
Temas Carnavalescos: do samba enredo ao bloco
Entrevista com Romney Lima conduzida por Bianca Silva
No dia 26 de fevereiro de 2025, o historiador Romney Lima concedeu esta entrevista para discutir o Carnaval como reflexo das transformações culturais, sociais e políticas do Brasil. Graduado pela UFRJ, com mestrado em História Social da Cultura pela PUC-Rio, ele é pesquisador da relação entre Música Popular Brasileira e ensino de História, além de atuar como professor na rede particular de ensino e ser um dos responsáveis pela seção ”Na cadência da história” do nosso Exporvisões. A entrevistadora Bianca Silva é bolsista do Exporvisões e estudante de Artes Visuais pela USP.
Um dos pontos centrais de sua fala é a atualidade dos temas carnavalescos, destacando que os enredos e as fantasias incorporam referências do momento – o que é exemplificado a partir dos fantasiados de Fernanda Torres –, fazendo, também, analogia à cultura do meme. Essa capacidade do Carnaval de dialogar com a sociedade, segundo Romney, é essencial para sua força e renovação.
Outra questão enfatizada é a trajetória dos enredos das escolas de samba. As temáticas relacionadas às religiões de matriz africana sempre tiveram espaço nos desfiles, mas nos anos 90 e 2000 houve um certo afastamento dessas raízes, com a adoção de enredos mais comerciais e patrocinados. Nos últimos anos, a conexão foi retomada e reforçada, com um número crescente de escolas abordando temas afrodiaspóricos. Para Romney, esse movimento representa uma forma de resistência cultural diante do avanço da intolerância religiosa e de discursos conservadores e radicais.
Ele também ressalta a crescente inclusão de repertórios intelectuais no enredo e profissionalização do setor, que trouxeram profundidade teórica aos desfiles, reforçando o Carnaval como um espaço de aprendizado. Isso vai ao encontro de um de seus argumentos centrais: o Carnaval não é apenas espetáculo visual, mas um espaço de formação cultural e social. Para que uma escola tenha sucesso, não basta um desfile bonito – e, aqui, critica diretamente o carnavalesco Paulo Barros –; é preciso emocionar, envolver a comunidade e garantir que os integrantes saibam sambar e cantar o enredo. Ele adiciona que a prática de as escolas oferecerem fantasias aos participantes, exigindo ensaios e comprometimento, fortalece esse objetivo e a identidade coletiva.
Por fim, ele reforça que a melhor forma de combater a ignorância e intolerância é através do conhecimento. O crescimento dos enredos sobre ancestralidade africana mostra que as escolas de samba estão no caminho certo: reafirmando suas origens, obtendo papel fundamental na difusão do conhecimento e resistindo às tentativas de apagamento cultural.
Resumo por Carolina Morvillo Lima

Entrevista íntegra:
Bianca Silva:
Quando eu pensei sobre os temas de Carnaval que tinham a ver com a atualidade, duas coisas me fizeram pensar sobre o Carnaval desse ano: a primeira foi as fantasias dos blocos, que está saindo muita notícia de como as pessoas se adaptam aos assuntos, surgindo essa enxurrada de fantasias da Fernanda Torres, Oscar, inteligência artificial e memes. Pensei em como os enredos também conversam com os temas atuais e as necessidades da sociedade, você poderia falar mais sobre isso?
Romney Lima:
Na verdade, essa pergunta desmembra para muitas. Vou falar mais pelo Carnaval do Rio, mesmo não tendo tanto conhecimento do Carnaval da cidade de São Paulo eu acho que ele segue um modelo muito parecido com o do Rio com o crescimento tanto das escolas de samba e dos desfiles. Não estou desmerecendo de forma alguma as escolas de samba daqui (SP), pelo contrário, são escolas muito tradicionais, mas elas acabaram seguindo o modelo que é o modelo do Rio de Janeiro, que é o modelo da televisão, o modelo do espetáculo.
A mesma coisa acontece com os blocos de rua, eu acho que eles estão crescendo bastante. Minha referência acabou sendo os blocos do Rio de Janeiro, então quando você pensa em Carnaval você pensa em muita gente fantasiada e normalmente as fantasias representam o momento atual que a cidade está passando ou um momento que o país está passando, e você vai encontrar fantasias como você falou, da Fernanda Torres, espalhada por vários lugares do Brasil. Se você pegar os principais Carnavais no país, eu acho que Rio, Salvador, Recife, São Paulo, você começa a ter essas fantasias nacionais. Eu acho que tem muita ligação também com a velocidade da informação cada vez mais rápida. É uma característica do nosso Carnaval também essa coisa extremamente irreverente, hilária ou de cunho político que contam uma história, e aí você vai acabar caindo no desfile da escola de samba.
