Memórias da devastação: Brumadinho e a política da morte
por Luciana Bozzo Alves e
Aline Montenegro Magalhães

No sábado, 19 de julho, tivemos a oportunidade de conhecer o Memorial de Brumadinho, que foi concebido para recordar e honrar as 272 vidas ceifadas pelo rompimento da Barragem I, da Mina Córrego do Feijão, ocorrido em 25 de janeiro de 2019. Foi dilacerante caminhar em corredores que nos oprimem como blocos de terra à direita e à esquerda, com o nome das pessoas mortas no desastre. Não houve como conter as lágrimas ao ouvir depoimentos dos que sobreviveram e perderam seus entes queridos e seus lares. Foi duro olhar nos olhos das vítimas que desapareceram sob a lama tóxica, em fotos disponibilizadas pelos familiares na sala de memória.
Não tem como vivenciar uma experiência de dor como essa e não se revoltar contra o Projeto de Lei 2159/21, aprovado recentemente no Congresso Nacional e que aguarda sanção do presidente Lula. Recebemos essa notícia com tristeza e desesperança, nos perguntando: como pode?
Um episódio anterior a Brumadinho já anunciava a tragédia. Foi o rompimento da barragem de Fundão, em Mariana, que despejou mais de 40 milhões de metros cúbicos de rejeitos de minério no meio ambiente, contaminando a bacia do Rio Doce, nos estados de Minas Gerais e do Espírito Santo, até alcançar o mar territorial brasileiro, provocando a morte de 19 pessoas em 5 de novembro de 2015.
Os impactos resultantes desses desastres, são imensuráveis do ponto de vista ambiental, e, principalmente, humano. A comunidade de Bento Rodrigues, por exemplo, foi a mais afetada pelo mar de lama, em 2015, e, os traumas gerados são palpáveis. Das 19 pessoas que perderam a vida, cinco delas eram moradoras de Bento Rodrigues. Eu, Luciana, estive no distrito dois anos depois da tragédia, e, foi impossível conter a emoção diante dos relatos dos antigos moradores, que, apesar dos inúmeros desafios que ainda precisam enfrentar, insistiam em manter uma rotina de visitas ao território, que, naquele momento exibia as feições da destruição praticamente “congeladas” no tempo. Em 2017 já era possível observar o crescimento de vegetação sobre as grandes camadas de lama que estavam em cota emersa, visto que uma parte das moradias permanece enterrada pela lama e sob as águas do lago formado pelo rio Gualaxo do Sul no entorno da localidade. As figuras a seguir exibem imagens de satélite, com delimitação aproximada, de Bento Rodrigues antes (julho/2015) e depois do rompimento da barragem de rejeitos (abril/2016).

Fonte: Google Earth, 2015

Fonte: Google Earth, 2016
Até hoje, ninguém foi penalizado por essa catástrofe e os impactos são assombrosos. As avaliações feitas pelo poder público e outras instituições, após a tragédia em Mariana, demonstraram que, ao menos 43 municípios ao longo da bacia do rio Doce foram afetados de formas e magnitudes distintas, abarcando porções do território mineiro e capixaba.
O rompimento da Barragem I, localizada na Mina Córrego do Feijão, em Brumadinho (MG), resultou em uma das maiores tragédias socioambientais da história do Brasil. Estima-se que cerca de 12 milhões de metros cúbicos de rejeitos de minério de ferro tenham sido liberados de forma abrupta, formando uma avalanche de lama tóxica que devastou tudo em seu caminho.
No trajeto desse mar de destruição estavam não apenas estruturas administrativas e operacionais da própria Vale — responsável pela barragem —, mas também áreas residenciais e rurais, além de uma pousada que, no momento do desastre, contava com 35 pessoas nas suas instalações, entre funcionários e hóspedes. Todos surpreendidos pela violência inescapável da lama.
Mais do que números, são histórias interrompidas, famílias dilaceradas, comunidades destruídas. O impacto psicológico e social reverbera até hoje na vida dos sobreviventes, muitos que perderam familiares, amigos e pessoas próximas. É preciso lembrar — e cobrar — para que crimes como esse não sejam normalizados ou esquecidos sob o peso de outras urgências.
O Memorial de Brumadinho é mais do que um espaço de luto e lembrança, ele se inscreve como uma denúncia permanente contra a lógica de exploração e destruição que marca a relação entre Estado, grandes corporações e o território brasileiro. Ali, a memória coletiva é ancorada em um trauma que não pertence apenas às famílias das vítimas, mas a toda a sociedade que assiste à repetição sistemática de crimes ambientais travestidos de acidentes. Ao caminhar pelo espaço do Memorial, percebemos nossa fragilidade diante de situações como a que ocorreu em Brumadinho e também em Mariana.

