Mãe Carmen, uma guardiã da memória: nossa singela homenagem
por Carina Martins
A força do Gantois continua lá
Mãe Carmem mandou dizer num tom bem feliz (bonito)
Que está seguindo o caminho
Que Mãe Menininha sempre quis
Na mesma fé, na mesma raiz
(Nelson Rufino, A Força do Gantois, 2019)

No último dia 26 de dezembro, li a notícia da morte de Mãe Carmen, com 98 anos. As homenagens a ela não paravam de chegar em minhas redes: vídeos, depoimentos, postagens, notícias de jornal. As dimensões religiosa, afetiva, cultural e política teciam um quadro de memória com luto e agradecimento, muito agradecimento. Estes momentos da vida são especiais e raros, quando presenciamos a partida de um monumento vivo, de um elo de tradição e futuro, de uma referência que permeia a vida profana e sagrada de tantas pessoas.
Sua mãe, uma das mais conhecidas Yalorixás do Brasil, a Mãe Menininha do Gantois, foi eternizada nas obras de Jorge Amado, nos desenhos de Carybé, nas músicas de Caetano Veloso e Maria Bethânia, que proclamaram: “Quero dedicar tudo que em mim brilhar, a quem está no Gantois” (Dedicatória, 1992). Ou nos famosos versos de Dorival Caymmi: “Ai! minha mãe, minha Mãe Menininha” (1972)”..
Imediatamente, lembrei de uma das mais gratas surpresas que tive com a leitura de um livro infanto-juvenil sobre ela, intitulado “Àwon Ona Jagún: narrativas sobre a mãe Carmen de Òsàgiyán”. Uma das autoras, Tanira Fontoura, gentilmente me recebeu para uma visita no Memorial do Terreiro de Gantois no ano passado. Quando terminei de ler o livro, fiquei refletindo sobre como essas narrativas biográficas precisam estar disseminadas nas casas brasileiras. A obra estimula a construção de um imaginário mais diverso: as ilustrações de Breno Loeser, um artista incrível que podemos conhecer mais no seu site https://www.brenoloeser.com/, trazem cores e símbolos da religiosidade do candomblé. A escrita é bilíngue, em yorubá e português, tal como no catálogo que já analisamos no blog . A narrativa traz elementos de uma epistemologia que compreende a vida humana intrinsecamente relacionada com a não- humana.
Lembrou-me quando li a autobiografia de Jung: a surpresa que senti ao perceber que ele interpretava sua vida a partir dos sonhos e o foco era em sua jornada psíquica, mais do que acontecimentos externos. O livro sobre Mãe Carmen trouxe para mim a mesma qualidade de assombro: como a vida pode ser narrada e interpretada a partir de outras premissas, muito além do que habitualmente estudamos como biografia, memória e história. “Mãe Carmen não nasceu, ela foi esperada pelos àwon Òrìsà”. Recomendo muito a leitura.