Se pegarmos o Carnaval em especial do Rio de Janeiro em que você tem desfile das escolas de samba e tem os blocos, são dois modelos extremamente distintos, mas que são frequentados basicamente pelo mesmo tipo de pessoas. Quem desfila na escola de samba provavelmente vai sair em vários blocos, são coisas completamente distintas mas acabam tendo uma proximidade cada vez maior. Quando você fala dos desfiles de escolas de samba que estão tocando em temas mais politizados e mais atuais, eu acho que isso é, de certa maneira, uma necessidade que está nas ruas, e o que está nas ruas você leva pra dentro das escolas. Claro que quem define o enredo, quem bate o martelo é um carnavalesco principal em uma escola de samba e ele vai definir o enredo junto com o presidente e com os diretores da escola, mas o enredo parte da cabeça do carnavalesco e aí você vai começar a pensar: quem são esses carnavalescos hoje?
A grande maioria são pessoas na faixa de 30, 40 anos, pessoas que estão vindo de uma formação. Então você passa a ter uma escola de samba aqui até 30 anos atrás, 40 anos atrás pouco dialogava com a formação superior e hoje você já tem cursos de formação superior voltadas para o Carnaval, então posso entender que o Carnaval cada vez mais vira uma indústria. Nos anos 80 já se falava do Carnaval, como a indústria passa a ter mão de obra cada vez mais qualificada, então você passa a ter carnavalescos que vão ter uma formação, seja em História, História da Arte, e que vão estar altamente antenados com as temáticas sociais que estão presentes também nos blocos.
No caso da Fernanda Torres, por exemplo, provavelmente no ano que vem você não vai ter mais esse tema, porque é uma coisa imediata e é um tipo de fantasia que só faz sentido nesse Carnaval em mais nenhum outro, já que cada ano tem a sua especificidade. Então, os blocos vão retratar muito do imediato, o que a gente fala hoje na linguagem digital do meme, que daqui a pouco já não faz mais sentido. Então pensando nessa relação eu vejo um pouco disso: o Carnaval do desfile, que é aquela coisa da competição que vale nota, mas ao mesmo tempo você também tem alegria e no final é totalmente diferente dos blocos. Mas eu penso que o povo que faz o Carnaval hoje em dia está cada vez mais olhando pra rua e essa demanda, trazendo toda a sua bagagem cultural, toda a sua formação, todo o seu estudo também para discutir sobre isso.
Então, sem tanta relação com os blocos de rua, cada vez mais as escolas de samba estão olhando para suas origens. Hoje vemos um crescimento enorme das religiões pentecostais, religiões com discursos muitas vezes radicais e muitas escolas de samba fazendo o caminho oposto, olhando para as suas origens, para as suas raízes de matriz africana e cantando enredos de religiões afro-brasileiras. Das 28 escolas que vão desfilar no Rio, nas 3 principais categorias, 18 delas estão falando sobre religião de matriz africana e isso não é de hoje. Pelo menos, talvez a uns 10 anos, sempre tivemos enredos de religiões afro ou de cultura das áfricas e isso é uma coisa que chama atenção porque também é uma forma de falar: a nossa origem é essa.
Bianca Silva:
Desde que eu me lembro de acompanhar os desfiles das escolas de samba a temática é sempre voltada para narrativas afro diaspóricas e a minha dúvida era um pouco essa. Como essa conexão se manteve tão viva nas escolas de samba nos últimos anos, sendo que na sociedade em geral o que acontece geralmente é o oposto em muitos estilos e muito gêneros musicais?
Romney Lima:
Em algum momento isso se perdeu. Acompanho o Carnaval por muitos anos, desde garoto nos anos 80. Durante uma época da minha vida eu estudei bastante os enredos e nos anos 90 eu acho que é uma década que o Carnaval mais se distanciou da sua origem. No final dos anos 90 e início dos anos 2000, as escolas começam a buscar enredos patrocinados por uma cidade, um produto, um estado e então boa parte delas vão se desconectando das suas origens e isso acaba sendo muito perigoso para as escolas de samba. Não é à toa que a gente começa a fazer o caminho contrário, porque senão eles estavam perdendo exatamente a sua essência. As escolas de samba nascem prioritariamente em função das suas raízes que estão nas comunidades, nos morros, nas favelas, nos bairros de trabalhadores. O Império Serrano, por exemplo, é formado por trabalhadores de operários de estiva. Então, quando as escolas começaram a colocar a indústria à frente das suas origens e raízes, elas começaram a perceber que elas perderam essa conexão.
