uma possibilidade. Na época, o educativo surgia e foi necessário realizar um trabalho duplo para manter as pesquisas e receber os visitantes, resultando em um calendário inicial bem enxuto. Para colocar em prática o roteiro elaborado, andamos pela Gávea e pensamos em todos os pontos de paradas e suas potencialidades, o que da pesquisa podia ser utilizado em cada parada, tempo de percurso, paradas para banheiro e água, onde tínhamos autorização de entrar, tudo isso foi pensado antes da primeira visita oficial.
Surge então o primeiro grupo com interesse de realizar a visita, que foram os jovens do Departamento Geral de Ações Socioeducativas (Degase). Foi com os grupos dessa instituição que começamos a colocar em prática nosso modelo de visita, testando pontos, discursos, rotas. Nesse primeiro momento, também nos deparamos com outro desafio, o acesso aos espaços. Os esportes funcionam de forma muito independente dentro do Clube, pois o Flamengo também é um clube poliesportivo de alto rendimento, e queríamos o acesso onde acontecem os treinos, nas quadras e ginásios de basquete, ginástica artística, Judô, Remo etc. Apresentamos o projeto de visita e conseguimos as autorizações para acessar os espaços, alinhando também com o Fla Gávea que é o departamento que administra todos os acessos da sede social. Montamos o projeto de visita, testamos, apresentamos à nossa gerência e diretoria, que também apoiaram a ideia de ter um Educativo e uma equipe focada em mediação pedagógica. Conseguimos as aprovações e autorizações que precisávamos, e começamos a realizar as visitas na Gávea e ao Fla Memória (antigo espaço de memória do Clube) de forma sistematizada, com divulgação e agendamento.
Durante esse processo de alinhamento do Educativo, a formação sobre educação museal foi essencial para construir os alicerces teóricos do trabalho. Frequentamos os encontros da Rede de Educadores de Museus, realizamos visitas técnicas em diversos educativos de museus de origens diversas, conhecemos os modelos de visita de outros clubes, e procuramos construir a partir de outros exemplos um modelo que se adequasse a nossa necessidade. Assim, o Educativo do Flamengo foi sendo construído e modelado durante suas práticas.
Em meados de 2019, com as visitas aumentando, entendemos que era hora de se separar da equipe de história e focar nossos esforços na construção desse Educativo. Nesse período, participamos de diversos cursos, mesas e visitas técnicas nos diversos tipos de museus que possuíam educativo. Conhecemos os museus de esporte que tinham uma natureza parecida com a nossa e procuramos neles todo o tipo de referência, inclusive de montagem de equipe e planos de carreira, já que era uma área de atuação nova dentro do Flamengo. No início de 2020, havíamos sido efetivados como funcionários do Educativo, tínhamos uma boa média de visita por mês e já tínhamos traçado um plano de trabalho junto de um orçamento para começar a fornecer transporte e alimentação, essencial para atender o nosso público-alvo, a saber, pessoas em vulnerabilidade social. Com tudo aprovado, começa a pandemia e tivemos que interromper os planos.
No período pandêmico, procuramos continuar nossa formação sobre educação museal, organizar os projetos e aprofundar nossas pesquisas históricas sobre o Clube. Com o retorno dos trabalhos em 2021, pudemos colocar em prática o plano traçado e começamos a acionar a nossa rede de contatos para distribuir os ônibus que tínhamos e os atendidos foram principalmente os projetos sociais que tinham uma grande procura para a atividade. Também queríamos a participação das escolas, por isso montamos uma lista de transmissão com todas as coordenadorias regionais da cidade e enviamos uma breve apresentação e convite para agendamento de visita. Além das visitas pela Gávea, elaboramos atividades para serem realizadas no Museu do Flamengo, começamos com uma atividade para o período de férias escolares em julho. Montamos nossa primeira atividade chamada “A trilha do urubu”, que dialogava com a exposição, e até o final do ano de 2021 pensamos em diversas atividades e jogos que os visitantes poderiam usufruir para ter uma experiência diferenciada dentro das limitações que o antigo museu oferecia.

Em 2023, uma grande mudança: o novo Museu Flamengo foi inaugurado no dia 4 de agosto com uma área de 1.200 m², tendo a história do Clube contada ao longo de 14 áreas temáticas, com 7 telas interativas espalhadas pelo Museu. O Educativo participou efetivamente da sua elaboração na parte de acessibilidade digital e física, e da seleção e treinamento dos novos mediadores terceirizados, realizando periodicamente cursos de formação sobre mediação e a história do Clube.
Atualmente, as visitas do Educativo têm como parte do roteiro entrar no novo Museu Flamengo, na Sede Náutica e a Sede Social, todos na Gávea, tendo uma duração média de 3 horas de visitação, que incluem o uso de objetos mediadores que proporcionam uma imersão mais participativa junto de atividades físicas que se relacionam com a rotina esportiva do Clube, com um público diverso. O Setor é também responsável por atividades educativas ao público pagante do Museu em datas festivas.
Atualmente, o Educativo conta com quatro programas em sua agenda de atividades. E todos eles possuem nomes que fazem referência lúdica a cultura do Clube, como por exemplo a “Trilha do Urubu”, que são as visitas pedagógicas mediadas na Gávea e ao Museu, que pode ou não ser beneficiada com transporte e alimentação fornecida pelo Clube através de sorteio, ou indicação de projetos do Departamento de Responsabilidade Social do Flamengo. As visitas da Trilha do Urubu são divididas em duas categorias: Espontânea, quando vem de forma agendada com o próprio transporte, e Convidada quando utiliza o transporte oferecido pelo Clube e também é agendada. E suas principais características são ter uma visita mediada através de temas pré-definidos no momento do agendamento como; Mídia, Contexto Histórico, Esportes olímpicos, Ídolos e Linguagens, sempre possibilitando uma visita personalizada, essa ideia de dividir a visita em temas foi inspirada na Ficha de agendamento escolar que o Museu do Futebol utiliza.

O caso do Educativo do Museu Flamengo é emblemático ao demonstrar como um projeto pedagógico bem planejado pode ampliar o impacto social de um museu esportivo. Com ações que vão além da simples mediação de visitas, a equipe educativa desenvolveu estratégias de inclusão, acessibilidade e diálogo crítico sobre o patrimônio esportivo e sua relação com aspectos sociais, políticos e culturais. A criação de atividades interativas, o uso de objetos mediadores e a priorização de grupos em situação de vulnerabilidade reforçam o compromisso com uma educação museal da Nova Museologia.
PARA SABER MAIS
https://museuflamengo.com/educativo-museu-flamengo/
