Notas sobre a Festa de São Benedito em Aparecida/SP, 2025
por David Ribeiro
O presente relato trata da realização de pesquisa de campo durante a Festa de São Benedito na cidade de Aparecida/SP, considerando a sua relevância na congregação de Congadas e Moçambique do Vale do Paraíba e de outras regiões do país, sobretudo dos estados de Minas Gerais e Espírito Santo. A ida a esta festividade faz parte da construção da pesquisa sobre a Coleção Sertaneja do Museu Paulista, no intuito de identificar agentes, redes e a cultura material em seu contexto pleno de uso.


Acompanhei os dias finais da festividade, que em Aparecida tradicionalmente começam na segunda-feira depois da Páscoa (21 de abril em 2025) e seguem até a segunda-feira seguinte. Este período de realização da festa já tinha sido destacado por Alceu Maynard Araújo para os anos 1940/50 a respeito de certas devoções oficiais a São Benedito na região do Vale do Paraíba. Nos dias finais da festa (da manhã do sábado à noite da segunda-feira), ocorre também o Encontro Nacional de Congadas, em 2025 com a presença de aproximadamente duzentos grupos — congadas, moçambiques, catupés, marujadas etc. — que ficam alojados em hotéis, pousadas e escolas públicas nas cercanias dos principais templos católicos de Aparecida, como o Santuário Nacional, a Basílica Histórica, a Igreja de São Benedito e a Capela de Santa Rita.
Desde as primeiras horas da manhã de sábado era possível ouvir os sons dos diversos instrumentos musicais ecoarem pelas ruas da cidade enquanto se encaminhavam para a Basílica Histórica de Nossa Senhora Aparecida. A pequena praça foi tomada pelos grupos, cada qual identificado pelas vestimentas e adornos que caracterizam seu pertencimento; os estandartes e bandeiras, que também são distintivos dos grupos, foram posicionados no adro da basílica junto de seus guardiões. Este momento inicial é chamado de “Acolhimento e consagração das Congadas”, que consiste em uma série de orações, conduzidas pelo vigário paroquial, o padre Paulo Roberto da Silva e pelo padre Vanderlei Sousa, este um homem negro, ambos mencionando reiteradamente a relevância do catolicismo popular e das manifestações culturais afro-brasileiras para a continuidade e grandeza dessa festa. Após a consagração das congadas, os grupos, um após o outro, são aspergidos com água benta e adentram a basílica, tocando e executando os passos das danças próprios de cada coletivo. Todos reverenciam a imagem de Nossa Senhora Aparecida que durante todo o evento são seguradas nas mãos dos reis (festeiros) do ano. No ciclo de 2025, iniciado ao fim da festa do ano anterior, os reis foram João Antônio Lourenço Barbosa e Cássia Maciel.



Na sequência da reverência a Nossa Senhora Aparecida, os grupos saíam pela porta lateral da Basílica Histórica e grande parte deles seguiu em direção ao Santuário Nacional percorrendo a Passarela da Fé, que liga ambos os templos dedicados à padroeira. Conforme a programação prevista, congadeiros e moçambiqueiros almoçaram no Centro de Apoio ao Romeiro. Por volta das 14h, os mesmos grupos se concentraram junto à entrada principal do Santuário Nacional, voltada para norte, preparando-se para serem acolhidos no maior templo mariano do mundo.
Assim como na Basílica Histórica, o grandioso cortejo adentrou o Santuário Nacional, circundou o altar-mor e seguiu em direção ao nicho onde está a imagem encontrada no rio Paraíba do Sul em 1717. Os grupos, assim como no primeiro cortejo, portavam seus estandartes e bandeiras, com referências a São Benedito, diferentes denominações de Nossa Senhora — do Rosário, Aparecida, de Fátima, da Conceição —, Santa Ifigênia, São Sebastião, São Jorge, ao Divino Espírito Santo etc.; expressavam a sua musicalidade através de instrumentos manufaturados ou industrializados, com cores geralmente relacionadas às usadas nas vestimentas definidoras das identidades de cada um; com suas cortes de reis e rainhas do Congo, com coroas nas cabeças ou nas mãos, cetros, ramalhetes e guardiões. Como se tratava, dessa vez, de um espaço mais amplo, o público presente pôde acompanhar com mais visibilidade as quase duas horas de procissão. Muitos dos integrantes beijavam o chão do altar-mor ou o tocavam com as mãos ao subirem sobre o presbitério; ao passarem diante da imagem de Nossa Senhora Aparecida no nicho visitado por milhares de pessoas diariamente, os músicos erguiam seus instrumentos ao alto. Era visível a grande emoção que tomava conta de muitos dos integrantes das congadas, com os olhos cheios de lágrimas, bem como do público, que não só acompanhava atento como desejava tocar as bandeiras e estandartes. Ao cair da noite, uma pequena procissão partiu da capela de Santa Rita, próxima ao Santuário Nacional, e levou a imagem dessa santa à Igreja de São Benedito, num percurso de pouco mais de um quilômetro.



