MEMÓRIAS EM BRASAS: Reflexões sobre o luto deixado pelo incêndio do Museu Nacional e interpretações da amostra “Rescaldo de Memórias”
por Bruna Britto
Em setembro de 2018 o Paço de São Cristóvão, sede do Museu Nacional na Quinta da Boa Vista, sofreu incêndio de grandes proporções. O acervo histórico, científico e patrimonial construído ao longo de duzentos anos sofria perdas irreparáveis. Para a maior parte dos moradores do Rio de Janeiro e demais grupos que tinham uma relação afetiva com o Museu Nacional, foi um golpe dolorido.
Minha relação afetiva com o Museu Nacional começou após o incêndio, em 2024, quando trabalhei numa das obras de restauração e recuperação do Paço de São Cristóvão. Experienciar esse local após a tragédia me fez criar uma relação diferente de qualquer outro patrimônio. Conforme o tempo foi passando, comecei a ter uma relação de intimidade estranha, estar naquele espaço e pensar sobre o incêndio me gerava uma certa dor. Entendi com o tempo que estava experienciando o luto pelo espaço que conheci depois de sua destruição.
O objetivo dessa escrita constitui um exercício de reflexão sobre o sentimento pessoal gerado pela tragédia de setembro de 2018. A primeiro momento, tratarei das minhas reflexões sobre a construção de afetividade com o patrimônio que conheci, em seguida, explicarei brevemente como consegui conceber melhor esse sentimento depois que passei a estudar sobre ele. Ao final, tratarei de como esse sentimento de luto foi acolhido na exposição “Rescaldo de Memórias”, exposição temporária que trata sobre o incêndio. Através disso, busco reforçar a ideia de que esses sentimentos de revolta e indignação devem ser acolhidos e servir de reflexão crítica sobre como estamos preservando nossos patrimônios.
Um sentimento em reconstrução
Quando criança, nunca cheguei a visitar o Museu Nacional. Passei muitas vezes pela Quinta da Boa Vista e pelo Bioparque do Rio, mas o Museu Nacional ficou sempre como elemento que compunha a paisagem da minha infância. Minha primeira experiência ao visitar esse espaço foi somente em 2024, quando o incêndio já tinha passado.
Trabalhar em uma das obras de reconstrução e restauração do Paço de São Cristóvão era um sentimento agridoce. Ao mesmo tempo me sentia feliz e empolgada pela reconstrução e sensibilizada pelo espaço. Caminhar pelas salas que uma vez foram destruídas pelo incêndio me traziam sentimentos difíceis de processar. Por vezes, me peguei parada numa sala, imaginando-a toda em brasa ou em alguma peça do acervo pegando fogo, mesmo tendo visto o incêndio somente por telas. Ainda estava muito nítida na minha memória a imagem do Paço em chamas, e tentava processar o que tinha acontecido ali. Nunca cheguei a questionar ou racionalizar esses sentimentos, remoía uma certa dor de perda que não tinha para onde ir.
Em 2026, comecei a estudar mais sobre esse sentimento, mesmo não sabendo que isso aconteceria. Entrei no Programa de Pós Graduação em Patrimônio e Arquitetura pela UERJ, onde tive contato com autores que trabalhavam sobre esse tema. Numa das aulas, trabalhamos com um dos capítulos do livro “Espaços de Memoração” de Aleida Assman, onde consegui processar melhor esses sentimentos. A autora trabalha a ideia da existência de locais de memória e, em certo momento, a de locais traumáticos. Enquanto fazia a leitura, fui compreendendo meu sentimento de dor e estranheza. Entendi que estava experienciando uma espécie de luto enquanto presenciava o Paço sendo reconstruído.
Esse sentimento vinha da pouca relevância que tinha dado àquele espaço durante a infância, por não ter tido a chance de vê-lo antes do incêndio e principalmente, pelo temor de isso acontecer com outros espaços afetivos para mim. Se um incêndio dessas proporções aconteceu com um dos maiores museus da América Latina, sentia que isso poderia acontecer com qualquer um.
Um memorial para aqueles que ficam
No mesmo ano, na comemoração de 208 anos do Museu Nacional, uma parte do Paço foi aberto para receber algumas exposições temporárias onde pude sentir o gosto do Museu Nacional. Porém, foi na exposição “Rescaldo das Memórias” que enfim, consegui refletir melhor sobre esse luto mal processado.
“Rescaldo das Memórias” constitui uma amostra individual de Vik Muniz, composta por fotografias e esculturas feitas a partir das cinzas e partes das peças resgatadas do palácio. A exposição acontece na “Sala das Vigas”, onde é possível observar as vigas metálicas retorcidas pelo fogo.

