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De corrente a Quelé: o encontro Terreiros e(m) museus e a ressignificação de um objeto

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por: Aline Montenegro Magalhães e David William Aparecido Ribeiro

 

Seguindo o caminho aberto pela realização do Encontro Irmandades Negras e(m) museus, em 2023, o Museu Paulista da Universidade de São Paulo promoveu o Encontro Terreiros e(m) museus, como parte da sua programação da Semana da Consciência Negra, em 2024. Sacerdotes do candomblé, detentores de saberes e pesquisadores sobre o tema compartilharam conhecimentos e vivências sobre a materialidade sagrada dos terreiros nas coleções de museus, para além de uma perspectiva etnográfica ou folclórica.

O objetivo foi divulgar experiências como a guarda compartilhada da coleção “Nosso sagrado”, entre o Museu da República e os povos de terreiro, bem como a curadoria da Coleção Zaira Trindade no Museu Histórico Nacional, coordenada pelo pai de santo Tat’Etu Lengulukenu. A ideia foi fazer com que esses casos inspirassem e fortalecessem metodologias e práticas de historicização e identificação de objetos sagrados de religiões de matriz africana, presentes nas coleções de museus de história, a exemplo da “Coleção Sertaneja” preservada no Museu Paulista e no Museu de Arqueologia e Etnologia, ambos da Universidade de São Paulo. 

Oriundas de apreensões policiais, que criminalizavam a prática religiosa afro-brasileira, principalmente entre finais do século XIX e princípios do século XX, mas também de doação feita pelos próprios praticantes, essas coleções merecem outros olhares e outros sentidos, para além daqueles atribuídos quando foram adquiridos pelos museus. A produção do conhecimento compartilhado sobre esses objetos, segundo uma epistemologia da encruzilhada, contribui para que se qualifiquem e ressignifiquem artefatos, atribuindo-lhes valor documental para outras escritas da história em museus. Histórias do povo preto que foram e têm sido marcadas pela criminalização, pelo silenciamento e pela negação, e que podem girar para o reconhecimento de potências e protagonismos, em sintonia com as atuais produções historiográficas e com as demandas sociais por memória, reconhecimento e reparação. 

Esperou-se que o evento aproximasse os povos de terreiros do Museu Paulista — como tem sido a aproximação com as irmandades negras, em trabalhos de identificação de objetos e pessoas representadas nessa instituição. Que contribuísse para promover e fortalecer parcerias e possibilidades de produção historiográfica afrodiaspórica nos museus, fundamentada em pesquisas interdisciplinares e interinstitucionais, bem como nas práticas de curadoria compartilhada. A ideia é que os museus possam contribuir para o cumprimento da Lei 11.645/2008, que torna obrigatório o ensino de história e culturas afro-brasileiras e indígenas, combatendo o racismo religioso e as perseguições a terreiros que, infelizmente, ainda são manchetes nos jornais.

Com essas palavras, apresentamos o evento, sobre o qual Elisa Ferreira Rocha Campos já escreveu por aqui. Ao atualizarmos os tempos verbais, pretendemos compartilhar nossas vivências e olhares sobre esse encontro que tivemos o prazer de organizar, como docentes do Museu Paulista, diretamente envolvidos com as pesquisas sobre o tema. A ideia é publicizar textos com nossas impressões, não apenas como registro do que aconteceu, mas também como exercício de continuidade dos debates e das reflexões ali realizados, junto a um público maior que aquele que teve a oportunidade de participar presencialmente do Encontro. 

***

Em 1928, um conjunto de quase uma centena de objetos sagrados de terreiros da Bahia, sequestrados pelas forças policiais no contexto das perseguições oficiais às religiões afro-brasileiras, ingressou no acervo do Museu Paulista por intermédio da Secretaria de Justiça baiana, que “doou” os objetos — que não lhes pertenciam. Na década de 1940, o museu recebeu também um conjunto de objetos sagrados de terreiros paulistas, igualmente “doado”, mas desta vez pela Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo. Esses conjuntos, classificados como parte do “Registro Geral Sertanejo”, constituíam uma coleção voltada para servir aos estudos e representações de modos de vida vistos como vestígios de um passado que em breve deixaria de existir. Junto a eles, a chamada Coleção Sertaneja, pelo viés dos estudos etnográficos e folclóricos, documentava sobretudo a cultura material de um Brasil negro-mestiço e notadamente rural, inspirando-se na coleção homônima do Museu Nacional.

