O que podem os educadores? Um encontro no MAM (BA)
por Carina Martins
Este é um texto que está pronto em minha cabeça desde 1 de maio de 2025. Três meses intensos me distanciaram dele, mas volto aqui para partilhar uma experiência impactante que foi um presente.
Dia do meu aniversário, decidi ir com meu namorado ao Museu de Arte Moderna, conhecido como Solar do Unhão, em Salvador, Bahia. Vimos uma exposição linda das obras têxteis de Goya Lopes e, depois, fomos ao espaço dedicado à arquiteta modernista Lina Bo Bardi.
O Espaço Lina Bo Bardi é composto pela sala da exposição ‘Reminiscências Museu de Arte Popular’, uma sala para pesquisas, e a grande sala das Oficinas do MAM para práticas educativas e de formação.

Ao entrar, fomos gentilmente recebidos por Bruno Costa, a quem perguntei sobre o funcionamento do restaurante ainda na porta da exposição. Bastou este gatilho para uma longa conversa, que partilho aqui com vocês para pensarmos juntos na potência da educação. Em menos de dez minutos, estávamos sentados na mesa de Lina Bo Bardi falando sobre arte, arquitetura, museus e educação, entre risadas e reflexões.
Antes, Bruno me explicou, com bastante encantamento, a relação entre a arquiteta e o local. Para quem não conhece, o Solar do Unhão fica em Salvador, em frente à Bahia de Todos os Santos. Foi construído no século XVI, mas prosperou no século XVIII como complexo destinado ao açúcar. Teve outras funções como fábrica de rapé, trapiche, depósito de mercadorias e até quartel. Na década de 1940, foi tombado pelo Serviço de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (SPHAN). O encontro com Lina foi em 1959, quando foi convidada para um projeto de requalificação do espaço, um enfrentamento à proposta de demolição para construção de uma grande avenida. A arquiteta defendeu a preservação do conjunto e o desvio do traçado, o que foi plenamente atingido. Conforme Marina Grinover destaca, Lina defendeu usos sociais diferenciados para o conjunto, como a transformação da Igrejinha em auditório, por exemplo. Já a senzala, foi transformada em espaço expositivo. O casarão foi recuperado e as janelas pintadas de vermelho. A escada icônica projetada por Lina foi inspirada no sistema construtivo dos carros de boi, incitando um movimento circular na planta quadrada e uma subida vagarosa, que permite um passeio pela arquitetura.

A intenção de Lina Bo Bardi era implementar uma Escola de Desenvolvimento Industrial, tendo o acervo popular como base. Para ela, educar era valorizar estes saberes, emancipar e desenvolver oportunidades de trabalho. Desenvolveu exposições que valorizavam objetos do cotidiano e artistas locais, além de promover o sincretismo e defender a arte como manifestação humana. Infelizmente, seu projeto inovador foi interrompido pelo Golpe de 1964, quando foi demitida e enfrentou perseguições. Para quem quer conhecer mais esta história, recomendamos o instagram “Lina na Bahia”, além, claro, o próprio site do Museu.
Voltemos ao encontro. Ao passar por uma coleção de ex-votos disponibilizada no teto de um corredor, Bruno me conta que foram coletados nas viagens ao Nordeste, as quais realizava em companhia de outros intelectuais. Coletados um eufemismo, pois eram retirados sem consentimento de pequenas igrejas e capelas. Eu disse: “ah, mas devia ser uma prática colecionista comum na época” e ele retrucou: “roubo é roubo né?”. Rimos alto. É isso, também repensar as origens de coleções que apreciamos envolve um exercício.
Sentamos na mesa da sala expositiva, ele me contou de sua formação. Estudou Design na Universidade do Estado da Bahia e atua no Museu há muitos anos, onde entrou como aluno das oficinas de artes, passando por assistente do curso de litografia e impressor. É um grande estudioso da obra de Lina Bo Bardi, o que fiz questão de aproveitar com perguntas sem fim. Conversamos sobre os desafios de educar em museus, algumas posturas de visitantes que parecem mais interessados em tirar selfies instagramáveis e também ouvi casos muito engraçados de mediações de meia-tigela, como um guia de turismo que apresentou uma reminiscência industrial como obra de arte contemporânea. Quantas pessoas passam por aquele território tão multidimensional e não observam os trilhos dos trenzinhos de transporte, o piso da secagem do tabaco, as janelas vermelhas modernistas, as frestas na senzala. Há muito que ver para quem aprende a olhar.

