Entre o casarão e a margem: memórias femininas em Petrópolis
por Juliana Baur dos Santos
Entrar em um mestrado de Arquitetura e Patrimônio me permitiu somar aos estudos que eu já fazia, sobre como as dinâmicas do território urbano atravessam a vida das mulheres, a lente da memória.
Memória, esse conceito que quase nunca cabe inteiro em uma definição fechada, mas gosto de entendê-lo como uma maneira afetiva, próxima e comunitária de se relacionar com o tempo e o passado. Além, também, de sempre carregar um caráter social, político e de disputa.
E foi justamente essa disputa que ficou clara diante de mim sobre Petrópolis. De um lado, a memória imperial, tão central que é ela quem nomeia a cidade. Do outro, a memória das trabalhadoras, das operárias, das mulheres negras, das donas de casa, e de tantas outras. Muitas delas ajudaram a construir a cidade, nas fábricas têxteis, no trabalho doméstico, no cuidado cotidiano, mas raramente ganharam monumentos, placas ou narrativas capazes de perpetuar suas histórias. Entendi, então, que reconhecer uma memória como patrimônio nunca foi neutro. Nesse caso, toda escolha sobre o que deve ser lembrado também determina, inevitavelmente, o que será esquecido.

Fonte: Instituto Histórico de Petrópolis, acervo “A História de Cascatinha”, via Facebook Sou Petrópolis, 2024.

Fonte: Ruth Hannah Amberger, via Sou Petrópolis, 2022.
Olhando para essa disputa também encontrei uma boa parte da raiz dos problemas urbanos que atravessam a vida das mulheres daqui. O silenciamento das narrativas femininas é uma violência do tipo que não precisa de agressão física e já foi incorporada como natural. Uma violência que se inscreve em uma dimensão simbólica.
E quando determinadas experiências permanecem invisíveis por tanto tempo, essa violência deixa de atuar apenas no plano simbólico. Ela atravessa as formas como essas mulheres são vistas, ouvidas e reconhecidas, inclusive quando precisam acessar direitos. Dessa forma, a violência também pode se materializar.
Em Petrópolis, essa materialização pode ser evidenciada pela sua posição em primeiro lugar no ranking da Região Serrana sobre violência contra a mulher — no estudo em questão, também foram analisados dados de violência física e sexual.
Além disso, é importante ressaltar que esse silenciamento imposto às mulheres pode dialogar com uma narrativa oficial que, ao dar visibilidade a determinadas narrativas e invisibilizar outras, ajuda a reforçar um imaginário conservador que reduz a violência contra a mulher a uma mancha que deve ser omitida, dificultando, dessa maneira, o enfrentamento sério dessa problemática.
Assim, o silenciamento se torna raiz: além de se consolidar em si como uma violência simbólica, estimula a reprodução de outras violências, deslegitimando memórias, restringindo narrativas e dificultando a participação social e cidadã dessas mulheres.
Mas é também aí, no mesmo lugar onde dói, que eu aprendi — e sigo aprendendo — a enxergar uma possibilidade de saída. Porque há potência nessas margens. Nas mulheres historicamente colocadas à margem, na capacidade de produzir visão crítica justamente a partir desse lugar. É delas que emergem perspectivas importantes. Porque essas mulheres nunca ocuparam esse lugar de forma passiva. Ao contrário, sempre encontraram maneiras de se articular e reivindicar direitos, mesmo diante desse cenário adverso.

Fonte: Divulgação, via Diário de Petrópolis, 2025.
Essas memórias, então, além de ajudarem a compreender o passado, ampliam também as possibilidades de ler o presente. E dar visibilidade a elas é um jeito de enxergar a cidade por um ângulo que a narrativa oficial não oferece através de outras urgências e demandas. É por isso que essa perspectiva importa, ela abre espaço para a construção de territórios mais equitativos.
E foi assim que o conceito de memória acendeu para mim como uma possibilidade de iluminar o presente — especialmente as questões que me afligem enquanto mulher que vive nesse território, e enquanto profissional que se ocupa em compreender a vivência de tantas outras nele — através de um olhar atento às narrativas que atravessam o tempo. É um exercício, em passos de formiguinha — e aqui quero me isentar de qualquer postura de “arquiteta salvadora” — de olhar para trás para entender o agora, e tentar, talvez, construir passos futuros mais seguros.
As reflexões que compartilho aqui nasceram de inquietações minhas, que agora também deixo como convite a vocês: quais mulheres permanecem ausentes da memória da cidade onde vivemos? E o que perdemos, coletivamente, sempre que essas histórias deixam de ser contadas?

Fonte: Autoral, 2026.
Para saber mais
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