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Ouro Preto. Acervo do autor

Ouro Preto: duas visitas, dois olhares

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por Lucas D’Alessandro

Por horror ao sofrimento,
Ao valor se renuncia
Romanceiro da Inconfidência, Cecília Meireles.

 

Vista de Ouro Preto. Acervo do autor

Ufa, que bom que passou, disse o senhorzinho de cabelos grisalhos.
Eu tinha apenas dez anos naquela época. Estava com meus pais de férias em Ouro Preto, cidade incontornável da História brasileira. Fazia calor, o tempo era seco. O suor escorria pela minha testa ao escapar do capacete apertado. Meu pai curioso, minha mãe cansada, minha irmã entediada. Mais uma aula chata de história, pensaria ela. Ali, parados na frente da entrada da Mina, ouvíamos um jovem de olhos profundos, jeito calmo e despreocupado, falar sobre as condições terríveis de trabalho impostas às centenas de pessoas que foram escravizadas pelos portugueses no auge do ciclo do ouro. O texto, muito bem decorado, evocava o chicote, o sangue, as mortes e, por fim, a merecida glória. Os sinos das igrejas, as festas dos colonos, o formato violento das senzalas. As imagens se seguiam em cadeia, tecendo uma história que mais parecia caminhar em direção ao passado do que ao presente. Enquanto algumas histórias caminham para frente, encontrando seu desfecho num tempo quase presente, aquelas palavras se escondiam cada vez mais no passado, aglutinando-se num único ponto, completamente distante do agora, enterrado nas dobras da memória daqueles que morreram junto com as histórias. Que bom que passou, repetiu o senhor de cabelos grisalhos. Com essa fala emocionada, concluímos nosso passeio na mina, levando de lá o alívio por vivermos num mundo incapaz de cometer as atrocidades da escravidão.


Nessa minha primeira visita a Ouro Preto, fui com o olhar de quem buscava relaxar com a família, se afastar do caos de São Paulo. Caso aprendesse alguma coisa com os museus e passeios, isso seria mera obra do acaso. Longe da escola, não estava em busca de aprendizagem. Cruzei por aquelas ladeiras de pedra, pelas fachadas barrocas, pelas igrejas e museus, encantado com a verossimilhança entre a cidade e as fotos que desde sempre via nos livros de história. Ruas estreitas, ladeiras intermináveis, passos desconfortáveis. Igreja atrás de igreja. O brilho do ouro ofuscava a história daqueles que o arrancavam das duras e frias paredes das minas mortais. A paisagem colonial contava uma história de ouro e glória. Visitei museus, andei por ruas que foram moldadas no século XVIII, entrei em casarões e tirei fotos em sacadas refinadas. Comprei souvenirs, comi pão de queijo, li meu gibi no banco da praça. Derrubei uma estátua de pedra sabão de São Francisco que minha mãe havia comprado para minha vó. Ela se enfureceu, o clima do passeio pesou, a viagem foi amaldiçoada então pelo pecado de se quebrar uma estátua de santo, não pelo santo em si, mas pelos quarenta e cinco reais que meu pai havia gastado naquele presente.
Também fiz a visita à antiga senzala ou ao espaço de “memória da escravidão”, como estava escrito na parede do lado de fora, ao lado da entrada (não me lembro se era realmente uma senzala original ou instalação memorial, mas naquela ocasião ela me soou como mais um dos tantos momentos turísticos, uma parada marcada, dramática, mas distante da realidade viva do povo negro que sofreu escravidão). O guia falava de senzala, de época difícil, com um tom de passado encerrado — quase como se o sofrimento estivesse bem resolvido, encerrado naquela sala de exposição. Ufa, que bom que passou, eu pensei, citando o senhorzinho de cabelos grisalhos. Naquele momento, admito, meu olhar era parcial: eu apreciava a arquitetura, o casario, o passeio, a comida — o cenário turístico, ansiando pelo próximo pão de queijo. A escravidão era um tema que se encaixava no roteiro, mas não me parecia algo que afetasse o presente. Era como contemplar uma história tombada, domada. É claro que tinha consciência dos problemas que enfrentamos na nossa sociedade. Mas o que eles teriam a ver, afinal, com aqueles pontos turísticos?
Exatos vinte anos depois voltei a Ouro Preto. Entre as duas viagens se passaram cinco anos do ensino fundamental dois, três anos de ensino médio, um ano irritado de cursinho, três anos da primeira graduação, que me garantiu inúmeros trabalhos autônomos, dois anos de uma pós-graduação, três anos trabalhando de maneira autônoma, cinco anos de uma segunda graduação para que eu não precisasse mais trabalhar de maneira autônoma, alguns meses de mestrado, quase um ano de trabalho CLT. Um relacionamento longo, mas frustrado, um noivado curto, mas duradouro. A morte da minha mãe, o nascimento do meu sobrinho. Duas mudanças de casa. Viajei para Minas Gerais naquele verão levando na mala a memória que tinha da cidade. Quando cheguei, porém, ela havia mudado. Ouro Preto era outra coisa.
Os casarões, em pé há quase trezentos anos, continuavam lá. As pedras que forram o chão, as ladeiras intermináveis, as igrejas incontornáveis. Tudo no mesmo lugar que eu deixara há vinte anos. Mas eu havia mudado. E assim, a cidade mudou comigo.

