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Xangô me mostrou o caminho: A insurgência do sagrado no espaço museológico

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por Zelia Rodrigues Peixoto

 

 

Alguidar com moedas ofertadas pelo público do Museu Afro Brasil.

Na encruzilhada dos caminhos, onde a história bate na porta do presente, a gente se pergunta: que ruas nos levam a esses casarões de memória chamados museus? E, mais fundo, como é que o meu corpo, corpo preto, se reconhece espelhado ali dentro?

Para gente preta no Brasil, essa pergunta tem as bordas mais afiadas, vestida de muitas camadas de nuances e complexidade. Não é uma resposta única, mas um rosário de vivências, dependendo do repertório de cada um.

Ao chegar ao Museu Afro Brasil em 2022, para trabalhar na produção de exposições, não fazia ideia da reza e dos movimentos de Emanoel Araújo, o Mestre que fincou a casa-museu em um dos locais mais prestigiados da cidade mais rica do país e aos 81 anos produzia anualmente cerca de dez exposições.. 

Conhecer o acervo foi um rio de água doce e salgada, trabalho de formiguinha, mas também um reencontro de mim com minhas raízes, um abraço apertado no que me funda. Como podia tanta beleza e tanta dor se misturarem naqueles corredores e se confundirem, feito irmãs, com a minha própria história? Me deixei ser levada, aos poucos, nas ondas de narrativas que os saberes dos profissionais do museu teciam.

E as “coincidências”, ah, as coincidências! Elas foram costurando os meses e anos que dediquei ao museu. A primeira, a mais forte: meu padrinho, irmão da minha mãe, era pai de santo, e eu, desde o pequena, sabia que era filha de Xangô. Só o saber, a fé de longe, pois nunca joguei os búzios, nunca fui a outro lugar para entender melhor, nunca frequentei o Candomblé, a religião que era base da minha família. Brasileira que sou, a fé de matriz africana se misturava em mim com outros benzimentos.

Mas voltando a Xangô, Ele, o Rei, foi quem orientou meus passos desde que pisei no museu. Não fui ao Candomblé, mas só de estar no museu todos os dias, muitas vezes eu sentia estar em um terreiro, e tinha dias que o trabalho era no nível espiritual mesmo.

No meu primeiro fim de semana de trabalho, sentei numa roda de conversa onde uma artista e sua mãe de santo, de Xangô, trocavam palavras, mas eu, distraída, não me atentei. Depois, os pontos se acharam. E quando a tristeza da vida de uma trabalhadora da cultura carioca que tinha que se adaptar à São Paulo, me apertava o peito, eu recorria ao oriki de Xangô, gravado na parede do museu, buscando o acalanto.

Um dia, em prosa com um funcionário do museu, que é segurança e pai de santo, soube de uma obra que o povo procurava para ofertar moedas, dinheiro, um axé, e que ele e os colegas eram orientados, a não deixar o público fazer as ofertas e o sagrado se manifestar ali. O museu, ah, esse museu, está repleto de pais e mães de santo, gente bonita e de axé, que atende o público, mesmo sem estar nos cargos de liderança na instituição.

A tal obra, curiosidade que me mordeu a alma, é o “Altar ao Rei Xangô do reino de Oyó”, construída por Emanoel Araujo, sem ano certo nos registros do museu, feita com duas mulheres de madeira que representam o oxê de Xangô, o machado duplo, símbolo de justiça, força e equilíbrio na tradição do candomblé. (A Imagem 2 mostra uma parte desse altar, um dos objetos que compõem a instalação). O museu a vê como instalação, não a cataloga e/ou conserva como obra, mas ela bebe na fonte ancestral do Terreiro da Casa Branca do Engenho Velho, em Salvador, Bahia, o primeiro terreiro registrado do Brasil e tombado pelo IPHAN.

 

Oxê de Xangô – um dos objetos que compõe a instalação.

Aquela história, as moedas no alguidar (como na Imagem 1), me chamou tanto que virou semente para o meu mestrado no Programa de Pós-Graduação de Museologia da Universidade de São Paulo (PPGMUS- USP). O que me movia era o público, a relação deles com a obra, a proximidade e o entendimento de que a obra, enquanto altar, faz parte do sagrado. O que leva essas pessoas a depositarem dinheiro? Será que estão agradecendo ou pedindo algo? E como a ciência do museu conversa com o sagrado que o público sente e toca?

