“Para além da escravidão: construindo a liberdade negra no Mundo” no Museu Histórico Nacional
por Aline Montenegro, Keila Grinberg e Martha Abreu
No dia 13 de novembro, o Museu Histórico Nacional (MHN), no Rio de Janeiro, reabrirá suas portas ao público, após mais de um ano fechado para reformas, com a exposição “Para além da escravidão: construindo a liberdade negra no mundo”. Trata-se da edição brasileira da exposição itinerante “In Slavery’s wake: making black freedom in the world”, inaugurada em dezembro do ano passado e encerrada em junho do corrente, no National Museum of African American History and Culture (NMAAHC), do Instituto Smithsonian, em Washington DC.
A exposição aborda como a escravidão e as práticas de resistência e conquista de liberdade moldaram o mundo contemporâneo, marcado pelo racismo. Estabelece uma conexão entre a história global construída pelo tráfico transatlântico de escravizados e as especificidades locais da escravidão e do pós-abolição. Ela é fruto de uma curadoria internacional, coordenada pelos professores Paul Gardullo, do NMAAHC e Anthony Bogues, da Universidade de Brown, envolvendo pesquisadores de seis países (EUA, Brasil, África do Sul, Senegal, Bélgica e Reino Unido). A previsão é que, ao se encerrar no MHN, itinere, até 2028, pelas seguintes instituições: Izico Museums of South África (Cidade do Cabo), Institut Fondamental d’Afrique Noir (Dakar) e International Slavery Museum (Liverpool).
Aline Montenegro Magalhães e Keila Grinberg são as curadoras que representam o Brasil nesse projeto curatorial global, que envolve também outros pesquisadores brasileiros, como Martha Abreu e Vinícius Natal. Baseadas no trabalho já realizado em nível nacional, com destaque para o projeto “Passados Presentes”, bem como o que vinha sendo desenvolvido no MHN, em termos de pesquisa sobre a cultura material afrodiaspórica, as historiadoras, além de construírem o conceitual, com os demais curadores, pensaram temas e selecionaram objetos da história da Diáspora Africana no Brasil, para compor a exposição.

A exposição tem seis módulos, que, didaticamente falando, podem ser entendidos em três partes. A primeira, trata do processo histórico da construção da escravidão entre finais do século XV, até o século XIX, com as abolições. A segunda é sobre as experiências de liberdade e combate à escravidão, em suas diferentes formas, como as lutas judiciais, rebeliões, festas e práticas religiosas. A última é sobre o tempo presente e os rastros da escravidão impactando a vida das pessoas, como justiça racial, questões ambientais que afetam as populações de maneiras diferentes e, o mais importante, a discussão sobre reparação histórica. Painéis interativos, mapas variados, recursos museográficos e intervenções artísticas, principalmente para representar objetos ausentes, fazem da exposição um espaço didático para se “navegar”. Entre muitos conteúdos, o circuito nos permite sentir e pensar, provocando-nos a posicionamentos e transformações.
Nossa proposta aqui é navegar por essa “esteira da escravidão” (tradução literal do nome original da exposição), enfatizando a participação do Brasil na sua composição. Sua primeira parte consiste numa introdução sobre os “rastros” da escravidão. Mas “rastro” aqui é entendido como um termo marítimo, que dá nome àquela marca espumada que as embarcações deixam nas águas do mar por onde passam, no sentido entendido por Cristina Sharpe, em seu livro “No vestígio: negridade e existência”, 2023. Não por acaso, o primeiro vídeo que se vê, ao entrar na exposição, é o que projeta cenas de etapas de campo de pesquisas arqueológicas de sítios de naufrágios de embarcações escravagistas, nos mares do Brasil, Moçambique e Senegal, realizadas pelo projeto Slave Wrecks. Já o segundo contrapõe imagens do passado escravista com as das comunidades negras contemporâneas, no mundo.

Na sequência adentramos as “Raízes das desigualdades” com objetos, documentos, imagens e depoimentos sobre a construção da escravidão racial e seus instrumentos de legitimação, em um processo de colonização marcado pela violência, desumanização e morte de pessoas. O foco está na legislação, no regime econômico e nos argumentos científicos, religiosos e políticos dos séculos XV e XIX, para justificar e sustentar a escravidão.
Nesse núcleo, que é mais estreito e escuro, destacamos a presença de dois objetos sensíveis das coleções museológicas brasileiras. Uma balança de ferro do Museu de Artes e Ofícios de Belo Horizonte, oriunda da Bahia e com a data de “1767” gravada em seu travessão. Supostamente era usada para pesar os corpos de pessoas negras, como parte da atribuição de valor monetário para a venda. Aí também se encontra a máscara Flanders do acervo do MHN.
O módulo “Para além da escravidão” é dedicado às experiências de africanos e afrodescendentes como agentes de ideias e lutas pela liberdade. O intuito é mostrar que SEMPRE houve resistência e experiências de emancipação que tensionaram o regime escravista. Esse conceito interfere, inclusive, na circulação dos visitantes que, a partir daí, torna-se mais livre, fluida e com maior luminosidade. Duas personalidades da nossa história são representadas: Francisco José do Nascimento, mais conhecido como o Dragão do mar, e a que ficou conhecida como “Escrava Anastácia”, ambos tornados heróis e referenciados até os dias atuais. O primeiro foi um jangadeiro negro, abolicionista, que se recusou a transportar pessoas escravizadas da costa de Fortaleza para os navios fundeados, que as transportariam para a venda no Rio de Janeiro, em 1881. Liderou uma greve de jangadeiros num ato de liberdade que contribuiu para a abolição da escravidão no Ceará, em 1884. Já Anastácia, tem sua representação mostrada pelas lentes da apropriação política e religiosa de sua memória, pelos movimentos negros, pela umbanda, onde integra a falange de pretos e pretas velhas e pelo afrocatolicismo, com o culto à sua santidade por parte das irmandades negras de Nossa Senhora do Rosário dos pretos (não pela Igreja Católica), especialmente de Salvador e da cidade do Rio de Janeiro. É nessa parte que está a arte contemporânea de Yuri Cruz, “Monumento à voz de Anastácia”, como um ato de reparação, libertando-a dos grilhões da escravidão e devolvendo boca e voz a essa escravizada, para que nenhuma mulher negra seja mais privada do seu direito de fala, de sua liberdade.


