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Onde o Afeto Mora: Relato sensível de uma Viagem à São Paulo

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por Mariana Gil 

 

Começo meu relato avisando aos leitores que esse texto, além de relato sobre a minha viagem à São Paulo,  é quase uma carta aberta de amor à UERJ e às amizades que fiz pelo caminho.

Nós, turmas de 8° e 6° período da UERJ Petrópolis tivemos a imensa oportunidade de fazermos uma Viagem de Campo à São Paulo. Foi mais do que uma viagem técnica, foi uma vivência de laços, descobertas, lágrimas e olhares partilhados. Como estou no 8° período, falta um ano para a minha formatura, mas isso não significa que temos a oportunidade de mais um ano juntos como turma. Em 2026, a maioria dos moradores temporários de Petrópolis irão voltar para suas casas, já que teremos poucas aulas por semana e todos sentimos falta das nossas famílias. Isso significa que nossos últimos momentos como turma são esses momentos do presente e principalmente os momentos que vivemos em São Paulo. Foi muito mais que uma viagem de estudo, foi uma despedida nossa como turma.   

Começamos nossa viagem saindo de Petrópolis na segunda-feira dia 13 de outubro de 2025. Foi uma viagem longa e cansativa de aproximadamente 9 horas, chegamos à noite e fomos curtir a primeira noite em ‘’sampa’’. No dia seguinte, já cansados da noite anterior, fomos diretamente ao MASP, edifício projetado por Lina Bo Bardi. Paramos para admirar cada detalhe, não conseguimos acreditar que estávamos todos juntos presenciando uma arquitetura tão icônica com 74 metros de vão entre os pilares. Para nos deslocarmos até o Sesc 24 de Maio, pegamos o metrô e, além de sentirmos falta da clássica musiquinha do metrô carioca, ficamos confusos com qual trem pegar e no meio de tanta confusão o grupão de aproximadamente 50 alunos se separou. Um momento de cinema, todos correndo para entrar no vagão e a porta se fechando na cara de 15 alunos que ficaram para trás. Lógico que eu estava entre esses 15 alunos e foram só risadas. Nosso trajeto deu certo e conseguimos nos reencontrar para continuar o passeio.

 

Mapa do Masp Fonte: Autoral
Turma no Metrô de SP Fonte: Bruno Dias
Eu no Sesc 24 de Maio sentada na cadeira desenhada por Paulo Mendes da Rocha. Fonte: Ludmila Calderucci.

 

Fechamos o dia visitando a FAU USP, conhecendo o campus de arquitetura e os alunos paulistas de lá. Fizemos amizades rápidas e deixamos nossa identidade registrada nas lousas da USP. Na conversa que tivemos com alguns USPianos, vimos enormes diferenças entre a estrutura do campus da faculdade deles e da nossa, que é um casarão e muitas vezes nos deixa na mão em relação à falta de espaço para vivermos e trabalharmos com conforto. Apesar de refletir sobre os pontos negativos na nossa UERJ, percebemos que na verdade somos muito privilegiados, temos muito mais amizade e intimidade por sermos poucos alunos e tivemos a oportunidade de viajar para outro estado em turma com auxílio da faculdade. 

Interior da FAU USP Fonte: Autoral
Registros que fizemos nas lousas da FAU.  Fonte: Autoral.

Para finalizar essa experiência reveladora, tive uma oportunidade a mais na USP. Tive o prazer de conhecer pessoalmente minha amiga e parceira do Exporvisões, Carolina Morvillo. O encontro rápido entre a bolsista paulista e a bolsista carioca do Exporvisões que me deixou realizada e de coração quentinho. 

Mariana e Carol, bolsistas do Exporvisões. 
Fonte: Autoral.

 

No segundo dia, começamos com a Estação da Luz/Museu da Língua Portuguesa. Em uma rápida visita guiada, aprendemos mais sobre o edifício, os 2 incêndios pelo qual o local passou e suas mudanças arquitetônicas conforme o passar dos anos. Graças a nossa professora Noêmia Barradas, pudemos conversar com a arquiteta Ana Flávia Rolim que participou da obra de restauro do edifício após o incêndio de 2015, claro que fizemos diversas perguntas sobre a obra e aprendemos muito sobre restauro na prática e sobre a sensibilidade necessária para restaurar um edifício após um incêndio.

 

Exterior da Estação da Luz com uma fotografia de como era antigamente Fonte: Autoral
Conversa com a Ana Flávia Rolim e nossa professora Noêmia Barradas Fonte: Bruno Dias
Turma, professores e Ana Flávia Rolim na Estação da Luz.
Fonte: Autoral.

 

Aproveitamos que a Pinacoteca fica logo à frente e fomos visitar também. A Pinacoteca é recheada de exposições incríveis, mas por algum motivo nós não queríamos mais ver quadros e esculturas, nós queríamos ver a arquitetura daquele local. A cada janela, pilar ou esquina que passávamos nós parávamos para tirar fotos ou admirar aquele edifício incrível. Ver meus amigos espalhados pelos corredores daquele espaço, sorrindo e tirando fotos me trouxe um conforto no coração imenso. Fico extremamente feliz de ver uma turma tão unida e que se diverte com tudo. Aquele sentimento de união entre nós era a verdadeira obra de arte exposta nos corredores da Pinacoteca.