Encantado com o potencial das Oficinas do MAM, Bruno trabalha com diversas técnicas de gravura e hoje, além de mediador da exposição, é professor de diferentes oficinas, no MAM e no Acervo da Laje (outro projeto que sou encantada, assunto para outro post). Ele me conta com os olhos brilhantes tudo que Lina sonhou para o espaço e o que faz sentido para ele: educar, emancipar, recriar. Fomos, então, à Oficina. Um amplo espaço de criação, onde conheci várias produções de seus alunos, além de obras próprias. Uma impressionante coleção de xilogravuras, gravuras em metal, litografias e serigrafias, que passa despercebida dos visitantes apressados. Aqui, outro colega da educação, o França, vem conversar conosco e fico sabendo que, apesar de ser Dia do Trabalho, eles tiveram que vir sem nenhum apoio institucional, sujeitos à violência dos pontos de ônibus completamente desérticos. Além disso, França trazia seu filho pequeno por não ter onde deixar no feriado. Pareceu-me que suas carreiras e trajetórias não eram devidamente reconhecidas pelo MAM e vislumbro da mesma forma baixos salários. Mas não quis verificar minhas hipóteses, apenas registrei, com certa inconformidade, como os educadores de museus continuam a ser desvalorizados, ao mesmo tempo que uma visita extremamente impactante, criativa e dialógica estava sendo costurada com tanta atenção, afeto e cumplicidade. Rimos juntos, para não chorar.
Meu telefone tocou inúmeras vezes ao longo dessa visita-papo-encontro-conexão e tive que explicar (sem atender, claro) que era meu aniversário. Para minha surpresa, Bruno escolheu uma de suas obras e assinou para mim, presenteando-me. Uma representação de Oxé, um machado de duas lâminas de Xangô, orixá relacionado com a justiça, o fogo e o trovão.
“Que Xangô possa lhe conceder uma vida próspera e alegre”, foi o voto de aniversário que recebi. Receber mais este presente, que compartilho com vocês, poesificou meu dia.


Eu escrevo e me emociono, porque já tinha recebido o maior presente que poderia ter tido naquele dia: um encontro profundo, educativo e inspirador entre educadores que acreditam na potência do seu ofício, que se deixam atravessar pelo inédito e construir experiências e pontes entre mundos. Uma experiência rica, porosa e alegre. Três meses depois, está tudo vivo em mim. É isso (e mais) o que pode a educação: animar, tirar o mofo dos olhos, fazer re-ver e trans-ver. É isso (e muito mais).
Lina Bo Bardi defendia uma arquitetura com sentido político, que fizesse refletir se estamos vivendo bem ou mal. Digo o mesmo da educação, acresço que aqui podemos, coletivamente, transformar as condições de existência em direção a um bem viver.
Recomendo que sigam o instagram de Bruno Costa, educador e artista: @br.desenho. E quem for ao MAM, já sabe: sente, escute e converse. Veja e sinta. Aproveite. São raros momentos que aprendemos com artistas a pensar, ver, imaginar e produzir sentido para o mundo. Obrigada Bruno!!

PARA SABER MAIS
Agradeço especialmente à MASP Escola que me concedeu uma bolsa de estudos para o curso “Lina Bo Bardi: arquitetura como ação cultural” ministrado pela grande mestra Marina Grinover, em 2020, em plena pandemia. Mais uma potência de educadores que atravessa a construção deste texto. Iluminar desertos escuros, aproximar experiências no tempo-espaço, conectar ao que importa na vida.
GRINOVER, Marina. Uma ideia de arquitetura: Escritos de Lina Bo Bardi
São Paulo, Annablume Editora, 2023.
Conta no Instagram Lina na Bahia: https://www.instagram.com/linanabahia/
Site do Museu de Arte Moderna da Bahia: http://www.mam.ba.gov.br/
Conta de Bruno Costa no Instagram:https://www.instagram.com/br.desenho/