No domingo pela manhã, ao longo da avenida Padroeira do Brasil e da rua Barão do Rio Branco, além de outras vias do entorno da Igreja de São Benedito, especialmente, os grupos de congada foram recebidos com café da manhã e se dirigiram, em seguida à praça onde seria realizada a Missa Conga, uma celebração católica com elementos musicais afro-brasileiros, presidida pelo padre Vanderlei Sousa. Nessa ocasião, pude identificar a presença da Irmandade dos Arturos, um quilombo da cidade de Contagem, Minas Gerais. Antes, no sábado, já tinha visto os bastante conhecidos reinados das comunidades quilombolas de Nossa Senhora do Rosário de Justinópolis (Ribeirão das Neves) e do Jatobá (Belo Horizonte). A celebração destacou a robusta presença mineira, exaltou a importância do catolicismo popular e dos diversos signos da ancestralidade africana que fortalecem os laços entre esses grupos provenientes, muitas vezes, de pequenas cidades de dez mil habitantes e que, por vezes, podem se sentir isolados. Em sua homilia, o celebrante ressaltou esses sentidos, bem como fez um verdadeiro manifesto antirracista a partir de referências católicas. O público presente à missa ocupava quase todos os cantos da praça em frente à Igreja, o próprio templo, o piso superior da rodoviária, contígua à praça, que servia como uma espécie de camarote. Nas ruas laterais, a celebração convivia com as barracas da festa e os bonecões conhecidos das festas valeparaibanas: José Paulino e Maria Angu.
Na tarde de domingo, a partir da Escola Municipal de Ensino Fundamental Professora Maria Aparecida da Encarnação, bairro da Ponte Alta, deu-se início à procissão do mastro, que seguiu em direção à Igreja de São Benedito. O cortejo era formado por alguns grupos de congada, pela Irmandade de São Benedito de Aparecida — fundada em 1909 —, pelos guardiões de São Benedito e por dezenas de fiéis que carregam o tronco de madeira, pintado e adornado com pequenas imagens do santo, a bandeira que será fixada em seu topo (que é, de fato, um adorno circular com flores e fitas coloridas), e um andor. O percurso, de um quilômetro, é acompanhado por centenas de pessoas nas ruas, e o momento do levantamento é um dos raros de silêncio quase absoluto: depois da bênção, das orações, o mastro é levantado defronte à Igreja, com o público dirigindo-se a ele em seguida para escrever seus nomes, pedidos e agradecimentos no tronco. Sob o símbolo “plantado” na terra, também são colocados pedidos escritos em papel por crianças de escolas públicas da cidade. Na sequência, tem início a Cavalaria de São Benedito, um costume também antigo, que reúne centenas de devotos da região, sobretudo de Guaratinguetá, em seus cavalos e mulas, percorrendo as ruas do centro de Aparecida. À noite, assim como nas noites anteriores, desde a segunda-feira depois do Domingo de Páscoa, foi celebrada a novena.


Na madrugada de segunda-feira, 28 de abril de 2025, o dia da festa, já era possível ouvir os sons das congadas pelas ruas de Aparecida. Elas se preparavam para a alvorada, às 5h da manhã, na Igreja de São Benedito. Diante do templo, ainda com a sua porta principal fechada, alguns grupos de congada já estavam posicionados, tocando e cantando em preparação. A primeira da fila era o Moçambique Luz Divina, da cidade de Luz, Minas Gerais, que adentrou a pequena Igreja pontualmente às 5h, já lotada e com os bancos dispostos lateralmente. Cada grupo adentrava, cantava uma ou duas peças, saudava o santo e alguns dos membros eram abençoados por um dos guardiões de São Benedito, com gestos que se assemelham a “bênçãos” de religiões afro-brasileiras. Acompanhei cerca de dez grupos — a alvorada de São Benedito seguiu até cerca de 8h, pouco antes da missa festiva solene, presidida pelo arcebispo de Aparecida, Dom Orlando Brandes, agora também com a presença de dezenas de Irmandades de São Benedito provenientes de diversas cidades do estado e de estados vizinhos. Entre um evento e outro da festa, teve início a distribuição de toneladas de doces bentos, cuja fila se estendia por dezenas de metros, que custava a diminuir ao longo de todo o dia. A festa se encerrou com uma grande procissão, cuja concentração começou por volta de 14h, encerrando-se por volta de 20h, quando também foram anunciados os reis da festa de 2026.


Observar e compreender a cultura material em movimento, em sua dinâmica de ativação, foi essencial para definir caminhos para a abordagem da coleção Sertaneja do Museu Paulista, considerando a continuidade daquilo que, conforme se acreditava, desapareceria. Faço menção especial a aspectos como a abrangência das referências culturais que hoje extrapolam e muito as localidades indicadas nos anos 1940/1950; às redes de agentes, seus pontos comuns e suas especificidades locais e regionais; às diferentes estéticas presentes, tanto nos aspectos materiais (instrumentos musicais, adereços, vestimentas, estandartes, bandeiras etc.) quanto nos imateriais (passos de dança, modos de tocar e cantar, composições das cortes, estruturas de cortejo etc.). Cabe ressaltar que essa celebração faz parte do dossiê que instruiu o pedido de registro dos Saberes do Rosário: Reinados, Congados e Congadas no Livro dos Saberes do Patrimônio Imaterial brasileiro, realizado pelo IPHAN em 17 de junho .
Ademais, a participação nesse evento reafirmou o meu interesse em investigar e mapear a devoção a São Benedito no estado de São Paulo, identificando as festividades, capelas, igrejas, santuários, irmandades e demais agremiações dedicadas ao santo. Pouco tempo depois desta festa estive na Festa de São Benedito no bairro do Cururuquara (Santana do Parnaíba), realizada desde 13 de maio de 1888 para festejar a abolição da escravidão e em setembro próximo estarei na Festa de São Benedito da cidade de Tietê, uma das maiores e mais antigas do país. Ambas estão fortemente associadas ao Batuque de Umbigada e ao Samba de Bumbo, matrizes do samba (rural) paulista.
Para saber mais:
Araújo, Alceu Maynard. Folclore nacional: Festas, bailados, mitos e lendas. 2ª ed. São Paulo: Melhoramentos, 1967.
