Sob as bênçãos de N. Srª do Rosário dos Homens Pretos, para não mais embranquecer!
por
Aline Montenegro Magalhães
Luciana Bozzo Alves
No dia 28 de outubro de 2025, estivemos em Ubatuba, no Litoral Norte paulista, para integrar um movimento de resistência e afirmação das memórias negras. Nossa presença naquele território buscou fortalecer as lutas contra as persistentes tentativas de apagamento histórico e cultural que ainda recaem sobre as trajetórias e expressões das populações africanas e afrodescendentes na região.
O foco dessa mobilização foi um antigo espaço onde existiu a Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, construída para que pessoas negras pudessem professar sua fé e participar dos cultos católicos — já que lhes era vetado o compartilhamento do mesmo espaço religioso reservado à população branca. Trata-se, portanto, de um lugar carregado de significados, cuja memória insiste em sobreviver apesar dos esforços de silenciamento, com a destruição da igreja na década de 1910.
O incômodo diante do apagamento de um espaço sagrado para a população afrodiaspórica da cidade mobilizou a realização desse ato, em 2017. Desde então, um grupo de pessoas vem se dedicando a valorizar a memória desse lugar de grande relevância histórica e simbólica. A figura a seguir exibe a Igreja de Nossa Senhora do Rosário no início do século XX, que ficava na esquina da Avenida Iperoig com a Rua Doutor Esteves da Silva, no coração de Ubatuba. (Figura 1).

Fonte: Musa et al, 2015, adaptação, Larissa Girardi, 2024.
Como se pode observar na fotografia a seguir, a igreja desapareceu da paisagem ubatubana, na década de 1910, após um incêndio destruir parte de sua estrutura. As ruínas remanescentes foram posteriormente removidas, como revela a imagem obtida em período anterior a 1930.

Fonte: Blog Ubatubense, 2012.
A imagem é em data anterior a 1930. Disponível em https://ubatubense.blogspot.com/2012/04/blog-post.html. Acessado em 24 de março de 2024.
São poucas a informações disponíveis sobre esse local e, de acordo com José Euclides Vigneron, conhecido como Zizinho, ex-prefeito de Ubatuba, essa igreja
(…) ficaria de pé ainda até 1913, quando foi parcialmente destruída por um incêndio supostamente causado por “um fenômeno da natureza que até hoje não está bem esclarecido”. Adornos da igreja que escaparam do incêndio foram usados no altar-mor da Igreja Matriz que estava inacabado (NASSIF, 2017).
Esse local atualmente corresponde a Praça Nossa Senhora da Paz (Figura 3). No local, encontra-se a estátua de Regina Pacis (Figura 4), doada pelo Papa João XXIII em 1963, por ocasião das celebrações dos quatrocentos anos da chamada “Paz de Iperoig”.
A falta de referências sobre a igreja no local é revelador da permanência das lógicas coloniais na construção da memória urbana. A ausência de uma placa indicativa, ou qualquer outra forma de lembrar que ali existiu o templo, contribui para as tentativas de apagamento histórico da presença de populações africanas e afrodescendentes e de suas práticas culturais e espirituais. Assim, a praça atual se torna um espaço emblemático da disputa de memórias: de um lado, a celebração da conciliação entre invasores europeus e missionários; de outro, o silenciamento das experiências e trajetórias das comunidades negras que moldaram a história de Ubatuba.

Crédito: Luciana Alves, 2023

Figura 4. Estátua de Regina Pacis Iperoyg
Crédito: Luciana Alves, 2024
Conforme apontado anteriormente, ainda são poucas as informações até agora localizadas sobre esta igreja. No entanto, há um movimento chamado “Resgate Histórico e Religioso da Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos“, que começou em outubro de 2017 e, desde então, tem envolvido a Paróquia Exaltação à Santa Cruz, o Maracatu Itaomi do Ilê Axé Baba Oxaguiã e a Pastoral Fé e Cultura. Nesse mesmo ano, a Paróquia Exaltação à Santa Cruz acolheu o evento, durante o qual o cortejo não podia entrar na igreja para a retirada e entrega da imagem da Virgem do Rosário, se formando e dissipando na porta. A imagem da Virgem do Rosário que atualmente está na Paróquia Exaltação à Santa Cruz foi retirada da Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos após o incêndio, no início do século XX, sendo que, além dessa imagem, alguns outros itens foram removidos e transferidos para a igreja matriz que, à época, estava em reforma.
As imagens a seguir exibem o cortejo com a imagem de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos chegando ao local da antiga igreja, carregada, também, por membros da Congada de Bastões de São Benedito (Figura 5). E o registro exibe uma apresentação do Maracatu Itaomi que também acontece na sequência (Figura 6).

