Entrega ou Conquista: a reabertura do Museu Kuahí dos Povos Indígenas do Oiapoque – AP
por Pedro Peria, Carolina Loeb, Sophia Santana, Carolina Tonon
Por quais razões os povos indígenas se esforçam para criar, ocupar e transformar museus, essa instituição sempre associada à imagem do velho patrimônio ocidental? O que faz com que um museu possa ser adjetivado como indígena? Como um museu indígena é construído e reconstruído? E como é comemorado? São perguntas como essas que nos guiaram na pesquisa sobre o Museu Kuahí dos Povos Indígenas do Oiapoque (AP) desde o final de 2023 e que nos fazem, hoje, celebrar a sua reabertura para o público. Aqui, relatamos e refletimos sobre o dia desse evento.
O Museu Kuahi é feito por e para os quatro povos do Oiapoque – Palikur, Galibi Kali’na, Karipuna e Galibi Marworno. Imaginado desde 1997, foi inaugurado em 2007 com o objetivo de dar visibilidade à cultura indígena e funcionar como um centro de referência, memória, documentação e pesquisa. Fechado desde 2014, por questões de ordem estrutural (infiltrações nos telhados) e institucional (omissão do governo estadual e redução drástica da equipe), a comunidade viu seu Museu ser deteriorado e seu acervo, danificado. Ainda assim, o Museu nunca esteve morto: as lideranças e os movimentos ocuparam aquele espaço e nunca deixaram de o reivindicar como seu direito e como uma ferramenta para a preservação da sua memória (Peria; Loeb; Santana, 2024). Os povos indígenas do Oiapoque colhem hoje os seus frutos: os movimentos atuam em uma janela de oportunidade de um ciclo político favorável às ações indígenas no âmbito estadual e federal.
Um ano atrás, quando conversávamos com nossos interlocutores sobre esse momento tão esperado, muitos compartilharam a reabertura do museu como “um sonho e um sonho urgente”. Os mais velhos pensavam: “Será que eu vou morrer e não vou ver o museu reabrir?”. A pauta atravessou gerações da militância indígena do território e correu em paralelo a graves crises socioeconômicas, como a pandemia do COVID-19 e a “pandemia das roças”, que comprometeu fatalmente as roças de mandioca das comunidades. Mais recentemente, os movimentos indígenas e indigenistas foram surpreendidos com o rápido e desavisado avanço do plano de exploração petrolífera na foz do Amazonas, conduzido pelos governos estadual e federal sem a correta adesão aos protocolos de consulta.
Foi neste cenário que se desenrolou a grande festa de reabertura. No dia 19 de julho de 2025, indígenas e não indígenas, turistas e oiapoquenses, agentes do governo e de organizações não governamentais lotaram a Avenida Rio Branco, que corta o centro urbano do Oiapoque, para presenciar os atos de abertura do Museu.
Cedo, o pátio externo do Museu começava a se encher de lideranças, caciques e cacicas das mais de oitenta aldeias distribuídas nas três terras indígenas do município. Duas movimentações importantes aconteceram naquela manhã: a apresentação do espaço para as lideranças indígenas e a espera pelo governador do Amapá, Clécio Luís, para finalmente “inaugurá-lo”. Quando a notícia de que o governador estava chegando se espalhou, todos se reuniram em frente ao museu para aguardá-lo (Imagem 01). Parte dos caciques foi de encontro a ele para trazê-lo até o museu. Todos comentavam sobre aquele momento e, entre as conversas ao nosso redor, uma frase ecoou: “Estamos esperando há 525 anos”. Quase ao final da manhã, o governador chegou e proferiu um breve discurso ao microfone enfatizando o compromisso do governo com os povos indígenas e que aquilo era uma dentre as muitas entregas da gestão para a população de Oiapoque. Esse instante suscitou um questionamento inevitável: seria a celebração da entrega ou da conquista? E, mais importante, quem exatamente entregou a quem?

No período da tarde, uma grande estrutura estava montada esperando o grande público para a “segunda abertura” (Imagem 2). Ao nos aproximarmos do museu e do palco, um mestre de cerimônias conduzia a narrativa como um evento oficial do governo estadual. As palavras-chave eram “desenvolvimento” e “entrega” – termo repetido como slogan: “Mais uma entrega do governo do Estado”; “O governador que abre hoje o Museu”; “Compromisso firme do Estado”. O roteiro político tomava conta da cena.