Aliás a arte contemporânea compõe toda a narrativa histórica da exposição, num diálogo de temporalidade que nos questiona e induz a pensar sobre como lidar com esse passado difícil da escravidão, ainda tão presente no mundo contemporâneo. É a permanência do racismo que marginaliza, criminaliza e mata pessoas negras até hoje, vide a tragédia que se abateu no Rio de Janeiro há duas semanas, cujas balas do governador tinham uma pele alvo, a negra.
Vale destacar, entre seis que foram produzidas especialmente para exposição, a bandeira idealizada da Revolta dos Alfaiates, que aconteceu na Bahia, em 1798. Produzida por Nyugen E. Smith, é composta por cores e símbolos que representam a apropriação contemporânea potente do evento histórico, por parte do autor, que criou esse objeto, em 2024.


Mas a arte contemporânea se faz ainda mais presente na quarta seção da exposição, “Universo da criação e da liberdade”. Uma grande parede ondulada e azul da cor do mar cria um espaço reservado para meditação sobre as experiências de escravidão e liberdade. Uma pausa para sentir e descansar, onde uma animação representa práticas culturais afrodiaspóricas, como o toque do tambor, nos envolvendo e enredando nessa obra realizada pelo artista Daniel Minter. “Recheando” essa parede, objetos artísticos e rituais que foram fundamentais nas formas de (re)existência negra diante da violência da escravidão, e resistiram, dando sentido e fortalecendo as existências negras no mundo contemporâneo. Do Brasil, o abebê de Oxum do Museu Histórico Nacional compõe o conjunto de objetos desta parede.


A penúltima parte da exposição, “Velhas práticas em uma nova era” é voltada para a reflexão sobre como os sistemas de violência e opressão do tempo da escravidão são atualizados e insistem em estruturar as relações sociais, políticas, econômicas e culturais segundo o racismo. São os passados presentes e as diversas formas de enfrentá-lo. Do acervo do MNAAHC, uma algema do século XIX e outra usada na atualidade, ambas fabricadas pela Hiatt and Company, da Inglaterra, atestam a perenidade da indústria da violência. Uma indesejável permanência, a exemplo do Apartheid na África do Sul e assassinatos como o da vereadora Mariele Franco, mulher preta, bissexual e periférica.
A última parte, “Construindo futuros”, dedica-se à escuta das vozes das pessoas que vivem na “esteira da escravidão”, ou seja, que convivem com os desafios que envolvem ser preto no mundo contemporâneo. Apesar de entrelaçar todo o circuito expositivo, as falas ganham mais espaço e profundidade aqui. Trata-se do projeto “Conversas inacabadas” (Unfinished conversations), que entrevistou várias personalidades dos países envolvidos. No Brasil, a produção dessas entrevistas foi liderada pela professora Martha Abreu e pelo historiador Vinícius Natal, que também fizeram a curadoria musical das canções brasileiras executadas nesta parte da exposição, inspirando futuros promissores. Aqui fica mais evidente o trabalho coletivo envolvendo as comunidades afrodiaspóricas e colonizadas dos países participantes, num cruzo entre vivências transoceânicas e cotidianos locais.


Nesse projeto de edificação de um futuro mais justo estão em jogo percorrer caminhos de cura e reparação. É aqui que são expostos os artefatos arqueológicos do Cais do Valongo. Pela primeira vez, esses objetos encontrarão o continente africano, de onde partiram, a centenas de anos atrás.

Enfim, esperamos que as e os visitantes possam ter nessa exposição um lugar de aprendizado, de reflexão e de inspiração nas lutas contra o racismo e por reparação histórica no mundo. Vale, inclusive, adiantar essa visita, acessando o material didático aqui.
P.S.: Este texto inspirado na live “Encontro com educadores: exposição ‘Para além da escravidão“, com a participação das autoras, o diretor do MHN, Cícero Almeida e os educadores do MHN Edmilson Santos e Moana Soto.
Para saber mais
A inauguração da exposição “Para além da escravidão…” envolve um calendário robusto de atividades que também marcam o mês da consciência negra. Confira aqui a programação em diversas instituições no Rio de Janeiro! Não perca!
