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A vida das coisas: São Roque dos meus avós

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por Sofia Carneiro Lima

 

Este texto parte de pensamentos durante a disciplina de Memória, História e Patrimônio no Mestrado de Arquitetura e Patrimônio da UERJ, especialmente a partir da leitura do texto “Trazendo as coisas de volta à vida: emaranhados criativos num mundo de materiais” de Tim Ingold (2012).

(Antes, abro aqui um parênteses para colocar em escrita coisas tão importantes quanto pensamentos durante uma aula, tão importantes quanto aprender. É que num exercício desse de tornar vivo algo que penso, preciso, há um tempo, escrever. Então que por hábito, impulso ou necessidade, há uns anos que escrever está interligado à minha saudade. Aproveito dessa oportunidade para tornar mais real e palpável o pensamento que me fantasmeia nesse momento ao escrever para a disciplina: de que estudar é um privilégio e que escrever me faz ir de encontro à minha mãe. Porque ela gostava e porque me ensinou a gostar. Poder dizer isso dá vida a esse encontro. Nossos encontros acontecem de diferentes formas. Disse Ingold (2012, p.33) que as coisas estão vivas, porque elas vazam. Mas fecho os parênteses então para falar sobre essa coisa de dar vida às coisas).

O texto era esse de Tim Ingold. Aqui gostaria de falar sobre coisas que me vieram à cabeça a partir dele. Enquanto lia, um objeto martelava minha cabeça. Sendo assim, vou de encontro a ele. Quero falar do São Roque dos meus avós, pais da minha mãe, que vivia no móvel da sala deles quando eu era criança e até um pouco depois (imagem 01). Objeto bonito, esculpido e realista que se colocava imponente no topo do móvel. E a partir de agora quero chamá-lo de coisa.

 

São Roque na sala. Fotografia feita, guardada e cedida pelo meu irmão, em 2018.

 

Eu gostava de olhar para ele, tinha um machucado na perna e um cachorro ao lado. Uma das mãos se apoiava no peito. Era diferente da Nossa Senhora Aparecida que ficava ao lado, porque para mim São Roque só existia na casa da vó, não era comum ouvir sobre ele fora dali. Em toda minha imaginação, nunca quis pegar para tocar ou brincar. Sempre entendi que esse não era disso, nunca me questionei. O mais perto que cheguei dele foi de longe. Foi para fazer um desenho do móvel da sala (imagem 02), porque eu gostava do jeito que ele estava, na tentativa de congelar no tempo, bem melhor que na foto, e porque eu sabia que um dia se perderia, porque um dia eu também perderia meus avós e a casa dos meus avós. Penso então que com “perto” e “longe” me refiro, na verdade, a “tempo de atenção”. Tempo de observação, tempo de imaginação. A criança faz isso bem e o devanear é natural e fácil. A estatueta se apresentava como objeto, mas já enquanto criança sabia que era coisa, porque imaginava.

Gostaria de embarcar no raciocínio de Ingold e incluir que o devir das coisas está também na imaginação, que além do fluxo da matéria, das interações e relações, há também o fluxo da memória e da imaginação. Disse o autor, e eu concordo, que diferentemente do objeto, “a coisa, por sua vez, é um ‘acontecer’, ou melhor, um lugar onde vários aconteceres se entrelaçam. Observar uma coisa não é ser trancado do lado de fora, mas ser convidado para a reunião. Nós participamos, colocou Heidegger enigmaticamente, na coisificação da coisa em um mundo que mundifica ” (ibdem, p.29).

Desenhei também por medo de esquecer. A gente faz muita coisa por medo de esquecer. E lembrar e esquecer são processos ativos. E medo é subjetivo e há uma relação de poder em escolher lembrar ou esquecer. Pois desenhei o móvel e o santo porque escolhi lembrar.

 

São Roque ao lado esquerdo, no topo do móvel da sala. Aquarela feita por mim em 2021.

 

Volto ao texto que me lembrou do São Roque dos meus avós. Volto porque é uma coisa que me faz ir de encontro e imaginar, como fazem todas as coisas: o que significa a representação de um santo no lugar mais alto da sala? Volto na parte que o autor fala da lógica redutivista de tomar a vida de coisas pela agência de objetos. O que daria vida ao São Roque segundo essa lógica? Apenas o de acender uma vela ao seu lado para rezar? Pois eu me lembro de minha mãe contar que quando era criança, volta e meia, passava por onde ele estava (e ele esteve em diferentes casas, assim como meus avós e seus oito filhos) e olhava para ele de um jeito que parecia que ele olhava de volta, e se questionava se tinha algo que ele sabia que ela não sabia. Eis aqui que a imaginação dá vida às coisas.

Eu poderia apenas falar da categoria dos objetos santos-de-casa-de-vó, que estão ali musealizados nos móveis das salas ou dos quartos das casas dos avós católicos, como na dos meus. Mas não poderia falar em objeto, porque em cada casa terá um significado diferente, e duas ou mais histórias cada um.

O São Roque do vô tem duas histórias que eu conheço.

A primeira é a oficial que todos sabem, Santo da proteção dos cães e gados e contra doenças contagiosas. A segunda é a história que faz esse São Roque ser o São Roque dos meus avós. Não sei dizer o momento exato que o Santo chegou, quem deu ou se comprou. Mas é a própria história do meu avô, que trabalhou por muito tempo cuidando de pequeno gado na fazenda que tinha, chamada Fazenda São Roque, no interior do estado do Rio de Janeiro, e que por não saber ler, só escrever seu nome, assinou um papel que entregava sua fazenda e seu gado para um esperto, ficando sem nada – apenas com a única vaca que minha avó pegou roubada na noite de irem embora, sem a ciência de meu avô, e que foi a chance deles recomeçarem depois.

Ouvi essa história pela minha avó. Eis aqui que a memória dá vida às coisas.

O São Roque era guardião das coisas deles. O São Roque coisa esteve no ponto mais alto da sala minha vida inteira, na única casa que conheci em que moraram meus avós. Sobreviveu à enchente de 2011 que levou água quase até o teto da casa. Hoje o São Roque está na casa da minha tia, igualmente imponente. Quando meus avós se foram e a casa passou a ser alugada, o santo foi para os cuidados dela. Objeto-coisa que transmite significado e história entre os tempos e as pessoas da família.

Em todo esse tempo que convivi com o São Roque, nunca o vi sendo usado em um contexto de rito religioso. Ele era porque era, e só. Se pergunto para qualquer primo meu “lembra do São Roque do vô?”, vão lembrar. Hoje, vivo em uma nova sala, e ainda em vida na memória de quem não o vê mais, no ir e vir dos encontros das saudades e da imaginação.

 

Para saber mais 

Ingold, Tim. “Trazendo as coisas de volta à vida: emaranhados criativos num mundo de materiais”. In Horizontes Antropológicos, Porto Alegre, ano 18, n. 37, p. 25-44, jan./jun. 2012

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