Fonte: as autoras, 2025

Fonte: as autoras, 2025
Nesse cenário, a tramitação da chamada “PL da Devastação” (Projeto de Lei 2159/21) no Congresso Nacional soa como uma afronta direta à memória das vítimas de Brumadinho, Mariana e de tantos outros crimes ambientais ainda silenciados. Sob o pretexto de regulamentar o licenciamento ambiental, esse projeto de lei desmonta garantias históricas, reduz o poder de fiscalização dos órgãos ambientais, desconsidera o direito de consulta prévia aos povos indígenas e tradicionais, e flexibiliza a atuação de empreendimentos de alto impacto. Em outras palavras, institucionaliza o risco, oficializa o lucro acima da vida.
O contraste entre o Memorial de Brumadinho — um espaço de resistência e humanização — e o avanço da PL — expressão da necropolítica em sua forma mais crua — explicita o abismo entre memória e poder. Enquanto famílias lutam para manter viva a lembrança de seus entes queridos e exigir justiça, o Estado se curva diante de interesses minerários e do agronegócio, aprofundando um projeto de morte que privilegia a exploração desenfreada da natureza e dos corpos.
Não há como pensar o Memorial de Brumadinho isolado das decisões políticas que continuam a permitir e até a estimular tragédias anunciadas. A existência do Memorial soa como um grito contra o esquecimento e contra a naturalização da destruição ambiental. Mas sua força simbólica só se sustenta se for acompanhada de ação concreta, de políticas que valorizem a vida, o meio ambiente e os saberes territoriais. Caso contrário, tornamo-nos uma sociedade que, ao mesmo tempo em que ergue memoriais, cava novas covas.
As tragédias de Brumadinho e Mariana não foram acidentes isolados ou desvios ocasionais — elas representam, infelizmente, a consequência direta de um modelo extrativista voraz, negligente e orientado pelo lucro a qualquer custo. A chamada “PL da Devastação” surge como uma tentativa de institucionalizar essa lógica, transformando o que deveria ser exceção em regra. Diante disso, é urgente resistir: com a memória, com os corpos, com a mobilização jurídica, política e cultural. Espaços como o Memorial de Brumadinho não podem ser apenas testemunhos do passado, mas precisam se afirmar como alertas vivos, clamando por mudanças no presente.
Para saber mais
André Fabrício Silva e | Priscila Faulhaber. Bento Rodrigues e a memória que a lama não apagou: o despertar para o patrimônio na (re)construção da identidade no contexto pós-desastre. 2020. Disponível em https://www.scielo.br/j/bgoeldi/a/gDHGy3dDQz7qfFfLxgZbNSP/?format=pdf&lang=pt. Acesso em 21/07/2025.
Leonardo Vilaça Dupin, Edilson Pereira. De Minas às ruínas: o refazer da memória e da paisagem no pós-desastre de Brumadinho. 2022. Disponível em https://www.scielo.br/j/bgoeldi/a/zzyPqnfjyYvKSdnZx6C3YCK/?format=pdf&lang=pt. Acesso em 22/07/2025.
