Skip links

O tombamento do Templo Espiritualista de Umbanda São Benedito: um marco para a política patrimonial de São Paulo

Share

por Cauan da Silva Rabello¹

 

Nos últimos dois anos, tive a oportunidade de participar do processo de tombamento do Templo Espiritualista de Umbanda São Benedito, o primeiro terreiro de umbanda tombado em São Paulo (e provavelmente do Brasil)². Para viabilização desse reconhecimento, realizamos um trabalho que envolveu visitas técnicas (trabalho de campo), entrevistas e a produção de um laudo antropológico, assinado pelo antropólogo Vagner Gonçalves da Silva. Além disso, acompanhamos de perto a tramitação do processo no Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo (Conpresp), estabelecendo diálogos constantes com o Departamento do Patrimônio Histórico (DPH) e seu corpo técnico, o Núcleo de Identificação e Tombamento (NIT-DPH).

Este texto tem como objetivo trazer algumas reflexões sobre o processo de patrimonialização desse bem, agora oficialmente reconhecido pela municipalidade. Minha inserção nesse contexto ocorreu por meio da minha pesquisa de Iniciação Científica, desenvolvida em 2024 e 2025, junto ao Departamento de Antropologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (DA-FFLCH-USP), com financiamento da Fapesp, sob orientação de Vagner Gonçalves da Silva. O foco da pesquisa consistiu justamente em acompanhar a elaboração do laudo antropológico e monitorar a tramitação deste e de outros processos junto aos respectivos órgãos de preservação. Acompanhar esse processo permitiu observar como a fundamentação antropológica se torna necessária para que o Estado reconheça a legitimidade de territórios tradicionais. Para entender por que o tombamento desse terreiro é tão importante, vale a pena darmos um passo atrás e olhar para a história da própria umbanda. 

Embora não exista uma data única e exata para o seu surgimento, sabemos que ela se consolidou no início do século XX, principalmente no Rio de Janeiro, São Paulo e Rio Grande do Sul, de forma que a umbanda nasceu de uma mescla interessante: ela uniu práticas do espiritismo kardecista com elementos centrais de práticas afro-brasileiras, presentes no candomblé (Silva, 2025, p. 8). Essa síntese foi articulada, inicialmente, por religiosos de classe média desses grandes centros urbanos.

Dessa combinação, nasceu um universo cultural-religioso muito rico e brasileiro, tendo como o panteão a ser cultuado os orixás (divindades africanas), os caboclos (espíritos ameríndios), os preto-velhos (espírito dos africanos escravizados), os santos do catolicismo popular e, por fim, outras entidades que foram acrescidas a esse panteão, como erês (espíritos infantis), pombagiras, baianos, marinheiros e ciganos.

Em São Paulo, os registros de terreiros em cartórios começam a surgir na década de 1930. Inicialmente, esses espaços não utilizavam o nome “umbanda” devido à forte repressão da época – cenário que só começou a mudar em meados dos anos de 1950, com a criação de instituições como a Fundação Umbandista de Tendas de Umbanda do Estado de São Paulo (Fuesp), atual União de Tendas de Umbanda e Candomblé do Brasil (Utec). Nesse mesmo movimento de organização, surgiu a Liga Umbandista do Estado de São Paulo, fundada por Euclides Barbosa (1906-1988), o Pai Jaú – importante liderança negra da religião e renomado jogador de futebol com passagens por Corinthians, Vasco e pela Seleção Brasileira na Copa de 1938.

É justamente no terreiro de Pai Jaú, em Guarulhos, que a jornada de Pai Jamil, futuro sacerdote do Templo Espiritualista de Umbanda São Benedito, teve seu ponto de partida. Sofrendo de fortes dores de cabeça sem motivo aparente, ele foi levado por seu colega de trabalho, Décio Pereira Silva, ao local. Lá, foi lhe revelado que seus problemas eram de ordem espiritual, relacionados à sua mediunidade. Um banho de ervas foi prescrito como tratamento, marcando o início da trajetória de Jamil Rachid na umbanda. Após a cura, ele passou a frequentar o terreiro e, com o tempo, passou de consulente para filho-de-santo, desenvolvendo sua mediunidade e incorporando seus guias (Silva, 2025).