Crédito: Luciana Bozzo Alves, 2024.

Crédito: Aline Montenegro, 2025.
Desde então essa ação vem sendo realizada e tem atraído cada vez mais pessoas. Como para o ano de 2025 havia a previsão de pancadas de chuvas no período da tarde, justamente quando sairia o cortejo em direção ao local da antiga igreja e, a fim de não impedir a realização desse ato de resistência, a ações foram transferidas para o Salão Paroquial ao lado da Igreja Exaltação da Santa Cruz. Em um curto período de estiagem, um pequeno cortejo acompanhou a imagem de Nossa Senhora do Rosário até o salão paroquial, embalado pelas canções dedicadas à virgem do Rosário entoadas pelo Maracatu Itaomi.

Crédito: Aline Montenegro, 2025.
A fotografia a seguir registra um grupo de pessoas, de formações, religiões e trajetórias diversas, unidas em torno dessa iniciativa. São elas que, com dedicação e propósito, fortalecem o evento e constroem caminhos para sustentar essa luta de resistência, contribuindo para que o local seja, enfim, reinscrito na paisagem ubatubana.

Crédito: Aline Montenegro, 2025.
Da esquerda para a direita vemos: Claudio Santos, capoeirista desde 1995, professor de Capoeira no Grupo Senzala; Prof. Leandro Cruz, Historiador, graduado pela Universidade Estadual Paulista, jornalista e Professor da Rede Pública de Ensino em Ubatuba; Edison Soler, professor, babalorixá do Ylê Axé Baba Oxaguian; Diácono Claudio José R. de Macedo; Sra Nalva Barbosa, Pedagoga, Arte Educadora, Ativista social e ambiental no município e Fundadora do Instituto da Árvore; Prof. Janos Karoly Szenczi, Historiador, graduado pela Universidade de Taubaté, com pós graduação em Coordenação Pedagógica e História da África, Professor aposentado das Redes Públicas Estadual e Municipal de ensino; Luciana Bozzo Alves, Especialista em História da África e do Negro no Brasil, mestra e doutora em Arqueologia pela Universidade de São Paulo e, diretora de Projetos Arqueológicos do Instituto Afrorigens; Thaila Brito: mulher preta, católica, e atual Diretora-Presidenta da Fundação de Arte e Cultura de Ubatuba. Ao microfone vemos Rogério Estevenel, coordenador da Pastoral Fé e Cultura da Diocese de Caraguatatuba, graduado em Geografia pela Universidade de Taubaté e História pela Faculdade Metropolitana de Santos. Pedagogo, Mestre em Ciências Ambientais pela Universidade Brasil e professor na Rede Pública de ensino em Caraguatatuba.
Também contamos com a participação de Thayná Soares do Prado, que trouxe um depoimento sensível e profundamente significativo sobre a trajetória de sua avó, dona Maria do Prado. Em sua fala, Thayná destacou a força, a sabedoria e o legado dessa importante liderança do Quilombo da Caçandoca, uma mulher cuja história se entrelaça com as lutas pela preservação da memória, da identidade e dos territórios quilombolas no Litoral Norte paulista.
Ela também ressaltou o papel de dona Maria como Rainha do Maracatu Itaomi de Ubatuba, figura central na manutenção das tradições, da musicalidade e das expressões culturais que fortalecem a ancestralidade e a resistência negra na região. A homenagem emocionou o público, lembrando a todos que a memória é um território vivo, sustentado pela voz e pela presença das mulheres que abriram caminhos.
Não podemos deixar de mencionar Henrique Becker, integrante do Maracatu Itaomi e uma pessoa que luta incansavelmente contra o apagamento imputado ao local da antiga igreja. Sua liderança nesse movimento de retomada do espaço e de reconstrução da história da igreja é entendida aqui como parte de estratégias afrodecoloniais, (re)empretecendo a cidade para não mais embranquecer.
Para saber mais
Luciana Bozzo Alves. Encruzilhadas afrodecoloniais: Ubatuba entre apagamentos e silenciamentos das narrativas negras. Tese (Doutorado em Arqueologia). Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo, MAE/USP, 2024.
João Musa; João Scarazzato; Alberto Martins; Kok, Glória O litoral em dois tempos: uma viagem em torno do relatório da Comissão Geográfica e Geológica do Estado de São Paulo: de Santos a Ubatuba: 1915-2015.
NASSIF, Lourdes. Ubatuba – Ato une religiões e resgata história da ‘Igreja dos escravos’. 2017. Disponível em <https://jornalggn.com.br/cidadania/ubatuba-ato-une-religioes-e-resgata-historia-da-igreja-dos-escravos/>. Acessado em 17 de janeiro de 2022.
