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Quantas histórias cabem em um quadro? Imagens, agência histórica e reflexões sobre cultura material afrodiaspórica a partir do retrato “Baiana”

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por Thiago Cloves Silva Lima 

 

Desde que entrei na faculdade, sempre tive fascínio pelo universo das imagens, me instiga perceber como uma fotografia, um quadro ou um desenho pode nos contar tantas histórias. Essa curiosidade se tornou, de fato, um interesse de pesquisa quando li o epílogo escrito por Luiz Felipe de Alencastro à História da vida privada no Brasil (vol. 2). Nele, o historiador analisa uma fotografia tirada em Recife por volta de 1860. É o retrato de um menino, Augusto Gomes Leal, e a sua ama-de-leite, Mônica (1). Ao descrever as intenções, relações, violências, silêncios e os mistérios que rondam a imagem, ao fim, ele conclui: “Quase todo o Brasil cabe nessa foto”. Isso mudou o meu olhar – como um historiador em formação – para as imagens.

 

Fotografia de Augusto Gomes Leal com a Ama-de-Leite Mônica, 1860. João Ferreira Villela, cartão de visita. Coleção Francisco Rodrigues, Fundação Joaquim Nabuco, Recife, PE. Disponível em: https://www.iea.usp.br/imagens/augusto-nunes-leal-com-a-ama-de-leite-monica/view.

Posso dizer que realizar a disciplina de Cultura material afro diaspórica em museus de história (Museu Paulista da USP), ministrada pela professora Drª Aline Montenegro, também me ensinou sobre como podemos não somente olhar, mas também encarar, refletir e problematizar as imagens. Como podemos pensar sobre a nossa sociedade, a partir das imagens que produzimos? Como ir além do que está sendo representado? Como a história pode ser escrita com essas imagens? Ao longo da disciplina, foram muitos  os momentos que pudemos discutir acerca dessas questões, sobretudo um em especial: quando analisamos o quadro “Baiana”.

 

Baiana. Autoria desconhecida. Pintura, óleo sobre algodão, 96 x 77,5 cm. Acervo do Museu Paulista da Universidade de São Paulo. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:1-19394-0000-0000_Baiana.jpg

O quadro é um retrato de uma mulher negra, não identificada, datado do século XIX. Na documentação do museu, não há registros sobre onde o quadro foi produzido, por quem ou quando foi adquirido. O interessante é que ao mesmo tempo que sabemos tão pouco sobre esse quadro, ele tem tanto a nos contar. Em primeiro lugar é importante pontuar o motivo pelo qual esse quadro é tão singular. Historicamente, a mulher negra, no imaginário da sociedade brasileira, é representada, sobretudo, a partir de alguns sentidos: erotização, sexualidade, trabalho, objetificação, exotismo. Apesar de marcar grande parte da iconografia associada às mulheres negras, essas dimensões não se apresentam no retrato “Baiana”. Não conhecemos o seu nome – pelo menos, ainda – mas certamente por se tratar de um retrato, essa imagem não diz respeito a uma mulher que representa um “tipo” (como tantas outras imagens do período), mas de uma personagem individualizada, que possuía relações e determinados papéis sociais, e que possivelmente, buscou na produção de uma imagem, uma forma de afirmação de poder e status no interior de uma sociedade racializada e escravocrata. Isso é o que a historiadora da arte, Renata Bittencourt (2006), nos convida a pensar. Mas podemos ir além.
É interessante refletir em como a construção da imagem dessa mulher, muito além de elementos estéticos, pode nos revelar aspectos sobre a formação de identidades sociais, a busca por estratégias de autoafirmação ou até mesmo de como podemos pensar a agência histórica de indivíduos a partir das imagens. Numa sociedade racializada e escravocrata, como a brasileira do século XIX, ser escravizado também implicava em ser representado como tal: pés descalços, poucas vestimentas, marcas corporais, a associação com objetos de tortura e castigo ou o uso de marcadores que possam denotar a sua ocupação ou origem étnica. Todos esses elementos fazem com que a imagem comunique um sentido: não se trata de uma pessoa, mas apenas de um corpo reduzido à condição de escravizado. Consequentemente, a busca pela liberdade, nesse sentido, implicava também na procura de novas formas de (auto)representação. Mas esse é um processo complexo. É preciso pensar, sobretudo, na imagem como um produto social e de como esse objeto da cultura material produz sentidos, significados e ações.
No Brasil, a fotografia foi um meio pelo qual, homens e mulheres, africanos e afrodenscentes, livres e libertos, buscaram afirmar sua emancipação. No conjunto dessas imagens, há uma tendência geral: esses indivíduos se apresentam em modos de branco – como chama a historiadora Renata Bittencourt. Mas o que isso significa? Uma simples apropriação? Ser livre significava se vestir e se portar esteticamente como pessoas brancas? Essas são questões que me instigaram quando comecei a olhar para essas fotografias. Refletir acerca disso, nos leva a entender, por exemplo, que a resistência à escravidão ia muito além de fugas ou revoltas – e que ela podia acontecer, inclusive, pelas imagens. Pensar nas dinâmicas que levaram esses indivíduos a se apresentarem dessa forma é também entender que, no interior de uma sociedade marcada pela violência e pelo racismo, as formas de resistência podem se apresentar de maneiras muito sutis, e em muitas vezes, paradoxais.
Para uma mulher negra recém-liberta, a adoção de certos valores estéticos das elites brancas e a dissociação de marcadores étnicos, poderia facilitar a sua circulação em determinados espaços, e assim, ampliar as suas formas de inserção e mobilidade social. Mas novamente, em a “Baiana”, temos um caso particular. A construção da imagem dessa mulher converge as duas estéticas: uma branca e outra negra. Diferentemente da Antônia (3), escravizada recém-liberta, no caso da Baiana, sua (auto)imagem é construída a partir de um marcador étnico específico: as joias – os colares e os adereços de cabelo. Aqui novamente reside algo interessante: ambos são retratos, auto representações, mas são demandas diferentes que essas duas imagens vão cumprir, no fundo, reflete como diferentes mulheres negras vão se apropriar da imagem como um instrumento social.

