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FOI UMA CASA QUE ME TROUXE ATÉ AQUI

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por Carolina Borges

 

Há perguntas que surgem de um livro, de uma aula ou de um documento. A minha começou diante de uma casa. Quando entrei no curso de Arquitetura e Urbanismo da UERJ, em Petrópolis, imaginava que passaria os anos seguintes estudando igrejas, casarões e outros patrimônios que fizeram a fama da Cidade Imperial. Entretanto, não imaginava que seria uma residência de aparência comum, conhecida como “Casa da Morte”, que mudaria completamente meu percurso acadêmico e a maneira como passei a olhar para a cidade.

Assim que me mudei para Petrópolis me encontrei encantada, sempre tive o interesse por história, arquitetura e restauro e, para quem havia crescido na zona oeste do Rio de Janeiro, caminhar entre museus, palacetes e ruas carregadas de referências ao período imperial parecia quase um privilégio.

Foi no início na faculdade que essa percepção passou a mudar, durante uma pesquisa de extensão chamada “Olhos de ver”, coordenada pela Profa. Carina Martins, fui apresentada a existência de uma outra história da cidade; essa não era tão conhecida pelos turistas e nem bem-quista pelos moradores. Até então, a Ditadura Militar ocupava, para mim, um espaço semelhante ao que costuma ocupar para muitos estudantes: um conteúdo aprendido na escola, distante no tempo e pouco relacionado às cidades que eu conhecia.

No primeiro momento, minha reação foi tentar entender como eu nunca tinha ouvido falar daquilo. Por mais que eu fosse recém-chegada à cidade, essa não parecia uma justificativa suficiente para desconhecer uma história de tamanha importância. Talvez naquele momento o que mais me inquietava não era apenas o apagamento em torno da Casa da Morte, mas o fato dela coexistir com a imagem da glamourosa Cidade Imperial. Como era possível que a mesma cidade também abrigasse a memória de um dos centros clandestinos de prisão e tortura mais relevantes da Ditadura Militar?

 

Casa da Morte
Fonte: Renazo Zanata, reproduzida pelo site Memórias da Ditadura.

 

Aquela casa de aparência comum foi um centro clandestino de prisão e tortura localizado no bairro do Caxamubu em Petrópolis, a poucos minutos do Centro Histórico. Ali, opositores do regime eram mantidos em sigilo, submetidos a interrogatórios e violências que permaneceram ocultos por anos. Grande parte das informações que conhecemos hoje são resultado de décadas de luta de familiares de vítimas, de pesquisadores, de movimentos sociais e da única sobrevivente, além do trabalho desenvolvido pela Comissão Estadual da Verdade do Rio de Janeiro e pela Comissão Municipal da Verdade do Petrópolis, que reuniram documentos que ajudaram a reconstruir a história da repressão e a identificar os lugares onde ela aconteceu.

Entre tantas histórias marcadas por esse lugar, foi a de Inês Etienne Romeu que mais me atravessou: a única sobrevivente reconhecida da Casa da Morte, foi graças ao seu depoimento que a existência daquele centro clandestino pôde ser denunciada e reconstruída.

Inês foi presa em 1971 e levada para a Casa da Morte, onde permaneceu por 96 dias, submetida a todo tipo de tortura e violência. Ao sair da casa, algo que só conseguiu porque fingiu trocar de lado, ou seja fingir colaborar com a repressão e fornecer informações sobre outros militantes, foi presa novamente por oito anos, agora, de forma legal e legítima, visto que antes, ela não era uma presa política, e sim uma pessoa desaparecida. Após seu tempo em reclusão, com as informações que obteve em seu tempo no centro clandestino, conseguiu identificar o aparelho (como eram chamados, na época, os locais clandestinos utilizados pelos órgãos de repressão) em Petrópolis, e reunir informações das pessoas que passaram por lá. Assim, seu depoimento foi fundamental para revelar a existência da Casa da Morte, descrevendo o funcionamento do local, identificando seus responsáveis e rompendo um silêncio que por muito tempo encobriu aqueles acontecimentos.

