Reginaldo Prandi no Encontro de Terreiros no Museu Paulista
Por: David William Aparecido Ribeiro
Hoje retomamos os relatos sobre o Encontro Terreiros (em museus). Desta vez, o foco será na atividade de abertura. A primeira aberta ao público. Trata-se da conferência de abertura do sociólogo Reginaldo Prandi, professor emérito da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, um dos principais estudiosos das religiões afro-brasileiras. Prandi iniciou a sua fala recordando de seu primeiro encontro com uma festa de umbanda e com o Museu do Ipiranga, eventos que se deram no contexto de uma mesma viagem de sua família, de Potirendaba, no noroeste do estado, à região da capital. Na ocasião, aos onze anos, Reginaldo viu uma festa de umbanda na Praia das Vacas em São Vicente, uma memória que retoma com riqueza de detalhes e que serve de ponto de partida para narrar a sua relação espiritual e intelectual com as religiões afro-brasileiras.

Prandi trabalhou no então recém-fundado Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap) a partir de 1969, onde fez parte de um grupo de pesquisa sobre as religiões no Brasil, liderado por Cândido Procópio (1922-1987). Sua tarefa seria a de estudar as afro-brasileiras, em um contexto em que somente 1% das pessoas se declaravam praticantes da umbanda no país. O sociólogo se lembra de um olhar muito mais pejorativo à época, em que sequer religiões como a umbanda eram reconhecidas como tal — eram rotuladas como seitas, que desapareceriam com o passar do tempo. Ademais, havia quase um consenso de que o candomblé se restringia à Bahia e a umbanda ao Rio de Janeiro. Tanto é que, a partir de então, um levantamento identificou uma imensidão de terreiros na cidade de São Paulo, como o Terreiro de Santa Bárbara, cuja ialorixá era baiana, exemplo de uma ampla rede que acompanhava as migrações internas, que conectava a Bahia ao Rio de Janeiro e a São Paulo, bem como o Maranhão a Pernambuco. Os trânsitos, segundo Prandi, eram múltiplos e, no estado de São Paulo, haviam percorrido em especial as zonas cafeeiras.
Nesse sentido, e dando destaque à formação dos terreiros paulistas, Prandi salienta o impacto da migração dos anos 1950-1970 no incremento dessa paisagem, com muitas mães de santo se radicando na cidade de São Paulo e transplantando seus terreiros da Bahia para cá. Aos poucos, esses terreiros começam a ganhar nomes em línguas africanas, ainda que o catolicismo seguisse bastante presente na ritualística de iniciação, com a obrigação dos iniciandos de frequentarem sete missas em sete igrejas, conforme o exemplo citado pelo sociólogo.
Outro aspecto que Reginaldo Prandi também menciona diz respeito às questões de gênero no contexto das religiões afro-brasileiras, não sem antes lembrar que foi o contato colonial que passou a atribuir características femininas ou masculinas aos orixás. A senioridade, antes disso, é um atributo que de fato tem preponderância nas relações sociais-espirituais. Ainda nesse aspecto, o professor lembra o impacto que a epidemia de HIV/aids teve sobre os praticantes dessas religiões quando pouco era sabido sobre os riscos. Prandi discorreu sobre uma cerimônia coletiva, realizada nas Sextas-Feiras Santas, em que as curas de todos os participantes eram feitas a partir da reabertura, com uma navalha, dos pequenos cortes de proteção feitos por ocasião da iniciação. A mãe de santo usava uma mesma navalha para todas as pessoas, uma depois da outra. Embora os cortes fossem superficiais, eram suficientes para a contaminação. Depois dos vários casos de infecção, inclusive de terreiros inteiros, mudanças foram implementadas, como o uso de navalhas individuais para o rito.
Respondendo às questões postas pelo público, diversas e em muitas direções, Prandi destaca que os terreiros são como “sociedades em miniatura”, verdadeiras unidades familiares formadas por “mães”, “pais” e “irmãos”. Olhando para o seu trabalho e trajetória em perspectiva, o professor reconhece a centralidade do livro, da literatura, como instrumento de divulgação e de aproximação de um público mais amplo às religiões afro-brasileiras, uma linguagem que é fundamental para a superação dos estigmas que ainda recaem sobre as religiões e seus praticantes. Nosso conferencista convidado conclui fazendo ele também uma pergunta ao público: “É possível imaginar o Brasil sem a macumba?”.

Reprodução fotográfica: Companhia das Letras
Para saber mais:
O livro” A morte e o menino sem destino ” lançado por Reginaldo Prandi após a abertura do evento pode ser encontrado no site da Companhia das Letras