 

Exterior da Pinacoteca Fonte: Autoral
Clara Rocha, eu e meu professor Bruno Dias admirando a arquitetura Fonte: Dora Quirino
Detalhe da visão dos pilares visto por uma janela. 
Fonte:  Autoral.

Para fechar o dia com chave de ouro, fomos na Bienal de Arquitetura, experiência que eu nunca imaginava viver em turma. Nesse momento, era uma luta entre a vontade de ver tudo e o cansaço imenso que eu sentia pela viagem. Um cansaço que sumiu rapidamente quando fizemos uma visita guiada pela Bienal e pudemos ver diferentes tipos de materiais que conquistaram nosso coração. Poder tocar na maioria das coisas expostas é o sonho de todo estudante de arquitetura que precisa visualizar tudo com as mãos e nosso sonho foi bem realizado. Ao finalizar a visita guiada, surgiu o momento mais lindo da viagem. Um momento de declarações e quase despedidas. Mas… como toda boa escritora, eu prefiro deixar o melhor para o final.

Banner Bienal de Arquitetura SP Fonte: Autoral
Turma do 8° período.
Fonte: Autoral.

Enquanto deixo o mistério no ar, gostaria de contar sobre o último dia da viagem. Vivemos o sonho de entrar no Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB) e tivemos o prazer de pisar nos ambientes que Paulo Mendes da Rocha e Vilanova Artigas usavam para trabalhar. É uma loucura imaginar que estive no mesmo local em que eles utilizavam para projetar diversos edifícios icônicos. Sonho que nunca imaginava viver.

Sala do Paulo Mendes da Rocha e Vilanova Artigas Fonte: Autoral
Cadeira Barcelona do Mies Van de Rohe.
Fonte: Autoral.

 

Depois do IAB a próxima parada foi o famoso Edifício Copan, infelizmente estava em obra mas ainda assim a sua estrutura era de tirar o fôlego. Que emoção entrar nesse prédio que é o mais estudado pelos alunos de arquitetura.

Edifício Copan Fonte: Autoral
Placa no interior do Edifício Copan.
Fonte: Autoral.

Para finalizar a viagem visitamos o Sesc Pompeia e participamos de uma visita guiada pelos galpões do Sesc. O mais lindo foi ver o prédio que antigamente era uma fábrica e passou por um processo de ‘’retrofit’’, projeto feito pela Lina Bo Bardi, e admirar de pertinho cada janela única e cada passarela do edifício. Eu fiquei toda feliz e lógico que tirei várias fotos. Pós almoço foi hora de retornar para nossa casa em Petrópolis, tristes pelo final da viagem mas extremamente gratos e felizes por todos os sonhos que vivemos em São Paulo. 

 

Edifício do Sesc Pompeia projetado por Lina Bo Bardi Fonte: Autoral
Eu, feliz demais, no Sesc Pompeia.
Fonte: Autoral.

 

Chegou a hora de acabar com o mistério e contar o momento mais especial da viagem que ocorreu na Bienal de Arquitetura. Após a visita guiada que fizemos, os alunos já tinham se dispersado para encontrar um local para descansar, mas alguns sobraram na roda. Nosso querido professor Bruno Dias, que acompanhou nossa turma desde o 1° período da faculdade, começou a dissertar sobre o orgulho que ele sentia por nós e sobre o quanto nós crescemos nesses 4 anos. Por sermos a turma mais sensível da UERJ e por estarmos em clima de nostalgia chegando cada vez mais perto da formatura, nossos olhos se encheram de lágrimas, mas tudo veio à tona quando a Ludmila (aluna e nossa querida amiga) disse: ‘’Na vida, nem tudo é sobre dinheiro. É sobre as boas amizades que encontramos no caminho.’’.

Não teve jeito, as declarações vieram de todos os lados, os abraços se apertaram e as lágrimas escorriam pelas nossas bochechas como se estivéssemos sofrendo o luto da nossa separação (que ainda falta um ano para de fato acontecer). Que momento lindo, poder chorar junto e sentir tudo de uma só vez, sentir que tudo valeu a pena, que vou sentir falta de todos e que eu vivi intensamente essa fase da minha vida. 

Eu tenho imensa gratidão por viver essa experiência de estudar numa universidade pública fora da minha cidade natal. Agradeço a todos que me incentivaram a enfrentar esse desafio e me apoiaram na minha mudança de cidade. Imensa gratidão pelas pessoas que eu conheci nesse tempo e pelas amizades que formei que com certeza serão para o resto da minha vida. Acima de tudo, gratidão por ser UERJiana. 

 

O momento pós lágrimas na Bienal.
Fonte: Bruno Dias.

 

Saída da Bienal com os professores, após abraços e mais lágrimas.
Fonte: Autoral.

 

Esse momento não foi o único. Como bons alunos, compramos presentes para os nossos queridos professores como presente de dia dos professores e como agradecimento por tudo que fizeram para essa viagem acontecer. Na entrega dos presentes, mais lágrimas surgiram e as declarações continuaram. A mesma frase se repetia entre lágrimas e risadas: ‘’Se já choramos assim agora, imagina quando chegar a formatura?’’. Naquele dia, eu fui dormir com muito, mas muito amor no coração.

“Eu acho que a gente se apaixona pelos nossos amigos. Tem pessoas na vida que a gente esbarra, e tem pessoas na vida que a gente ENCONTRA.” – Mônica Martelli

Para mim, a UERJ foi encontro.

 

Os meus.
Fonte: Autoral.

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