Com a fundação do Templo em 1950 e a consequente consolidação do seu espaço físico, a casa firmou suas celebrações seguindo os ritos tradicionais da umbanda, com especial atenção aos caboclos, preto-velhos e erês. No entanto, a identidade do terreiro vai além, refletindo a trajetória pessoa e o duplo sacerdócio de Pai Jamil. Além de sua liderança na umbanda, ele foi iniciado no candomblé jeje em 1960 pelo Tata Fomotinho, pertencente à linhagem da histórica Roça do Ventura. Por conta dessa iniciação, com tempo Pai Jamil tornou-se o babalorixá³ Azawani*, nome que faz referência ao vodum correspondente ao orixá Obaluaiê, divindade associada às doenças e às curas. Por conta dessa vivência, o Templo não se restringe apenas aos toques de umbanda, tal que realiza esporadicamente iniciações e toques de candomblé. 

No fim das contas, o pedido de tombamento do Templo ganhou força por duas motivações principais. A primeira delas é a importante trajetória histórica de Pai Jamil. Ele não foi apenas um líder religioso, mas um verdadeiro articulador que ajudou a organizar a umbanda em São Paulo, desde os tempos em que aprendeu com Pai Jaú até as lutas contra a repressão policial. O terreiro, portanto, é o reflexo vivo dessa liderança.

A segunda motivação vem de um estudo técnico feito pelo NIT/DPH que identificou alguns imóveis da região de Pinheiros (Vila Cerqueira César) como bens tombáveis pelo município. Esse trabalho, coordenado pela socióloga Fátima Antunes, incluiu o terreiro como um bem urbano significativo, porém apresentava também indicativos de valor cultural que poderia ser considerado. Diante dessas duas motivações, em especial a segunda, o processo de tombamento do Templo juntou-se à leva de outros terreiros que também haviam solicitado o reconhecimento junto ao Conpresp. 

Para que o tombamento de um bem cultural seja realizado, é necessária a elaboração de um documento formal, que é apresentado ao órgão especializado. No nosso caso, foi necessário que o antropólogo Vagner Gonçalves da Silva produzisse um laudo antropológico sobre o Templo, processo essencial para o reconhecimento do terreiro como um bem material da cidade.

Durante as quatro visitas formais que realizamos, fomos recebidos pela comunidade, pelo próprio Pai Jamil e por sua filha carnal, a equede* Yara Rachid, que o auxilia na administração do terreiro. Nessas ocasiões, Pai Jamil, aos 91 anos, compartilhou conosco sua trajetória em entrevistas que registramos e, posteriormente, transcrevi. Além dos relatos orais, percorremos o espaço para conhecer os locais sagrados e litúrgicos, incluindo a sede da União de Tendas, que funciona no próprio lote do terreiro.

À esquerda, Pai Jamil; à direita, Vagner Gonçalves com suas anotações e celular gravando áudio.
Foto: Cauan Rabello, 2024.

Essa vivência também nos ensinou sobre o respeito ao sagrado e às regras da casa. Em alguns momentos, como na primeira visita, não pudemos acessar os quartos dos voduns porque havia oferendas arriadas, o que impedia a nossa entrada pelo fato de a divindade “estar comendo”. Esse limite, somado ao uso de roupas claras, reforça que o terreiro é um espaço vivo, onde a dinâmica espiritual e ancestral dita o ritmo do lugar. Como destacou equede Yara em uma de nossas conversas, preservar o Templo é importante porque ele é um ponto de acolhimento e cultura que ajuda a comunidade há décadas.

Além disso, parte fundamental do laudo antropológico é a elaboração da planta baixa do terreiro. Os elementos indicados neste documento são analisados pelo Conselho, que delibera acerca do tombamento dos bens indicados. Em campo, o rascunho dessa planta foi feito à mão, registrando as medidas e a disposição de casa espaço sagrado. Posteriormente, esse material foi encaminhado para a equipe técnica do NIT/DPH, que utilizou softwares específicos para criar a planta digital final. É importante ressaltar que, por se tratar de um estudo antropológico e não arquitetônico, nosso objetivo não era obter detalhes milimétricos, mas sim garantir uma representação geral e fiel do local dos espaços e itens sagrados.

 

Cauan Rabello com a fita métrica em mãos, medindo a frente do terreiro.
Foto: Juliana Santos, 2024.

 

Com o laudo antropológico finalizado, o material foi encaminhado ao NIT/DPH, que preparou o encaminhamento e a apresentação para o Conselho. No dia 3 de outubro de 2025, chegamos à reunião decisiva com “frio na barriga”. Ao olhar a composição do Conselho, profissionais de áreas muito distantes da Antropologia e da História, presididos por um médico veterinário, o medo era de que tivéssemos uma deliberação travada e difícil. 