Uma parte da cerimônia foi reservada aos Turés do povo Galibi Marworno, Palikur e Karipuna, originalmente concebido como uma festa tradicional, que envolve danças e cantos e é realizada para agradecer às pessoas invisíveis do Outro Mundo, chamadas Karuãna, pelas curas proporcionadas pelas práticas xamânicas dos pajés (Iepé; Museu do Índio, 2009). Esse momento aconteceu em um espaço gradeado, em frente ao palco. Uma multidão observava e filmava em formato de apresentação (Imagem 3). Após alguns minutos, a “plateia”, um conceito tão estranho ao ritual original, começava a dispersar, enquanto o governador seguia cumprimentando e concedendo entrevistas. A cerca que nos separava dos turés apenas reforçava essa sensação de exotismo, como se aquilo fosse um artefato cultural descontextualizado.

Em seguida, houve o momento dos discursos, nos quais representantes do governo e lideranças indígenas enfatizaram a importância do Museu para a comunidade, o estado e o país (Imagem 4). No entanto, chamou atenção a ausência de reconhecimento explícito à equipe técnica e de apoio que tornou possível a reconstrução do espaço, especialmente ao protagonismo das mulheres indígenas, cuja atuação foi fundamental em todas as etapas do processo. Apesar de serem atrizes centrais na preservação, revitalização e transmissão das tradições culturais, as mulheres foram uma das últimas a serem mencionadas nos discursos.

A reabertura, embora festiva e carregada de significados para as comunidades indígenas, foi marcada por uma ambiguidade: de um lado, um momento de reencontro e afirmação cultural; de outro, um espetáculo político e do “compromisso” estatal. Entrega ou conquista? Apesar desses questionamentos, a reabertura do Museu Kuahí certamente representou uma vitória importante para os povos indígenas do Oiapoque. O evento reuniu diferentes gerações, fortaleceu identidades indígenas perante a população do município e celebrou a resistência cultural diante dos desafios históricos enfrentados.
A energia coletiva e o empenho das lideranças indígenas demonstraram o quanto o museu é um espaço vivo onde o passado e o presente se entrelaçam para garantir a continuidade dos saberes tradicionais. Nesse jogo, compreendemos que aquilo que faz um museu ser adjetivado como indígena é a posição de sujeitos que os povos indígenas assumem para contar suas próprias histórias. Trata-se, sempre, de onde recai o protagonismo das ações de memória.
Para saber mais :
INSTITUTO DE PESQUISA E FORMAÇÃO INDÍGENA (Iepé); MUSEU DO ÍNDIO (org.). Turé dos povos indígenas do Oiapoque. Rio de Janeiro; São Paulo: Museu do Índio; Iepé, 2009.
PERIA, Pedro Vianna Godinho; LOEB, Carolina Mazzacoratti Mindlin; SANTANA, Sophia Volkmer Medeiros. Quando indígenas encontram o museu: reflexões a partir da reconstrução do Museu Kuahi dos Povos Indígenas do Oiapoque – AP. Cadernos do CEOM, v. 37, n. 61, Dossiê, 19 dez. 2024. DOI: 10.22562/2024.61.04.
Sobre a pandemia do COVID-19 no Oiapoque: https://institutoiepe.org.br/2020/10/a-covid-19-chegou-no-oiapoque-precisamos-nos-cuidar/ .
Sobre a crise das roças:https://institutoiepe.org.br/2023/09/povos-indigenas-do-oiapoque-relatam-a-situacao-dramatica-que-estao-vivendo-no-conselho-de-direitos-humanos-da-onu/.
Sobre a exploração do petróleo na foz do Amazonas e as respostas indígenas do Oiapoque: https://institutoiepe.org.br/2024/06/povos-do-oiapoque-vao-a-brasilia-levar-preocupacoes-sobre-exploracao-de-petroleo/.
Mais sobre o ritual do Turé pode ser visto em: Turé dos povos indígenas do Oiapoque.