 

Retrato de Antonia, escrava alforriada, s.d. Firmino e Lins, Carte-de-visite. Fundação Joaquim Nabuco, Recife, PE. Disponível em: https://archive.nyu.edu/handle/2451/60092

Uma se eterniza numa fotografia, e a outra, num quadro. Isso não representa apenas o uso de diferentes suportes. Uma fotografia, geralmente, é uma imagem pessoal, que circula em espaços privados, que consolida de certa forma, uma memória de âmbito familiar. O quadro também, mas o seu uso como um produto da cultura material, presume uma circulação ainda maior, implicando na construção de uma memória não apenas familiar, mas também de um grupo mais amplo. Mas no caso da Baiana, qual seria essa comunidade? Ou melhor, irmandade.
Voltemos às joias. Não é por acaso que o quadro se chama Baiana, os colares são muito similares aos usados, ainda hoje, pelas irmãs da Irmandade da Boa Morte (4) – uma confraria afro-católica feminina do Recôncavo Baiano. Na irmandade, apenas as sacerdotisas mais antigas podem usar os correntões: ou seja, Baiana, muito provavelmente, é o retrato de uma dessas líderes. É interessante pensar acerca disso: se trata de um quadro, que retrata uma mulher negra, africana ou afrodescesdente, que ocupa uma posição de destaque e prestígio dentro (e fora) de sua comunidade – tudo isso, no interior de uma sociedade marcada pela escravidão, em pleno século XIX.

 

Irmandade de Nossa Senhora da Boa Morte, Cachoeira, BA. 1995. Fotografia, 90 x 60 cm. Acervo Adenor Gondim. Salvador, BA. Disponível em: https://galatea.art/exhibitions/240?language=pt

Durante toda a disciplina, fomos instigados a nos questionar: como os museus podem impactar na construção da nossa sociedade? Pensei sobre isso, especialmente a partir desse quadro, e para mim, a Baiana tem muito a contribuir com as reflexões sobre a presença afrodiaspórica em museus. Essas são histórias que podem ser contadas para além da escravidão, da violência ou da sexualização dos corpos. Podem nos contar sobre como indivíduos agenciam suas trajetórias, às vezes, a partir de possibilidades muito limitadas – como a produção de uma imagem. Se o Brasil quase todo cabe numa fotografia, quantas histórias ainda cabem nesse quadro?

 

Sobre o autor 

Thiago Cloves Silva Lima, baiano, é estudante da graduação em História na Universidade de São Paulo. Foi estagiário de iniciação científica no Museu Paulista, e hoje trabalha acompanhando professores de História da rede pública estadual.

Para saber mais

ALENCASTRO, Luiz Felipe de (org.). História da vida privada no Brasil Império: a corte e a modernidade nacional. Companhia das Letras: São Paulo, 1997.

BITTENCOURT, Renata. Modos de negra e modos de branca: o retrato Baiana e a Imagem da Mulher Negra na Arte do Século XIX. II Encontro De História Da Arte – IFCH / UNICAMP, 2006. Acessível em: https://www.ifch.unicamp.br/eha/atas/2006/BITTENCOURT,%20Renata%20-%20IIEHA.pdf .

MAGALHÃES, Aline Montenegro, & RAINHO, Maria do Carmo T. (2020). Produção, usos e apropriações de uma imagem: o processo de iconização da fotografia da mulher de turbante, de Alberto Henschel. Revista De História Da UEG, 9(2), e922002. Acessível em: https://www.revista.ueg.br/index.php/revistahistoria/article/view/10514.

SCHWARCZ, Lilia Moritz. Imagens da branquitude: a presença da ausência. São Paulo: Cia. das Letras, 2024.

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