“Vendo o passado” com o professor Manoel Luiz Salgado Guimarães
por Aline Montenegro Magalhães
O corpo a morte leva
A voz some na brisa
A dor sobe pra’as trevas
O nome a obra imortaliza
João Nogueira e Paulo César Pinheiro. Súplica, 1979
Muito antes de vivenciarmos o luto pela perda do Professor Manoel Luiz Salgado Guimarães, o próprio mestre nos ajudou a compreender como esse trabalho mobiliza o interesse pelo passado, esse tempo que não mais existe, mas que continua desejado frente à consciência da ruptura que distancia passado e futuro. Hoje, valho-me das reflexões compartilhadas com o próprio Manoel a respeito do luto, para lembrar sua atuação como professor e seus ensinamentos sobre o ofício do historiador.
No momento em que toco os dedos no teclado do computador, recorro a uma série de vestígios de uma convivência de doze anos. Meu objetivo é oferecer à leitora e ao leitor uma idéia do importante papel que o professor Manoel teve na formação de historiadores que passaram pela Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ e pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ, entre finais da década de 1980 e o primeiro decênio dos anos 2000, quando veio a falecer, deixando um grande legado. Tal intento coloca-me diante do desafio de equilibrar o rigor da crítica em minha narrativa, o que lhe era tão caro, com a memória afetiva que evoco e que muito me emociona. Corro o risco, ainda, de carregar nas tintas de uma “escrita de mim”. Portanto, já adianto minhas desculpas.
Do que encontro, escolho nossa troca de mensagens por correio eletrônico. São pareceres de trabalhos enviados, agendamentos de reuniões, relatos de acontecimentos da vida e congratulações, sempre muito afetuosos e generosos, que me ajudam a mapear a relação entre orientanda e orientador chamada muitas vezes por ele como da “filha intelectual” com “pai doutor”, lembrando sua experiência acadêmica na Alemanha.

A possibilidade de acessar um arquivo pessoal por meio do qual faço a releitura de conversas que marcaram diferentes fases da minha vida, desde a iniciação científica, até o doutorado, já seria um assunto interessante para escrever sobre o professor Manoel. Afinal, o que seria o arquivamento se não uma forma de reter algo das nossas experiências sob o “regime de uma velocidade assustadora”? Questionamento partilhado em suas aulas e declarado na entrevista concedida à Revista de História da Biblioteca Nacional, quando abordou as angústias da sociedade contemporânea. E aí entra a tecnologia e sua capacidade de armazenamento, alimentando nossa ilusão de domínio sobre algo que efetivamente não temos a menor ingerência: o tempo.
Mas, como já dito, não é o propósito aqui discorrer sobre as modernas formas de arquivamento a partir do largo uso da tecnologia. A referência às mensagens eletrônicas foi apenas para iniciar uma prosa sobre o assunto mais recorrente nessa correspondência virtual e que está fortemente marcado na minha formação e na de muitos de seus alunos como educadores e pesquisadores: o luto como ativador da produção historiográfica nos processos de patrimonialização, especialmente, o caso dos museus.
Manoel nos ajudou a compreender como as políticas de preservação do patrimônio entre as quais os museus, são indícios de uma maneira de lidar com a ausência e o sentimento de luto por ela provocado. Estão relacionadas a um esforço de enfrentamento da sensação de aceleração do tempo, por meio da construção de refúgios que estabelecem elos entre o presente e o passado, gerando certo alento frente às incertezas do futuro. Especialmente na contemporaneidade, em meio ao ritmo veloz das mudanças, observou-se grande crescimento da demanda por memória, mobilizando sua materialização em vestígios dos tempos que se deseja reter de alguma maneira. E essa obsessão, que toma a forma de bandeiras como o dever, o direito e a vontade de memória, acaba fazendo com que a atividade da lembrança seja mais valorizada do que outras formas de acesso ao passado, em especial a via analítica da História. Nessa perspectiva, vive-se sob o imperativo da memória, gerando excessos que visam à dar suporte a processos de construção de identidades, cada vez mais diversas e plurais, aos quais as políticas de preservação do patrimônio e as práticas de musealização são colocadas a serviço.
Partindo desse diagnóstico do presente, Manoel dedicou-se ao estudo sobre os “lugares de memória”, procurando identificar as condições de produção do passado nesses investimentos da sociedade moderna. Nesse sentido, os museus de história foram analisados como espaços onde está em jogo a presentificação do passado, a sua exibição como algo a ser vivenciado a partir do contato com seus vestígios.
Assim, como parte de suas pesquisas, com as quais contribuí como sua bolsista de Iniciação Científica entre 1998 e 2000, e prática pedagógica, o Museu Histórico Nacional (MHN), transformava-se em sala de aula. Afinal, acredito que não haja entre seus alunos, pelo menos os que com ele tiveram aulas entre 2000 e 2009, quem não fez a visita ao MHN.
Nessas ocasiões, ao transpormos os portões do Pátio de Minerva, tínhamos a nítida sensação de vivenciar uma temporalidade diferente, pois deixávamos para trás o burburinho e a pressa do nosso tempo, para entrarmos em contato com o silêncio e o ritmo quase estático de um passado que nos foi oferecido à visão. Começava pela própria antiguidade do conjunto arquitetônico que abriga o MHN, cuja construção tem início no século XVI. Paredes e arcadas de pedra outrora à serviço da defesa militar da costa brasileira, passavam a compor a ambientação de uma “viagem no tempo”. Entretanto, essa “viagem” costumava ser alvo de nossas reflexões por meio do elenco de perguntas feitas por Manoel: por que um museu sobre a história nacional? Que escolhas e intenções podemos identificar em suas exposições?… Aliás, a provocação por meio de perguntas era uma marca registrada das suas aulas.