Mas o que aconteceu ali nos pegou de surpresa. Não só os conselheiros entenderam de primeira o valor histórico-cultural do Templo, como também promoveram um debate que mudou os rumos da política patrimonial paulistana.

Geralmente, resoluções de tombamento exigem que qualquer mudança no lote tenha autorização prévia do órgão. A proposta inicial do DPH seguia esse padrão, mas os conselheiros demonstraram incômodo. O próprio presidente afirmou que exigir essa autorização colocaria o Conselho “no mesmo pé de igualdade que os orixás”. Para ele, se uma divindade pedisse uma mudança, o Estado não deveria ter o poder de vetar, mas apenas o dever de ser comunicado. Foi uma flexibilidade sem precedentes na política patrimonial de São Paulo: o reconhecimento de que o terreiro é um espaço vivo onde a vontade das divindades é soberana.

A deliberação terminou com uma salva de palmas e muita emoção. A felicidade da equede Yara ao descer as escadas do prédio do DPH – ao lado do antropólogo Vagner Gonçalves – dizia tudo. Estávamos diante de um marco: o primeiro tombamento de um terreiro de umbanda no Brasil!!

À esquerda, equede Yara; à direita, antropólogo Vagner Gonçalves. Ambos descendo as escadas do prédio do DPH, após a deliberação de tombamento do terreiro. Foto: Cauan Rabello, 2025.

Essa nova postura do Conpresp, de substituir a “autorização” pela “comunicação”, já está se repetindo em outros processos de tombamento de terreiros e esperamos que sirva de inspiração para as instâncias estaduais e nacionais. A notícia correu rápido e, no dia seguinte, o reconhecimento já estampava o site da Prefeitura e o Instagram do DPH. Logo depois, grandes veículos como VejaSP, AgênciaBrasil e Metrópoles repercutiram a vitória. O destaque foi o portal G1, que além da notícia escrita, também veiculou uma reportagem televisiva na Rede Globo sobre o tema.

Repercussão midiática do tombamento do Templo Espiritualista de Umbanda São Benedito. As imagens são do site da Prefeitura de São Paulo, da página do DPH no Instagram, e de notícias veiculadas por veículos como o Metrópoles, a AgênciaBrasil e o G1.

O Templo foi o primeiro tombado pelo órgão municipal de uma lista de seis terreiros que buscaram esse reconhecimento, sendo que um segundo já foi tombado e quatro estão com abertura de processo de tombamento (APT) em andamento. Isso confirma que o trabalho de pesquisa e o respeito à cultura religiosa afro-brasileira abriram um caminho importante para a salvaguarda desses territórios de memória negra e de axé.

É também o reconhecimento do papel de lideranças e suas comunidades na luta contra o apagamento histórico e contra o crescente movimento de intolerância religiosa no Brasil.

Definições:

1 – Aluno do último ano do curso de Ciências Sociais na FFLCH-USP, ex-estagiário do Exporvisões e pesquisador do Departamento de Antropologia, sob orientação de Prof. Dr. Vagner Gonçalves da Silva.
2 –  Houve um tombamento anterior do Santuário Nacional da Umbanda, espaço dedicado ao culto e frequentado por vários terreiros, sobretudo de umbanda.

3 – Sacerdote do candomblé.

4-  Sua dijina, nome dado após a iniciação no candomblé.

5 – Equedes: mulheres que não incorporam e têm função de auxiliar os trabalhos religiosos da casa. Geralmente a escolha das equedes (assim como dos ogãs) é feita pelo orixá em um ato cerimonial chamado “suspensão”. Após serem “suspensas”, elas passam pelo processo de iniciação até serem “confirmadas” no cargo, um ato conhecido como “confirmação”.

 

Para saber mais:

RABELLO, Cauan da Silva. Desafios e perspectivas da patrimonialização de terreiros em São Paulo: reflexões a partir da produção de laudos antropológicos. Relatório final—São Paulo: Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, dez. 2025.

SILVA, Vagner Gonçalves da. Terreiros tombados em São Paulo: laudos e reflexões sobre a patrimonialização de bens afro-brasileiros. São Paulo: SEC, 2021. 

SILVA, Vagner Gonçalves da. Laudo para estudo de tombamento do Templo Espiritualista de Umbanda São Benedito. 2025. 

Leave a comment