A história desses objetos, violentamente retirados de suas casas, de seus territórios sagrados, ganha a possibilidade de um reencontro a partir do Encontro de Terreiros no Museu Paulista, cujo início, bastante significativo, foi a promoção de um contato direto entre babalorixás, sacerdotes de religiões afro-brasileiras, pesquisadores e interessados. Considerando em especial a presença de José Adário dos Santos, mais conhecido como Zé Diabo, babalorixá e ferreiro baiano, bem como a maior estabilidade, em termos de conservação, dos objetos em metal, os priorizamos para esse momento de diálogo. Grande parte dos que foram postos à disposição desse grupo são os provenientes dos terreiros baianos, que nos anos 1980/1990 foram transferidos do Museu Paulista para o Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo (MAE-USP), por não terem sido considerados, à época, pertinentes a um museu de História, mas de Etnologia. Aliás, agradecemos muito ao diretor do MAE/USP, Eduardo Neves, pela autorização do empréstimo e a Carla Gibertoni, Rosa Vieira e Meliam Gaspar pela parceria e participação nessa roda de conversa.

Os objetos foram colocados sobre uma grande mesa e na medida em que eram apresentados, S. Zé Diabo e Tat’Etu Lengulukenu, sacerdotes do Candomblé iam identificando-os, explicando seus usos e significados sagrados. Tudo foi devidamente registrado.

 

Da esquerda para a direita: Eduardo Possidonio, Ueslei de Jesus Barros (Tata Mutuminu), Tat’Etu Lengulukenu, Reginaldo Prandi, David Ribeiro (em pé), Eduardo Domene Gehrke – Logunwa, Suzemara Bomfim dos Santos Pio, Lucas Marques, José Adário dos Santos (Zé Diabo), Shirley Ribeiro, Aline Montenegro, Hélio Nobre e Thiago Malakowsky (em pé), Aline Zanatta, Solange Ferraz de Lima, Lia Laranjeira, Rosa Vieira e Carla Gibertoni. Foto: José Rosael/Museu Paulista-USP

Na maioria dos casos, a denominação dos objetos correspondia ao que estava na lista das apreensões, a mesma que se manteve ao longo desses anos como referência aos artefatos: ofá de Oxóssi, espadas de matança, ferramentas de Ossain, etc. Entretanto, chamou-nos atenção um item classificado como “corrente” e que foi identificado por S. Zé Diabo como um Quelê de Ogum, o senhor dos ferros. Inclusive, com a demonstração de que o tamanho da corrente era a medida certa para envolver o pescoço e que as pontas se uniam em um fecho.

 

Parte de uma das páginas da lista de objetos transferidos do Museu Paulista para o Museu de Arqueologia e Etnologia. Observe na linha nº 53 a denominação “Corrente com gancho – culto Afro-Brasileiro”. Foto: Aline Montenegro, 2024
José Adário dos Santos (Zé Diabo) analisando a corrente e identificando-a como um Quelé de ogum
Detalhe de foto de José Rosael, Museu Paulista da USP, 2024.

 

Segundo Raul Lody, Quelê, conhecido também como “gravata de orixá ou de santo, é um tipo de gargantilha que o noviço usa em período de obrigação. Significa a aliança entre a recém-feitura  do iaô e o deus-tutelar”. Quando é feito em corrente de ferro, latão ou cobre é de Ogum, algo que S. Zé Diabo conhece bem, não só por forjar objetos semelhantes, mas também por ser “amigo de Ogum”. E o objeto é oriundo de algum terreiro da Bahia, terra onde S. Zé nasceu, se iniciou no Candomblé, se tornou mestre no ofício de ferreiro de orixás e vive até os dias de hoje, o que, certamente, facilitou a identificação.

Essa experiência demonstrou como é crucial ouvir os detentores de saberes e contar com eles na curadoria de coleções, pois somente um olhar autorizado permitiu uma ressignificação do artefato, a partir da atribuição de sua denominação original. Isso nos fez ver o objeto de outra forma, possibilitando-nos conhecer o que não era sabido por quem o apreendeu e musealizou, ampliando sua potência como documento histórico da experiência religiosa afro-diaspórica representada nos museus. Que possamos transformar essa prática de compartilhamento de saberes na interpretação de nosso acervo como uma política de pesquisa e produção do conhecimento sobre coleções museológicas!

Para saber mais:

LODY, Raul. Dicionário de Arte Sacra e Técnicas Afro-Brasileiras, Pallas, 2003.

CRUZ, Bárbara e MARQUES, Lucas (Orgs). Alágbedé: retrospectiva José Adário dos Santos. Caixa Cultural Salvador, 2023. (catálogo da exposição que aconteceu na Caixa Cultural de Salvador entre 20 de outubro e 3 de dezembro de 2023.

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