O acervo da artista negra Alice Rezende (1932-1961) no Museu Paulista da USP: provocações epistemológicas
Por Liliane Pereira Braga (Ndembwemi)
Pós-doutoranda – Museu Paulista da USP (Museu do Ipiranga)
E-mail: lilianebraga@usp.br
Pembelê, Nzila!
Laroyê, Exu!
Sobre tessituras afetivas e a epistemologia da ancestralidade
Prenuncio este artigo com saudação a Nzila – mpambu a nzila: encruzilhada em kikongo, conforme publicação de Tata Katuvanjesi (Walmir Damasceno) com demais autores. E também saúdo Exu, sua energia análoga na tradição ketu. Ambos, regem a vida e a comunicação entre os mundos visível e invisível.
Agora lhes apresento Alice Rezende: mulher negra que viveu entre 1932 e 1961 e para quem arte e cultura permitiram romper com o padrão de empregada doméstica e lavadeira das mulheres de sua família, conforme estudos de meu amigo Alexandre Araújo Bispo. Atriz, cantora, vedete, modelo vivo, ela atuou em diferentes agrupamentos culturais. Desde 2022, Alice habita o Museu Paulista da USP, onde está assentado o seu acervo, dentro da coleção reunida por sua irmã, Nery Rezende (1930 – 2012).

Desde agosto, realizo análise, inventário e difusão do acervo de Alice Rezende. Um dia, me surpreendi ao ler em seu diário o nome de José Brochado, que tem o mesmo sobrenome uma amiga. Eu já havia lido esse diário para a elaboração do meu projeto do pós-doutorado. Mas foi só na sua releitura que o sobrenome Brochado “apareceu” pra mim e entendi que ele e Alice foram colegas de teatro para quem ela confidenciou o desejo de abandonar os ensaios da peça “O Filho Pródigo”, montagem na qual atuou junto do Teatro Experimental do Negro de São Paulo (TENSP).


Conheci Daniela Brochado quando ministrei uma palestra em uma escola particular de São Paulo. Ela é mãe de crianças que, à época, estudavam naquela instituição. Estabelecemos um elo, mesmo com a ida de Daniela e família para a Itália durante a pandemia. Em suas vindas a São Paulo, costumávamos nos reunir. E em uma dessas vezes, ela me contou que seu avô tinha feito parte de agrupamentos teatrais negros e manifestou o desejo de descobrir mais a respeito.
Eis que, anos depois, me deparo com a menção ao avô de minha amiga no diário de Alice. Mandei um áudio para Daniela, que me retornou logo em seguida. Ambas sentimos um arrepio ao falar da presença de José Brochado no diário. Apesar de emocionada, Daniela estava incrédula. E chegou a questionar se haveria um outro José Brochado no TENSP. Fui então em busca da evidência: a matéria do jornal “A última hora”, de 13 de junho de 1952, que traz uma foto de seu avô. Na legenda, seu nome completo: José das Dores Brochado.

