Duque de Caxias: memória escolar e patrimônio: perspectiva para o Professor-Pesquisador.
Por: Alyne Mendes Fabro Selano
No ano de 2014 foi iniciado o programa PROFHISTORIA, um programa que ousou inspirar o protagonismo docente na área da pesquisa. Para o professor, reconhecer-se como pesquisador é um desafio, diante de tantas demandas do cotidiano da profissão. O olhar apurado do pesquisador faz nascer muitas reflexões importantes que, de certa maneira, são incorporadas à prática e encontram relevância nesse espaço de muitas disputas.
O local é a Baixada Fluminense, mais precisamente Duque de Caxias. Ali está a mola propulsora da experiência, o Instituto de Educação Governador Roberto Silveira – IEGRS, escola de formação de professores, fundada ainda na década de sessenta. Minha experiência na escola começou em 2013 e na ocasião, como professora de História recebi a missão de apresentar a escola para os novos estudantes. O que a direção não sabia era que eu também me via como uma estrangeira naquele lugar, não possuía nenhum conhecimento sobre a instituição e muito menos partilhava das narrativas ali construídas. Nesse contexto, contei com o auxílio do Centro de Memória e História da Educação da Baixada Fluminense – CEPEMHEd – que havia organizado no ano anterior a exposição comemorativa do cinquentenário da escola, com um corredor da memória e um espaço denominado “Instituto Histórico” do IEGRS, nele estavam dispostos objetos, fotografias, mobiliários e documentos escolares das décadas de 1970, 1980, 1990. O trabalho nesse espaço partiu da necessidade de não somente de apresentá-lo aos estudantes, mas também entender em que medida eles se sentiam parte daquela história. Sabemos que compreender a escola como patrimônio e enxergar-se como agente histórico desse processo permite ao estudante o protagonismo necessário e estimula a prática cidadã de ocupar com propriedade o espaço escolar.

O resultado de dois anos imersos no ambiente da escola com esse olhar de pesquisadora, em um processo de pesquisa-ação com os estudantes voluntários foi a produção de uma exposição inteiramente realizada pelos estudantes que iniciaram a trajetória de seleção de objetos ainda quando estavam no nono ano do Ensino Fundamental II e terminaram a exposição mediando e se apropriando do acervo em 2016, quando já estavam no Ensino Médio cursando a Formação de Professores. A exposição “Nosso espaço, nosso tempo: diálogos sobre os tempos no IEGRS” foi um marco importante no reconhecimento da memória escolar, não pela exaltação do seu passado, como escola formadora de gerações em uma região importante de Duque de Caxias, mas como o local que encontra espaço para o diálogo entre presente e passado, destacando múltiplas narrativas a respeito da importância da escola na vida do indivíduo, afinal, concordamos com Mario Chagas quando afirma que o museu não apenas um local de armazenamento de objetos, mas um espaço de diálogo e transformação, onde diferentes perspectivas e experiências se encontram e se confrontam, produzindo identidades. (CHAGAS, 2011).
Certamente essa experiência pedagógica englobou os vários atores presentes na escola, foi necessária a escuta democrática da direção sobre a relevância do projeto, o empenho das professoras-pesquisadoras que fazem parte do CEPEMHEd e o engajamento dos estudantes que acreditaram em seu potencial. Além disso o arcabouço teórico oportunizado no decorrer do curso do mestrado e o diálogo com os professores que compunham o programa do PROFHISTÓRIA garantiram o alcance do objetivo traçado.
Experiências como essa são importantes para despertar nos professores o olhar atento para as práticas que eles promovem. A escola constrói saberes, entrelaça relacionamentos e marca sua relevância na sociedade também como um espaço político. Em várias escolas da Baixada Fluminense são produzidas ações que conectam os estudantes às histórias e que produzem sentido à função social que a escola exerce por intermédio do CEPEMHEd que desempenha um excelente papel para a promoção do patrimônio escolar, entrelaçado memórias individuais e coletivas, salvaguardando os acervos e promovendo projetos de interlocução desses espaços com os estudantes atuais.
Notadamente ontem e hoje, memória e patrimônio são terrenos de forte disputa e para o professor-pesquisador as atividades promovidas pelo CEPEMHEd podem criar diversas possibilidades de compreensão não somente da história da educação, mas contribuem para a atuação, dando sentido e importância à escola, valorizando sua histórica e suscitando debates que envolvem projetos e intenções políticas a respeito da educação na atualidade, perpassando pelos currículos posto e vivido e muitas vezes culminando no reconhecimento desse espaço como um objeto de reflexão importante para o futuro que se deseja construir, afinal, vale destacar que uma das grandes preocupações dos grupos que dominaram e dominam as sociedades é se tornarem “senhores da memória”, afinal, “os esquecimentos e os silêncios da história são reveladores desses mecanismos de manipulação da memória coletiva” (Le Goff, 1996, p. 426).