Então entra a importância dos novos carnavalescos, que são as cabeças pensantes dos enredos e que começam a ver que precisam voltar para as raízes. Quando começa o século XXI, a partir de 2005-2006 até 2010 em diante, você começa a ter uma volta a essas origens, acho que 2025 é o ano com maior quantidade de sambas-enredo de temática religiosa de matriz africana em específico. Além de que, a escola de samba também é um tipo de formação de ensinamento não formal.
Um carnavalesco que eu particularmente não gosto, apesar dele ser um cara do espetáculo, é o Paulo Barros – Paulo “Cirque du Soleil” Barros. Ele faz um espetáculo visualmente lindo, mas totalmente desconectado das raízes da escola, e aí a minha crítica da coisa do homem branco que estoura na mídia porque ele faz espetáculos maravilhosos cenograficamente, só que com uma fórmula repetitiva. Não sei se ele falou isso para poder aparecer na mídia, mas ele disse uma frase muito infeliz quando diz que “são todas iguais, e ninguém entende nada” a respeito dos enredos com temáticas afro. Assim ele cometeu centenas de erros em uma pequena frase, porque ele demonstrou claramente que ele entende muito do espetáculo mas nada de escola de samba, e também deixou claro que entende muito do que ele faz, mas ele não está preocupado com nada além do visual e esquece que é só olhar para o nome de uma escola de samba, também de ensino, um local de formação. Quantas pessoas não são formadas graças as escolas, aos enredos, graças ao chão da escola.
Segundo que ele fala que elas são todas iguais, não entende que existem diferenças de porque talvez a visão de comercial de entretenimento não permite enxergar que os enredos são completamente diferentes um do outro, e se são difíceis é porque ninguém conhece então a escola de samba tem a função de ensinar. Ele perde um tempo danado porque poderia dizer que “tal tema eu não conhecia, é difícil, mas eu vou aprender”. Então, me mostrou claramente que ele é um cara de entretenimento, não é à toa que seu enredo deste ano para a Vila Isabel (que é uma de minhas escolas) é sobre assombração. Que tem personagens monstros da cultura estadunidense, que é uma questão cultural, mas não tem nada a ver com as nossas raízes, então ele preferiu ao invés de criticar a escolha dele no tema, ele preferiu criticar as escolas que estão falando só nesse tema. Foi muito infeliz um cara que infelizmente se perdeu nesse personagem que ele criou de fazer enredos sempre muito espetaculares, mas que se você for parar pra pensar, nenhum desfile dele está na história do Carnaval carioca. É bonito e você aplaude, mas no ano seguinte você não se lembra.
Bianca Silva:
Eu lembro especificamente de qualquer pessoa que tenha uma conexão um pouco maior com o desfile das escolas, e principalmente se você faz parte de uma comunidade que acompanha a escola durante o período de preparação para o Carnaval, todas as pessoas que estão ali vão aprender o samba, elas vão pegar a letra e eu lembro disso do primeiro contato que eu tive, de preparação no ensaio de toda uma comunidade que se dedica durante ano inteiro e realmente estuda e cria raízes para aprender a cantar e assim entender o tema. O que eu acho especialmente cativante, porque eu faço a graduação em Artes Visuais e a escola de samba tem esse caráter do ensino artístico performático como os carros alegóricos e as fantasias, com toda uma comunidade que se dedica isso ao longo do ano. Mas em contrapartida, além do Paulo Barros, temos o caso da Claudia Leitte, que alterou a letra de uma música para deixar de referenciar Yemanjá, demonstrando clara intolerância religiosa.
Romney Lima:
Não sei se você viu, mas saiu um vídeo de um casal, o lutador Vitor Belfort e Joana Prado, e é interessante como essa galera pentecostal gosta de se meter na vida dos outros e ninguém se mete na religião deles, mas eles se metem na religião dos outros. Eles fizeram um vídeo condenando as pessoas que brincam o Carnaval, a partir de um vídeo de cristãos que estavam brincando Carnaval e a questão toda era essa. Um outro caso também de uma passista da Salgueiro que não iria desfilar esse ano porque a temática é sobre religiosidade africana, como se a Salgueiro não fizesse isso há décadas. Uma das escolas que mais fez enredos afro. Mostra a falta de conhecimento e ignorância mesmo, são pessoas completamente ignorantes no sentido de ignorar (e olha que estamos falando de homens e mulheres brancos de classe média alta).