Fui aprovada para o programa e a obra virou minha nova amiga, minha guia. Eu, feito criança curiosa, estava sempre atrás dos colegas de trabalho perguntando diversas coisas sobre a obra, bisbilhotando a biblioteca do museu, em busca de informações que respondessem às minhas perguntas. A pesquisa cresce, muda de roupa, se molda à vida (do objeto, da instituição e da própria pesquisadora), mas o coração, a rua raiz, é a mesma: atuar através de uma museologia social, onde o povo possa ter voz em processos museológicos, onde uma museologia de história única e eurocentrada não seja hegemônica em museus com foco em ações afrocentradas, onde a ciência e a religião possam confluir em rios que desemboquem em um mar fértil para a sociedade. Um mar que possa erodir as bases do racismo e que a história só chegue se vier acompanhada das mais diversas histórias: sobre os objetos, as coisas, os seres, as pessoas e as energias que os cercam.

O público, ao ofertar objetos à obra de Emanoel Araújo, muda o sentido da instalação e reinscreve o rito, faz do museu, do pedaço de arte, um lugar de sagrado, vivo.

Nesse gesto, a voz de Quintino Pacheco ecoa, ele que viu seus objetos sagrados serem confiscados e cientificizados, como nos conta Michele Agostinho em seu texto “O Museu Nacional do Rio de Janeiro entre a escravidão e a liberdade”. Quintino resistiu, nomeando os objetos como adornos do jongo, recusando a neutralização colonial imposta pelo Museu Nacional no período do império. É o mesmo texto que traz a luta decolonial brasileira na história da Jangada Libertadora, que cruzou o Brasil e chegou aos salões do mesmo museu como troféu da liberdade, mas seu poder simbólico inquietou tanto a elite escravocrata que foi silenciada, removida, apagada. Ambos, Quintino e a jangada, desafiaram a musealização como forma de dominação e esquecimento.

Hoje, diante do “Altar ao Rei Xangô”, é a gente, o público, quem reativa a presença, devolve o sentido, recusa o enquadramento. No Museu Afro Brasil, o sagrado não dorme, ele resiste vivo, pulsante, politicamente insubmisso. É a prova de que a presença afrodiaspórica nas casas de memória não é passiva ou arquivística, mas sim dinâmica, ritualística e politicamente subversiva.

Lembro do texto “A Chegada do Nosso Sagrado no Museu da República”, de Mãe Meninazinha de Oxum e outros, onde os objetos de santo, apreendidos pela polícia na era Vargas e guardados no Museu da Polícia por anos, voltam para casa. O gesto de retorno, cuidado e reinscrição dessas peças (agora sob uma ética afrocentrada e de terreiro), tornou-se, para mim, uma terra fértil. Foi entendendo esse processo que nasceu em mim o desejo de ver esse mesmo tipo de relação estabelecida com o acervo do Museu Afro Brasil: que corpos como o meu, que cresceram ou atuam na cosmologia do axé, pudessem não apenas visitar, mas habitar e significar o museu como casa.

Imagino, então, a potência de uma rede nacional de museus afro-centrados, articulando juntos estratégias de salvaguarda, narrativas múltiplas e de cuidado. Porque conservar, neste contexto, não é apenas preservar matéria, é manter o axé, escutar a memória, honrar o silêncio que dança. Que os Museus possam ser esse espaço de escuta ativa, onde o sagrado não apenas entra, mas permanece inteiro.

REFERÊNCIAS

ADICHIE, Chimamanda Ngozi. O perigo de uma história única. São Paulo, Cia das Letras, 2009.

AGOSTINHO, Michele. de B. O Museu Nacional do Rio de Janeiro entre a escravidão e a liberdade. Anais do Museu Paulista: História e Cultura Material, [S. l.], v. 30, p. 1-23, 2022. DOI: 10.1590/1982-02672022v30d1e31. 

MÃE MENINAZINHA DE OXUM, Mãe Nilce de Iansã, Maria Helena Versiani, Mario Chagas. A Chegada do Nosso Sagrado no Museu da República: “a fé não costuma faiá”. In: SOCIOMUSEOLOGIA: PARA UMA LEITURA CRÍTICA DO MUNDO Centro de Estudos Interdisciplinares em Educação e Desenvolvimento (CeiED), Departamento de Museologia-Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias, Cátedra UNESCO “Educação Cidadania e Diversidade Cultural” Editores: Judite Primo & Mário Moutinho, Lisboa 2021.

VERGÈS, Françoise. Decolonizar museu: programa de desordem absoluta. São Paulo: Ubu Editora, 2023.

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