Fonte: Acervo autora, 2026
Muniz reconstruiu imagens de algumas peças do acervo utilizando as cinzas e em seguida, fotografou essas imagens. As fotografias trabalham com impressões de claro e escuro em tons de cinza, dando profundidade às obras. As esculturas recriam parte do acervo perdido em um tom de preto sóbrio.
A “Sala das Vigas” fica por detrás dessa experiência, mas ela contribuiu bastante com a atmosfera intensa e emotiva, trabalhando com sombras e luz de uma forma sutil, que evidencia os acervos e nos deixa às sombras das vigas retorcidas.
Fonte: Acervo autora, 202

Fonte: Acervo autora, 2026
Na minha interpretação, o trabalho de tons cinzentos traz a ideia de uma antiga lembrança sobre o acervo, algo que está no subconsciente e os efeitos do “esfumaçados” das cinzas reforçam essa ideia de algo passível a rememoração e esquecimento. Já o preto trabalhado nas esculturas, não nega a presença do fogo, trabalha a ideia de “presença” do acervo, numa realidade em que essas peças sobreviveram a tragédia intactas em forma, mas enegrecidas pelo fogo.

Fonte: Acervo autora, 2026
O memorial criado por Vik Muniz não se propõe a esquecer do que aconteceu, mas de recordar a presença do incêndio, fazendo refletir sobre perda e reconstrução. Trabalha as emoções que ficam depois da tragédia.

Fonte: Acervo autora, 2026
A memória do incêndio ainda segue presente tanto para mim quanto para os demais grupos que são atravessados pelo Museu Nacional. A imagem dos acervos em brasa ainda me atravessa, mas é reconfortante saber que outras pessoas também são envolvidas por essa emoção.
A exposição do Vik Muniz é temporária, os impactos deixados pelo incêndio seguem presentes. Torna-se necessário lembrar do incêndio, sobretudo, acolher nosso sentimento de pesar diante dele. A memória coletiva construída nesse dia, reforçada pelas milhares de vezes que o Museu apareceu em chamas nas telas, devem nos lembrar sobre o que está em jogo diante do sucateamento dos nossos museus e patrimônios.
Acho importante reforçar que mesmo depois da tragédia de 2018, diversos patrimônios no Centro do Rio de Janeiro seguem em processos de arruinamento, esperando ou por um incêndio como ocorrido no imóvel vizinho ao Real Gabinete Português ou no desabamento do casarão na Rua do Senado, ambos em 2025. O dano causado pelo incêndio do Museu não pretende ser reparável, a destruição desses patrimônios deve ser recordada a partir das memórias deixadas pelo assombro dessa noite de setembro.
Para saber mais
Assman, Aleida. “Espaços de recordação: formas e transformações da memória cultural”. In UNICAMP, Campinas, ano 2011, p. 317-361. 2006
Cinzas do incêndio no Museu Nacional viram obras de Vik Muniz, que são exibidas em sala onde fogo começou. O Globo, 2026. Disponível em: https://oglobo.globo.com/rioshow/exposicoes/guia/museu-nacional-abre-exposicao-de-vik-muniz-com-obras-feitas-das-cinzas-do-incendio-que-destruiu-espaco.ghtml. Acesso em: 06 de agosto de 2026
Incêndio do Museu Nacional começou no ar-condicionado, aponta laudo. Veja, 2026. Disponível em: https://veja.abril.com.br/brasil/laudo-erros-na-instalacao-eletrica-causaram-incendio-no-museu-nacional/. Acesso em: 06 de agosto de 2026
MUSEU NACIONAL/UFRJ. Museu Nacional, 2026. Exposições temporárias do Museu Nacional/UFRJ. Disponível em: https://www.museunacional.ufrj.br/destaques/paco-de-sao-cristovao.html. Acesso em: 06 de agosto de 2026
Sobre a autora:
Bruna Britto é arquiteta e urbanista, formada pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Tem experiência com patrimônio desde 2022, ainda na graduação, produzindo conteúdos voltados à educação patrimonial. Trabalha com obras de restauração e reabilitação de edifícios desde 2023 e é mestranda em Arquitetura e Patrimônio na UERJ. Sua pesquisa atual é voltada a preservação do patrimônio e da memória operária petropolitana.