É por essa e outras razões que devem existir pessoas e órgãos interessados na visão da escola como patrimônio. A UERJ, por exemplo, conta com a atuação do Núcleo de Pesquisa História e Memória das Políticas Educacionais no Território Fluminense, que desenvolve um importante papel nessa vertente, através de pesquisas que envolvem a investigação das práticas educacionais desde o século XIX analisando, em linhas gerais, a história das instituições de educação no território fluminense, a origem e constituição dos sistemas públicos de ensino, a trajetória dos conselhos de educação nos sistemas estadual e municipal além da história e memória contida nos acervos oficiais. Porém, na região da Baixada Fluminense as ações ainda são incipientes, pois além do CEPEMHEd, somente o Centro Federal de Educação Tecnológica Celso Suckow da Fonseca – CEFET-Nova Iguaçu, através da iniciativa da professora Zuleide Simas da Silveira organizou o acervo escolar com o propósito de preservar a memória escolar. Esse projeto foi realizado no ano de 2009 e em novembro de 2017, durante as comemorações dos 100 anos do CEFET/RJ, foi lançado o livro “Registros de uma instituição centenária – Cefet/RJ”, que contou com a colaboração da professora Zuleide e outros pesquisadores interessados na história da educação técnica e tecnológica na região de Nova Iguaçu que tal qual Duque de Caxias, também pertence à Baixada Fluminense.
As inciativas relacionadas à preservação da memória escolar são importantes, mas ainda precisam estabelecer conexão direta com os professores, pois são eles que conhecem o cotidiano da escola, que participam da sua construção e que precisam despertar para a relevância científica de sua profissão. Devido ao cenário de constante desvalorização, os professores tendem a tentar atender às suas necessidades urgentes e, conectados à muitas escolas e múltiplas realidades, naturalizam e deixam de documentar suas práticas e até de problematizar suas práticas, não se atentando para o fato, que estamos constantemente fazendo história, somos seres históricos.
Além disso, sabemos que ações relacionadas à preservação são também ações políticas e não podemos deixar silenciar vozes importantes no processo de repensar o papel e a relevância do espaço escolar. Não podemos negligenciar o direito à discussão e à reflexão sobre esse espaço que tem, dentre muitas funções, o compromisso com a formação crítica dos indivíduos. É, portanto, primordial defender a sobrevivência de centros de memória e ações de núcleos de memória escolar e suas atuações e lutar para garantir que as vozes sejam ouvidas a fim de garantir o acesso e a pesquisa para essa e outras gerações.
Para conhecer mais a exposição “Nosso espaço, nosso tempo: diálogos sobre os tempos no IEGRS”: https://vimeo.com/1107427533
Notas
¹O PROFHISTÓRIA é um mestrado profissional em Ensino de História, criado em 2013 e coordenado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Ele é oferecido em rede nacional, com participação de várias universidades públicas brasileiras. Ao final do curso, o professor deve apresentar um trabalho com aplicação prática, como materiais didáticos, projetos pedagógicos ou ações educativas.
²O CEPEMHEd foi criado a partir do Decreto Municipal nº 4.805, de 23 de dezembro de 2005. Esse decreto instituiu o centro no âmbito da Secretaria Municipal de Educação de Duque de Caxias, com o objetivo de preservar, catalogar e divulgar a história da educação local, especialmente a partir de documentos, objetos e memórias de instituições escolares da região da Baixada Fluminense.
³Acesse para saber mais: https://historiaememoria.com/
A obra reúne fotos, documentos e relatos que reconstituem a história da instituição desde sua origem como Escola Normal de Artes e Ofícios Wenceslau Braz, em 1917. Mais informações em: Centro Federal de Educação Tecnológica Celso Suckow da Fonseca – CEFET/RJ
Para saber mais:
CHAGAS, Mário de Souza. Ensaios de museologia. Rio de Janeiro: Editora Garamond, 2011.
LE GOFF, J. História e memória. Campinas, SP: Ed. UNICAMP, 1996
RICOEUR, P. A memória, a história, o esquecimento. Campinas, SP: Editora da UNICAMP, 2007.