Conhecer a trajetória de Inês Etienne Romeu foi, para mim, perceber que uma cidade pode abrigar narrativas profundamente distintas e que elas nem sempre ocupam o mesmo espaço na memória coletiva. A Petrópolis que eu havia aprendido a admirar por seus palácios, jardins e pelo Museu Imperial continuava existindo; mas agora ela dividia lugar com outra cidade: a dos silêncios, das disputas de memória e das histórias que raramente aparecem nos roteiros turísticos.

 

Inês Etienne Romeu na terceira auditoria do Exército [adaptada]
Fonte: Arquivo Público do Estado de São Paulo, reproduzida pela BBC News Brasil, adaptada pela autora.

Desde então, caminhar pelas cidades deixou de ser apenas um exercício de observar edifícios e paisagens, passei a prestar atenção também nas ausências, nas histórias que não aparecem nas placas, nos monumentos ou nos folhetos turísticos. Talvez seja por isso que, anos depois, minha pesquisa tenha continuado voltada para lugares ligados à Ditadura Militar. Não apenas porque eles contam uma história sobre o passado, mas porque me ajudam a compreender como as cidades constroem suas identidades, escolhem aquilo que celebram e, muitas vezes, deixam outras narrativas à margem.

Aos poucos, percebi que esse exercício deixava de pertencer apenas a Petrópolis e passei a levá-lo comigo para outros contextos, perguntando quais memórias estavam sendo celebradas e quais permaneciam esquecidas. Não era um exercício de procurar apenas infortúnios, mas de compreender que toda cidade é construída por múltiplas camadas de memória. Anos mais tarde, já na pós-graduação, encontrei nas leituras de Laurajane Smith uma forma de nomear uma inquietação que havia surgido muito antes, diante da Casa da Morte. Ao discutir o chamado “Discurso Autorizado do Patrimônio”, a autora chama atenção para a tendência de determinadas narrativas serem legitimadas como representativas da história de uma sociedade, enquanto outras permanecem pouco visíveis ou são simplesmente esquecidas.

Minha pesquisa sobre a Ditadura Militar se deve ao fato de que histórias como a da Casa da Morte e de Inês Etienne Romeu me lembram que o esquecimento nunca é neutro; logo, estudá-las é uma forma de resistir ao apagamento, de reconhecer a coragem daquelas que romperam o silêncio e de reafirmar que cidades também têm o dever de lembrar. É primordial fazer com que essas memórias continuem sendo contadas para que a violência de ontem não seja naturalizada, nem volte a encontrar espaço amanhã.

Infelizmente a história da Inês não teve o desfecho que se deseja, após de ter sobrevivido e testemunhado contra seus torturadores, em 2003 foi novamente vítima do que foi considerado na época um “acidente doméstico” que a deixou com traumatismo craniano e sequelas permanentes. Ainda assim, seu falecimento veio anos depois, em 2015, sem que soubesse que um dos seus algozes da Casa da Morte, Antonio Waneir Pinheiro Lima, conhecido pelo codinome de Camarão, seria condenado em 2026, por seu sequestro e pela violência cometida a ela há quase 50 anos atrás.

Para saber mais

ARQUIVO DO ESTADO DE SÃO PAULO. Inês Etienne Romeu na Terceira Auditoria do Exército,  24 ago. 1972. In: BERNARDO, André. A história da ‘Casa da Morte’ contada por única sobrevivente. BBC News Brasil, 9 jan. 2021. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/brasil-55492932. Acesso em: 1 ago. 2026.

SMITH, Laurajane. Desafiando o Discurso Autorizado de Patrimônio *. Caderno Virtual de Turismo, [S. l.], v. 21, n. 2, p. 140–154, 2021. Disponível em: https://www.ivt.coppe.ufrj.br/caderno/article/view/1957. Acesso em: 20 jul. 2026.

ZANATA, Renazo. Casa da Morte de Petrópolis. 18 jun. 2017. Fotografia. Memórias da Ditadura. Disponível em: https://memoriasdaditadura.org.br/fotografia/casa-da-morte-de-petropolis/. Acesso em: 1 ago. 2026.

Sobre a autora

Carolina Borges é mestranda no Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Patrimônio (PPGAP) da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e arquiteta e urbanista pela mesma universidade. Sua pesquisa concentra-se nas relações entre patrimônio, memória, paisagem urbana e os processos de patrimonialização das memórias da Ditadura Militar.

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