Ilustração de Breno Loeser, 2023. Foto: Arquivo da autora
Ao conhecer Mãe Carmen, conhecemos também um projeto político de Terreiro fortalecedor das mulheres e da autonomia, que zela pelo cuidado e pelos sentidos atentos às manifestações. Sua mãe, a célebre Mãe Menininha, fez o parto em um dia inesperado, 29 de dezembro de 1928, com o auxílio do Òrisá. Filha mais nova, “fez o santo” com 7 anos de idade, aprendendo os saberes-fazer do terreiro entre observação e prática, bem como a orientação cuidadosa de Dona Zinha, sua “mãe criadeira”. Nas palavras dos autores, “(…) era no fazer do presente que se preparava o futuro que chegaria”(…).
Aprendi, na visita ao Terreiro e ao Memorial Mãe Menininha, que ele foi construído por grandes mulheres. Há fotografias que mostram essa linhagem das Agbás do Ilé Iyá Omi Àse Iyamasé. O Terreiro foi sempre comandado por mulheres, desde sua fundação, em 1849 por Maria Júlia da Conceição Nazareth, seguindo uma linhagem matriarcal.
A narrativa do livro aponta que Carmen, ainda menina, era percebida como portadora dessa tradição e, desde cedo, assumiu responsabilidades religiosas importantes. Ávida por conhecimento, muitas vezes negado a mulheres negras e pobres, ainda mais em sua época, se empenhou a ler o mundo por jornais e pela escola, formando-se posteriormente em Contabilidade. Atuou como tesoureira do Tribunal de Contas do Estado da Bahia até se aposentar, sem deixar a dedicação religiosa de lado. Com a morte da mãe, sua irmã Cleusa assume o Terreiro a partir de 1989. Mãe Carmen assume o posto como Iyalorixá em 2002. Sob sua liderança, foi construído o Centro Comunitário Mãe Carmen do Gantois e diversos projetos sociais implementados.
Importante lembrar que o Terreiro de Gantois, Ilê Iyá Omi Axé Iyamasé, foi tombado em 2002 pelo IPHAN como patrimônio histórico e etnográfico. O pedido de tombamento veio pelas mãos da neta de Mãe Menininha, Mônica Millet, filha de mãe Cleusa. Ao ler a ata do Conselho Consultivo do órgão, tive acesso ao parecer do conselheiro Luiz Phelipe de Carvalho Castro Andrès, bastante elogiado pelos pares, que aprovaram por unanimidade o tombamento do terreiro, o terceiro a ser reconhecido pelo IPHAN. O parecer destaca o valor cultural e a notoriedade do Terreiro, apontando ainda para a questão da dívida histórica do Estado brasileiro: “Esta sim a primeira das grandes dívidas que, como cidadãos, herdamos desde o nascimento. Aquela que parece ser impossível de saldar” (Andrés, 2002). O parecer demonstra, ainda, todas as iniciativas de diversas gestões municipais de Salvador em prol do Terreiro, como o tombamento em 1985 em termos de área de proteção cultural e paisagística, a desapropriação de terrenos contíguos, a construção da Fonte de Oxum e da Praça Pulchéria, dentre outras. Também destaca a importância para a urbanização daquela região da cidade, pois uma estratégia habitual dos terreiros de candomblé era sua edificação em territórios distantes e ermos, para a proteção da violência policial, sobretudo na vigência do antigo Código Penal (1890-1941), que criminaliza ritos e religiões afrodescendentes. O tombamento é material, do terreno em si, edificações e áreas envoltórias, com árvores sagradas, fonte de água e trechos de mata. O Memorial do Terreiro faz parte deste projeto e gostaria de compartilhar com vocês um pouco da minha visita, em maio de 2025, o que farei em próximo post.
Hoje, o que quero mesmo é compartilhar essa emoção e encantamento em ver as mães do Gantois construindo caminhos de fé, esperança e autonomia, com os fios da ancestralidade, espiritualidade e beleza. Que a obra de Mãe Carmen continue a inspirar a todas nós. Seu legado está semeado em muitas filhas e filhos de fé. E também em todos que se maravilham com o Brasil. Obrigada mãe Carmen! Obrigada aos escritores e artistas que fizeram essa obra singular.

Breno Loeser
Foto: Arquivo da autora
PARA SABER MAIS
Escute a interpretação de “A força de Gantois”, com o grupo Ofá, Nelson Rufino e Zeca Pagodinho . https://www.youtube.com/watch?v=xYgzdOeZXDI
Leia o livro “Awón Ona Jagun”, escrito por Tanira Fontoura, Tiago Coutinho, José Ricardo Lemos e Rubens Caldas. Ricamente ilustrado por Breno Loeser. Salvador, Bahia: Editora Tecnomuseu Consultoria Ltda, 2023.
Conheça o site do Terreiro do Gantois http://terreirodogantois.com.br/ e também da Museologia de Terreiro: https://museologiadeterreiro.com.br/; instagram @terreirodogantois e @memorialgantois
Ata da reunião do IPHAN: http://portal.iphan.gov.br/uploads/atas/2002__05__37a_reunio_ordinria__21_de_novembro.pdf