Acervo do autor

Já amadurecido, outros olhares instalados — outros livros lidos, outra sensibilidade — e encontrei a cidade mudada, ou melhor: encontrei que minha percepção mudou. Agora percebi que havia, naquele mesmo espaço, quem resistisse à narrativa oficial, quem ocupasse museus, fundações, espaços de memória para contar a história a partir de outro ponto de vista – o do povo negro. Vi educadores negros, fundações dedicadas à cultura negra, visitas guiadas que falavam não apenas da senzala como tema de horror encerrado, mas como ponto de partida para entender desigualdades e resistências. Vi que as senzalas e espaços de memória deixaram de ser roteiro turístico trivial para se tornarem pontos de encontro de debates, oficinas, rodas de conversa. Vi senzalas transformadas em museus da memória do sofrimento do povo negro, vi minas se transformarem em estudo sobre os saberes geológicos do povo escravizado, vi igrejas com o nome não mais de colonos, mas dos arquitetos negros que as projetaram.
Nesse segundo momento, vivi um deslocamento importante: o que antes era uma história de escravidão contida agora era como história de escravidão que ainda se manifesta na contemporaneidade. O protagonismo mudou. Onde antes o guia falava a partir de uma narrativa branca, colonial, turística, agora há negros contando, ocupando, estabelecendo nova postura de memória. A memória negra circula, resiste, e a cidade acolhe essa presença. E eu, naquele papel de turista-observador, passei a ser turista-testemunha.
A reflexão de Chimamanda Ngozi Adichie sobre o perigo de uma história única me veio forte nessa segunda visita: quando só se conta uma narrativa — a do patrimônio, da mina, da colonização, do casario barroco — oculta-se a multiplicidade de histórias, inclusive da escravidão e da resistência. Ela afirma que nossas vidas e culturas são compostas de muitas histórias sobrepostas e que ouvir apenas uma história leva a uma compreensão crítica distorcida. No meu primeiro momento em Ouro Preto, vivi precisamente isso: a história única da cidade-patrimônio, dourada, onde a história negra era pano de fundo, ferramenta para a glória branca colonial
Percebi a emergência de outras histórias — de luta, de diáspora, de resistência. Aqui entra também o pensamento de Lélia Gonzalez quando discute a amefricanidade e a necessidade de resgatar identidades negras e afro-latino-americanas, questionando o mito da democracia racial. A cidade de Ouro Preto, ao acolher essas narrativas, torna-se palco de muitas histórias, e não apenas da narrativa dominante.
Como pensadora da literatura negra, Conceição Evaristo nos alerta que a escrita da mulher negra e dos sujeitos negros deve ocupar as margens que foram silenciadas. Eu senti, em meu segundo momento, essa ocupação de margens — as margens da senzala, das memórias, das vozes negras que se levantam. Djamila Ribeiro complementa, ao propor o “lugar de fala” como ponto essencial para que a história seja contada por quem a vive — o que vi acontecer nas novas narrativas da cidade.
Aqui, nesta colina, vocês estão sobre os ossos de africanos escravizados, dizia o guia. O tom era outro: o espaço não era passado, era carne viva. Ele falou sobre como o racismo, a desigualdade e as marcas da escravidão persistem — nas montanhas, nas casas, nos nomes. Aqui não é um cenário de uma história antiga, continuou ele. É a história da escravidão que permeia o pensamento da nossa sociedade até hoje. O saber também mudou de lugar. Antes, o corpo negro era aquele usado como motor de trabalho braçal. O que não é mentira. Mas o corpo negro é aquele que sabe de minérios, de escavação, técnicas de extração do ouro. Isso nunca nos ensinaram na escola. Os saberes da mineração também vieram dos povos sequestrados. Os saberes da arquitetura das igrejas, da construção das ruas de pedra, da conservação de obras de arte. Os saberes dos colonos agora se reduziam aos saberes do dinheiro e da violência. Da lógica de mercado, onde uma vida vira fonte inesgotável de renda. Os saberes da glória e da morte.
Não há como negar a mudança que alguns anos fizeram na cidade. Uma Vila Rica que antes se gabava de sua história agora se preocupa em persegui-la, como um predador em busca da presa. Não mudam, naturalmente, as infinitas lojas, souvenirs e a vontade que aquela cidade volte a ter a glória do passado, romantizando cada tragédia. Há ainda muitos poetas na cidade, como Tomás Antônio Gonzaga, que correm atrás da beleza impossível de Marília. Mal vi seu rosto perfeito, dei logo um suspiro, e ele conheceu haver-me feito estrago no coração, diz o poeta. Ainda vejo turistas perseguindo os suspiros de Ouro Preto, cidade que luta eternamente por entender sua própria história. Houve uma enorme movimentação de museus, instituições de ensino e de centros culturais para que as histórias soterradas nas minas tocassem a superfície. Me animo em pensar na minha próxima viagem
a Ouro Preto, quem sabe daqui a 20 anos, quando eu, um senhorzinho de cabelos grisalhos, olharei para a cidade de múltiplas narrativas, lembrarei da minha primeira viagem, quando Ouro Preto contava apenas uma única história, e pensarei comigo: ufa, que bom que passou.

