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Arquitetura que resiste: a vivência sensível e técnica no renascimento do Museu Nacional

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  1. por Mariana Gil e Noêmia Barradas 
Museu Nacional consumido pelas chamas no dia 02 de setembro de 2018.
Fonte: O Globo

Em setembro de 2018, vimos o Museu Nacional do Rio de Janeiro ser tomado por chamas. Um patrimônio histórico que carregava, não só seu simbolismo como edifício, como também um acervo de obras incríveis que foram perdidas com o incêndio que ocorreu por falta de manutenção na rede elétrica do edifício. Uma perda gigantesca quando falamos de patrimônio, ciência e cultura. 

Naquela época eu já tinha visitado poucas vezes o Museu, nem pensava em cursar Arquitetura e Urbanismo. Ao ligar a televisão naquele dia, em todos os lugares só havia essa notícia, só se falava disso. As imagens do Museu em chamas se repetiam nos jornais e o sentimento de luto só crescia. Luto pela memória do que um dia esteve ali. 

‘’Na segunda-feira, após o incêndio, o pátio do meu colégio (FAETEC, Adolpho Bloch) estava coberto de cinzas devido a chama que consumiu o Museu Nacional. Ainda tenho resquícios das cinzas na minha memória” – Vinicius Bezerra, aluno do 8° período de Arquitetura da UERJ

 

Vista aérea do museu em 3 de setembro de 2018, dia seguinte à tragédia. 
Fonte: Mauro Pimentel, Estado de Minas

Hoje, sete anos depois, como graduanda em Arquitetura na UERJ e admiradora do restauro, percebo a grandiosidade e a complexidade de uma obra como essa. Tive a oportunidade, junto com minha turma do 8º período, de realizar uma visita técnica ao Museu Nacional, acompanhada pela professora Noêmia Barradas,  que é integrante da equipe de restauro do museu.

Foi ao mesmo tempo uma honra e uma tristeza percorrer aquele espaço. Caminhar pelo interior do Museu Nacional, testemunhando os processos pelos quais tem passado após o incêndio, especialmente em meio às obras de restauro, era como reviver o luto. Essa experiência só foi possível graças à generosidade de Noêmia Barradas — minha querida professora —, da equipe envolvida nas ações em curso no museu, incluindo o técnico de segurança Allan Cardec, o diretor geral Alexander Kellner e o diretor administrativo Wagner Martins.

O clima dentro do edifício é difícil de descrever. A cada passo que eu dava dentro daquelas salas eu via a memória da vida que um dia esteve ali, as exposições, os sons, os visitantes… agora, o silêncio pesa. Eu não tinha o que dizer, enquanto a professora Noêmia nos guiava por aquele espaço, eu só sabia permanecer calada. As paredes sem reboco, os tijolos aparentes, as marcas de elementos que um dia estiveram ali intactos. Eu só consegui observar e entender o impacto daquela tragédia.

 

Estrutura provisória de escada de acesso ao 2º. e 3º. pavimentos
Fonte: autoral
Interior do Museu/sala histórica (2º. pavimento). 
Fonte: Autoral
Resquício do local onde tinha uma escada. Fonte: Autoral

 

Imagem do objetivo final dessa restauração.
Fonte: Autoral

A parte que mais me marcou foi a chamada “sala das vigas”, o ponto onde o fogo se fez presente. O pé-direito triplo, vestígio das divisões de pavimentos consumidas pelas chamas, revela as vigas deformadas pelo calor, expostas em toda a sua imponência. À primeira vista, poderia parecer uma sala comum, mas havia algo mais: camadas e estratos de matéria decomposta, acumulados ao longo de mais de dois séculos, contavam silenciosamente sua história.

As vigas de aço, retorcidas pelo incêndio, permaneciam ali, firmes e obstinadas, quase como testemunhas silenciosas da tragédia. Tornavam-se símbolos poderosos de resistência e esperança, a arquitetura insistindo em sobreviver, mesmo diante da devastação. Naquele espaço, a memória do fogo se apresentava de forma crua e visceral; a força daquela visão foi tão intensa que me atingiu como um soco no estômago, deixando gravada na alma a presença do que foi e do que resiste.

 

Sala das Vigas. 
Fonte: Autoral

 

A professora Noêmia compartilhou conosco um pouco da visão técnica do processo, explicando os desafios de recuperar uma estrutura tão comprometida e, ao mesmo tempo, respeitar sua autenticidade histórica. Ela me fez entender que restaurar não é apenas reconstruir, mas cuidar da memória, da identidade e da dignidade de um patrimônio nacional. De acordo com  Noêmia Barradas,  abrir as portas do canteiro de obras permite que os estudantes contemplem de perto o processo de preservação de um patrimônio histórico de grande significado. 

Como profissional da área de restauro e professora, me sinto extremamente feliz e grata por poder proporcionar aos alunos a oportunidade de vivenciar experiências como a visita a uma obra de restauração.

Durante a visita, compartilhei com meus alunos meu olhar técnico sobre a intervenção, explicando com sensibilidade e precisão os efeitos do fogo nas superfícies e nos materiais construtivos. Destaquei como o incêndio provocou a desagregação de rebocos e emboços, resultando em perdas volumétricas significativas e em alterações perceptíveis na textura, na cor e na integridade dos elementos arquitetônicos. Compreender essas transformações é essencial para orientar as decisões de restauro, pois cada vestígio carrega informações valiosas sobre o comportamento dos materiais diante do calor extremo e sobre as possibilidades de conservação.

Essa experiência vai muito além da teoria: os estudantes têm a chance de observar o trabalho de profissionais especializados: arquitetos, engenheiros, restauradores e técnicos de segurança, e de compreender a importância do uso correto dos equipamentos de proteção, da organização do espaço e do rigor técnico exigido em intervenções desse porte.

Mais do que um aprendizado técnico, essa vivência desperta nos alunos o respeito pelo patrimônio cultural, a consciência da responsabilidade envolvida em sua conservação e uma compreensão concreta da dimensão humana, social e histórica que cada obra carrega. É, sem dúvida, uma experiência inesquecível e transformadora na vida universitária de cada um.” – Noêmia Barradas

 

Professora Noêmia explicando sobre os efeitos do fogo nas superfícies que perderam material, destacando a desagregação de rebocos e emboços, além das perdas volumétricas significativas observadas em diversos elementos construtivos.
Fonte: Autoral

 

Como aluna de uma universidade pública, sei o privilégio que é ter acesso a essa vivência, acompanhada de uma professora que está na linha de frente desse processo de renascimento. Levo comigo não só o aprendizado técnico, mas a certeza de que preservar a memória patrimonial é também um ato de resistência.

 

Turma da Uerj entrando no canteiro de obras do Museu Nacional em 2025. Fonte: Autoral
Botas e capacetes/ EPIs (equipamentos de proteção individual). Fonte: Autoral
Turma do 8º período na escadaria do Museu Nacional.
Fonte: Autoral

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