E aí eu acho que se torna mais necessário ainda esse enredo. Como é que você combate a ignorância? Com conhecimento! Então, as escolas ao fazerem isso, estão incomodando, e o caminho é esse. Seria muito estranho se fosse o caminho contrário, se fizessem as críticas e no ano seguinte as escolas retirassem os enredos. O crescimento desses enredos mostra que está incomodando essa galera a ponto deles falarem essa quantidade de absurdos, então esse é o caminho. Eu vejo uma extrema-direita cada vez mais forte no Brasil e que eles detestam a cultura. Como o Carnaval é uma forma de cultura, talvez a mais importante que nós temos no Brasil, nós temos que combater dessa maneira, não abaixando a cabeça.
Cada Carnaval dentro da sua característica, os de Pernambuco, Recife, Olinda, através dos desfiles dos blocos como forma de crítica e a mesma coisa no Carnaval do Rio de Janeiro e São Paulo, já que as escolas aqui em São Paulo também estão falando de temáticas muito interessantes, por exemplo agora estava ouvindo o samba da Tucuruvi, que vai falar do manto sagrado tupinambá. A Vai-Vai está falando do Teatro Oficina, do Zé Celso.
Bianca Silva:
O tema é decidido com quanto tempo de antecedência?
Romney Lima:
Isso varia de escola para escola. Normalmente você tem um carnavalesco que já tem a ideia na cabeça há muito tempo e ele vai desenvolver o enredo e aí ele começa a partir do enredo a desenvolver as fantasias. Isso eu não sei se é uma regra, mas vi alguns carnavalescos que começam a pensar nos carros, fantasias e depois você começa a fazer a escolha do samba-enredo, que é um samba de encomenda, então quando os compositores recebem a sinopse do enredo, já recebem a partir de uma ideia já pronta do Carnavalesco, que ele já tem praticamente a ideia praticamente pronta de desfile, então a canção ela tem que se encaixar (não sei necessariamente a ordem) mas ela tem que se encaixar com toda a ideia do desfile. A última coisa que vai acontecer é a escolha do samba-enredo, que ao ser escolhido, as escolas já estão a pleno vapor para terminar a construção do desfile. Essa escolha normalmente acontece de outubro a novembro.
Bianca Silva:
Eu achava que era o contrário, que o samba-enredo vinha antes e a questão visual ilustrava uma letra de música, mas não.
Romney Lima:
Isso, é encomendado, então quando um compositor recebe a sinopse, o desfile já está praticamente pronto, e quando conseguem, através da poesia, encaixar a ideia do carnavalesco com uma canção, você tem a união perfeita. O que acontece muitas vezes e que nem sempre o samba mais bonito é o samba que vai de ganhar. Ele precisa ter a ver com o desfile, por isso outro quesito de avaliação é a conexão e são inclusive outros julgadores. Às vezes o julgador ouve o samba e ele é lindo, mas vendo o desfile não consegue encontrar a beleza do samba no desfile, não vê a referência desse samba na escola, então ele é nota 10 como samba e melodia, mas não consegue encaixar tudo isso.
Essa é a importância de olhar para o chão da avenida da escola, porque eu tenho que fazer com que as pessoas que vão desfilar cantem um samba e saibam o que estão cantando. Isso vai influenciar o desfile na questão anímica e na nota. A última coisa que se faz é o samba-enredo, quando o samba-enredo é escolhido o carnavalesco já tem 70% da escola pronta. Como o Carnaval normalmente é em fevereiro e o samba escolhido em outubro, tem pouco tempo. Você é das artes e sabe o que eu estou dizendo, um carro alegórico é uma construção magnífica, uma construção complexa pra caramba. Além de fazer 150 fantasias para uma ala você tem que dar meses para os costureiros fazerem. Isso está tudo pronto, e o samba vem por último.
Bianca Silva:
Nossa, acho que dentro disso faz muito sentido então uma coisa que eu vejo no Carnaval todo ano, que são as comunidades reclamando que as passistas que são escolhidas não estão tão conectadas com o desfile e aí geralmente são celebridades, as personalidades que não fazem parte dessa comunidade então faz sentido que seja um descontentamento. Se você está dentro da preparação com uma comunidade que está ali se juntando para aprender o samba nesses últimos meses, para treinar, praticar o desfile e tudo mais e aí uma figura de destaque acaba sendo uma escolha midiática que vem de fora todo ano você vê reclamações.