Acervo do autor

Para saber mais 

ADICHIE, Chimamanda Ngozi. O perigo de uma história única. São Paulo, Cia das Letras, 2009.
BENTO, Cida. O pacto da branquitude. São Paulo: Cia das Letras, 2022. CERTEAU, Michel de. A escrita da História. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1982. EVARISTO, Conceição. Becos da memória. Rio de Janeiro: Pallas, 2020. GONZAGA, Tomás Antônio. Marília de Dirceu. São Paulo: Martin Claret, 2022.
GONZALEZ, Lélia. Por um feminismo afrolatinoamericano. In: Tempo Brasileiro, n. 92/93, 1988.
MEIRELES, Cecília. Romanceiro da Inconfidência. São Paulo: Global, 2023. NASCIMENTO, Abdias. O quilombismo. Petrópolis: Vozes, 1980.
RIBEIRO, Djamila. O que é lugar de fala?. Belo Horizonte: Letramento, 2017.

 

Comentário

  1. Visitei e revisitei Ouro Preto e todo a história junto com o autor. Fiquei com vontade de ler mais, de mergulhar em um livro inteiro sobre o tema. Um texto com um tema muito importante, tratado de uma forma sensível e respeitosa. Maravilhoso!

    1. Agradecemos pelo comentário! Esse olhar de reflexão através de um corte temporal entre uma visita e outra foi desenvolvido de forma maravilhosa pelo autor. Realmente merecedor de um livro!