Eu costumava fazer essa visita com o grupo, apresentando o museu. Nossa primeira parada era no Pátio Epitácio Pessoa, mais conhecido como Pátio dos Canhões, onde o silêncio e o recolhimento de uma arquitetura militar inspirada nos monastérios contrasta, com o barulho e a alegria das crianças que ali podem brincar, correr, comer e, o que mais se deseja fazer em um museu, tocar nos objetos. Por se tratar de artefatos fabricados com cobre, bronze, ferro, etc., materiais duradouros, sua exposição ao ar livre e o contato dos visitantes não são ameaças a sua conservação. Silêncio, paz, barulho e alegria das bagunças infantis só são possíveis nesse espaço porque os objetos ali expostos foram destituídos das funções para as quais foram feitos. As peças de artilharia não mais atiram, nem causam estampidos… não matam. Estão ali reunidas por outra razão que não é a guerra, mas seu apaziguamento. Despertam até a simpatia de meninas e meninos que se sentem muito à vontade para colocar a cabeça dos coleguinhas na boca do “El Christiano”, canhão feito com o bronze derretido dos sinos das igrejas paraguaias para a participação do país na Guerra da Tríplice Aliança. Trazido ao Brasil como troféu e há anos requisitado como repatriação pelo Paraguai, também costuma ser montado por grupos de crianças que o fazem de “banana boat”. Assim, estabelecem um elo entre o visível da sua própria materialidade e tempos remotos impossíveis de serem vistos por não mais existirem, possibilitando uma relação harmoniosa entre o presente e os diferentes passados de conflitos, mortes e sofrimento ali representados.
Era nesse espaço que costumávamos falar sobre a história do MHN, criado em 1922, como parte das comemorações do Centenário da Independência. Além de comentar sobre a história da instituição, o Pátio era o lugar perfeito para se refletir sobre a história das produções narrativas nas exposições museológicas. Afinal, a disposição dos canhões lado a lado no curso dos arcos que formam a moldura do pátio é a exposição mais antiga do museu, datando de 1928. Os artefatos de artilharia foram organizados segundo uma lógica diferente daquela ditada pela História, pois não há a preocupação de agregar as pluralidades ali representadas, não só em números de objetos, mas em eventos da história que representam, em uma singularidade dotada de sentido. Não há ordenação cronológica, tampouco textos explicativos. As legendas são sumárias, proporcionando um acesso ao passado pela via dos sentidos, experiência que evoca a imaginação em detrimento da reflexão crítica, ou de uma compreensão racional.
Dali, passávamos à visitação ao circuito de exposição permanente, tendo a clareza de que ninguém estava ali para aprender sobre história do Brasil, muito menos para sair com respostas prontas a respeito. Estava em jogo a reflexão sobre as diferentes possibilidades de fabricação da história. Manoel nos instigava a pensar nas recorrências e silenciamentos dos discursos constituídos por objetos, imagens e textos. Nessa direção, nossos questionamentos nos levavam a pensar sobre os usos políticos do passado. Como o circuito expositivo pode ser indício de uma vontade de memória? Quais eram os interesses em tela? Que Brasil se quer representar? Como é possível identificar um objeto como documento ou alegoria do discurso? Sendo o esquecimento condição da memória, o que ficou silenciado? Como partir da falta para falar de História?
Tantas perguntas para chegarmos à conclusão de que a história do Brasil representada no circuito de exposição é um dos indícios que nos leva a compreender a própria instituição como lugar de história. E é aí que entramos nós, historiadoras e historiadores com o propósito de escrever história nos museus, partindo de uma reflexão crítica sobre sua historicidade e a função social que assume em diferentes momentos de sua existência. Ou seja, o papel dos historiadores que atuam em museus é questionar e refletir sobre as próprias escritas de história, fugindo à tendência sacralizadora e celebrativa dessas narrativas. Dessa forma, Manoel foi um dos responsáveis pela formação de muitos historiadores que atualmente ocupam esses lugares, contribuindo para a reflexão crítica no fazer historiográfico dos museus.
Ainda dói lembrar que a defesa da minha tese de doutorado, realizada no dia 21 de dezembro de 2009 foi a última atividade acadêmica do professor Manoel, que faleceu no dia 27 de abril do ano seguinte. Entretanto, me alegro ao saber que sua atuação docente, assim como seus escritos foram imortalizados de várias maneiras. Uma delas, por exemplo, está no que o professor Durval Albuquerque Jr. identificou como “efeito Manoel Salgado”, não apenas nas teses e dissertações por ele orientadas, mas também na presença cada vez maior de historiadores nos museus e no campo do patrimônio, lugares de atuação profissional para além das salas de aula do ensino básico e da Universidade. São historiadores que pesquisam e produzem narrativas conscientes de seu ofício realizado sob a forte tensão entre o rigor da disciplina, os interesses políticos de ocasião e as pressões por encantar visitantes… Um legado do professor e de sua arte de ensinar a história das diferentes possibilidades de “ver o passado”, fazendo do nosso luto algo construtivo para o campo e com que ele viva em cada um de nós.
1 – Versão editada e atualizada do capítulo: MAGALHÃES, Aline Montenegro. “Vendo o passado” com o professor Manoel Luiz Salgado Guimarães. In: André Freixo; Fábio Laurandi; Rodrigo Perez. (Org.). Experiências de formação. Um tributo ao professor Manoel Salgado. 11ed.Rio de Janeiro: Autografia, 2019, v. 1, p. 25-39.