Romney Lima:
Mas isso também melhorou muito. Porque é a questão de colocar uma passista que saiba sambar mesmo. Tem toda a relação com a indústria do entretenimento. A televisão transmite o desfile, então naquele momento aquela subcelebridade pode aparecer na mídia e depois conseguir contratos de trabalho. Então as escolas obviamente vendiam isso para as passistas subcelebridades que não desfilam de graça, pagam pra desfilar e aí como você tem um desfile que é cada vez mais caro é um desfile hoje de uma escola de samba do grupo especial do Rio de Janeiro por exemplo, segundo até uma fala técnica do presidente da liga, está em torno de 4 a 5 milhões cada escola. Então quando você tem um desfile que é caro, você precisa captar recurso e começou a virar uma bola de neve e aí é aquela conversa que a gente teve há pouco tempo: as escolas passaram a olhar pro seu chão onde muitas escolas têm por exemplo a rainha de bateria que são da sua comunidade. As rainhas de bateria que são as celebridades, como por exemplo a Sabrina Sato e ela é tanto da Vila Isabel quanto da Gaviões, ela cria uma identidade mas também paga a fantasia de toda a bateria. Normalmente é uma relação de troca.
Hoje são poucas as celebridades que são rainhas de bateria e são poucas as subcelebridades que são passistas, o número já foi muito maior. Agora há pouco tempo chamou atenção a imagem da Patrícia Poeta, porque a menina parecia um boneco de Olinda sambando, mas aquilo já foi muito pior nos anos 90 e início dos anos 2000. Ai eu volto a falar, as escolas passaram a voltar a olhar para o seu chão e em tudo.
O folião que vai desfilar o cara tem que cantar. Por exemplo, no Rio de Janeiro, a maior das fantasias que vão desfilar são doadas pela escola, você pode comprar uma fantasia para desfilar, mas a maioria a escola dá para a pessoa e em troca ela tem que ser da região e ela tem que ir a todos os ensaios. Se você estiver descendo no aeroporto do Rio agora no Carnaval, você pode comprar fantasias como os turistas, mas é um número infinitamente menor do que a 20, 30 anos atrás porque o Carnaval era caro e a fonte de renda era restrita então você tinha que vender a fantasia. Se você vende fantasia, você restringe o número de pessoas que vão desfilar, e assim você tem um monte de gente que não sabia o samba, não sabia sambar e que não tinha relação de identidade com a escola, então você tem um desfile militar passando na Sapucaí, e as escolas perdiam ponto e eram rebaixadas com isso.
Então fazia um desfile estrondoso mas totalmente sem emoção e então hoje, não sei se todas mas a maioria das escolas dão a fantasia em troca de ser da região ou da comunidade, participar de todos os ensaios para poder estar apta a desfilar. Aí você restringe uma pequena parte exatamente pra esse folião de última hora enquanto a alguns anos era quase o contrário: havia uma cota pra quem não podia pagar e a maioria para pagantes.
Acho que a gente vive hoje em 2025 um momento importante do olhar dessa escolha de samba para as suas raízes, que não é de agora, é um movimento de alguns anos pra cá graças a importantes carnavalescos. Esse ano tá chamando bastante atenção, no ano passado as temáticas estavam muito interessantes e acho que esse ano em especial está chamando a atenção, com muita gente criticando então é porque o negócio está funcionando. A gente está vivendo um momento bacana nesse sentido das escolas agora olharem para dentro delas, entendendo o sentido das escolas e ao mesmo tempo você começa a trazer de volta essa comunidade. Algumas escolas de samba sempre tiveram um chão muito forte, exemplo a Beija-flor é uma escola gigante, mas ela não é de uma região turística, ela é da Baixada Fluminense. A maioria absoluta que desfila com ela é gente da região de Nilópolis, é aquela aquela galera que é do chão da escola. A Imperatriz Leopoldinense é uma escola no subúrbio do Rio de Janeiro, da região central, também muito do chão e escolas como a Portela. A Mangueira por muito tempo ela flertou ali por ser a escola mais conhecida do mundo a verde e rosa, ela também virou muito turística, mas depois ela se volta para as suas raízes. As escolas perceberam isso, e acho muito bom, já que na disputa pelo título elas iam perder.
Bianca Silva:
É muito bacana saber disso, porque pela minha perspectiva de fora, vejo muito as críticas porque fazem muito barulho em redes sociais, o que da preocupação com a possibilidade de um retrocesso, mas saber que dentro das escolas temos esse momento de exaltar a própria cultura, assim é uma coisa muito boa de se ouvir.