Notifiquei minha amiga do achado. Com a voz embargada, ela declarou não ter mais dúvidas tratar-se dele.
Eu já havia entendido que a natureza desse trabalho envolvia uma metodologia da ancestralidade, em que se entrecruzam metodologia de pesquisa euro-ocidental e metodologias que se utilizam dos sentidos. Os cruzos de múltiplas formas de saber em determinado modelo epistemológico, marcam o que Rufino chama de ebó epistemológico:
O ebó epistemológico como efeito gerador de encantamento nas esferas do saber está imbricado a uma Pedagogia das Encruzilhadas.(…). Nesse sentido, invoca e encarna Exu evidenciando seu caráter tático e suas presenças como esfera de saber na luta contra as injustiças cognitivas/sociais produzidas ao longo da história.
(Rufino, 2019, p. 43)
Abordagens decoloniais e contracoloniais têm amparado minha luta contra injustiças cognitivas. Luta que vem se dando em esferas diversas há pelo menos duas décadas e, notadamente, junto de expressões culturais afrodiaspóricas – como em artigo elaborado em 2017 mas só publicado em 2023, no qual trato da perspectiva colonial que relacionou Exu ao diabo euro-cristão. Com este pós-doc, não concebo – tal qual Françoise Vergès – uma mudança estrutural no Museu. Mas meu trabalho se volta a desnaturalizar a teoria do universal erigida por essa instituição ocidental.
Sobre um caminho já percorrido
Memórias de famílias negras se interligaram e estabeleceram um diálogo a partir da materialidade de objetos deixados por pessoas ancestralizadas em trabalho que realizei durante uma residência na Casa Sueli Carneiro – instituição que personifica o legado intelectual de mulheres negras, a partir da intelectual e ativista Sueli Carneiro, em um projeto político e de memória coletivo e permanente. Dessa experiência, chego ao Museu teoricamente amparada pelo patrimônio construído por mulheres negras brasileiras e seus legados – historicamente transmitidos com a tradição oral.
Junto desse legado, utilizo o que aprendi no candomblé e com a vivência entre famílias negras, desde catolicismo aberto a práticas de benzimento e simpatias para cura de males diversos – práticas embebidas em epistemes musicosmodançantes, expressão que cunhei em 2018 em minha pesquisa de doutorado defendida na PUC São Paulo.
Ao estudar coleção com itens reunidos por mulheres negras, tenho sentido o alicerce em um fazer intelectual ancestral que, seguindo pegadas de Trouillot, entendo como um contraponto ao exercício de poder que notabiliza certas narrativas e que silencia outras. Tendo sido Alice Rezende uma mulher imersa em práticas de ancestralidades afrodiaspóricas, ao se encontrar em uma casa na qual estão sendo realizadas inflexões qualitativas que permitem a acolhida e o reconhecimento da importância de seu acervo, é a vez dessa casa – o Museu do Ipiranga – des-silenciar essas práticas, empenhando-se em pesquisas históricas em que se busca conhecer o que Saidyia Hartman descreve ao falar da vida autônoma e bela que jovens negras lutavam para criar para si. Pesquisa histórica que está sendo feita a partir do arquivamento de si realizado por Alice Rezende, cujo estudo está sendo feito tendo como referência primeira o seu próprio acervo, isto é, utilizando referencial que se encontra ali mesmo, a exemplo de astrologia e macumbologia.
Fechando para abrir…
Percebem-se aqui caminhos que transgridem regimes de verdade impostos pela produção de conhecimento euro-ocidental. Diante do meu arrepio conjuntamente ao de Daniela, quando da confirmação da presença de seu avô José Brochado no acervo de Alice Rezende, diante de nossos olhos marejados d’água quase que simultaneamente apesar do Oceano Atlântico entre nós, a Pedagogia da Encruzilhada da qual fala Rufino e a epistemologia da ancestralidade afrodiaspórica estavam manifestadas. Epistemologia que traz associada metodologia em que não se move um passo sem a participação de Nzila e Exu.
Todos os dias antes de me dirigir à reserva técnica, me preparo ritualisticamente. E a cada dia de trabalho, tem-se uma revelação. Pesquisar junto de acervos materiais de pessoas negras cujos vínculos ancestrais africanos constituem seu legado, demanda conhecimento que não se adquire em instituições de ensino de matriz curricular euro-ocidental. Demanda pessoas pesquisadoras imbricadas em nossas epistemes.
Em tempo: este projeto de pós-doutorado está sendo financiado pelo Fundo de Pesquisas do Museu da Universidade de São Paulo.
Para saber mais
BISPO, Alexandre Araujo. Os percursos da memória e da integração social: o arquivo pessoal de Nery e Alice Rezende, mulheres negras em São Paulo (1948-1967). 2019. Tese (Doutorado em Antropologia Social) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2019. doi:10.11606/T.8.2019.tde-18062019-132839. Acesso em: 2025-05-05.
BRAGA, Liliane Pereira. Cinematografias afrodiaspóricas: imagens e narrativas sob regimes de oralidade. 2018. 270 f. Tese (Doutorado em História) – Programa de Estudos Pós-Graduados em História, Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 2018. Disponível em: https://tede2.pucsp.br/handle/handle/21224. Acesso em: 16 maio. 2025.
BRAGA, Liliane. Cosmovisões negras revertendo estereótipos em O Tempo dos Orixás (2014). In: Filme Cultura 64. Brasília: MinC, 2023, pp. 62-69. Disponível em: https://www.gov.br/cultura/pt-br/assuntos/revista-filme-cultura/revista-filme-cultura-64Acesso: 09 out 2025.
HARTMAN, Saidiya. Vidas Rebeldes, Belos Experimentos. Histórias íntimas de meninas desordeiras, mulheres encrenqueiras e queers radicais. Trad.: Floresta. São Paulo: Fósforo, 2022.
RUFINO, L. Pedagogia das encruzilhadas. Rio de Janeiro: Mórula Editorial, 2019.
TROUILLOT, Michel-Rolph. Silenciando o passado. Poder e a produção da história. Trad.: Sebastião Nascimento. Coleção Encruzilhada. Rio de Janeiro: Cobogó, 2024.
VERGÈS, Françoise. Descolonizar o museu: programa de desordem absoluta. São Paulo: Ubu Editora, 2023.
DAMASCENO, W. (Katuvanjesi); FAUSTINO, D. (Muendexi dya Nzambi), GONÇALVES, R; LIMA, E. (Omilemi) (Org.) Entre as duas academias: a encruza de saberes e o Candomblé Kongo-Angola. São Paulo: Dandara, 2024.
