A cidade que ficou pequena em mim: cartografia de uma cidade vivida
por Marcos Vinícius Antonio dos Santos
Começo esse texto saudando todas as crianças que ainda vivem, escondidas em nossos corpos velhos e cansados. E ainda indago, caro e gentil leitor: como você percebe o seu espaço? Como experiência a cidade?
Isso sempre foi, de alguma forma, o que mais me chamou atenção. Quando ainda criança, um pouco menos inexperiente do que eu sou hoje, observar as pessoas sempre foi algo que me fascinava. Não me atentava necessariamente ao sujeito em si, mas a sua ação. Na minha cabeça infantilizada, era inconcebível que as inúmeras pessoas que eu via caminhar pela rua tivessem suas próprias rotinas e histórias. Acreditava que apenas eu, Piluco, tinha esse poder de observar aquilo que estava bem a vista de todos: o ordinário, o cotidiano. Desde que essa premissa caiu por terra, fui percebendo que cada pessoa que eu encontrava tinha sua própria ‘’lente’’ por onde enxergava o mundo e nossa cidade.
Se passasse tempo suficiente em um espaço, conseguia identificar padrões e, de certa forma, prever o que aconteceria. Sabia exatamente que horas a vizinha passaria na padaria para levar o pão do café da manhã aos seus filhos, o momento em que o ônibus parava em frente a minha casa e, a depender do clima ou hora do dia, podia prever quem iria desembarcar. Essas e muitas outras peculiaridades fizeram de mim uma criança fofoqueira, agora adulto a estudar a faculdade de arquitetura e urbanismo e entender como nós seres humanos (símios que dão demasiada importância a nós mesmos) experienciamos e relacionamos com o espaço, sejam eles cotidianos, sagrados, afetivos ou desagradáveis/traumáticos.
Minha percepção da cidade não se desenvolveu simplesmente de uma percepção infantilizada, mas a visão que hoje ouso dizer que possuo, essa foi, o acúmulo de camadas, de experiências e expectativas de uma memória vivida, como defende Pierre Nora, historiador francês. Aos dez anos de idade, já podia ler a cidade em uma escala mais detalhada, sabia quais ruas e lugares eram para brincar e encontrar entes queridos ou lugares mais sobrios que eram apenas para resolver problemas de adultos, complicados e burocráticos. Nessa época, se alguém me perguntasse como se chega a Catedral São Pedro de Alcântara, eu responderia de forma mais simplória que conhecia, apontaria logo na paisagem meu ponto de afeto, o “Méqui da 13”, meu segundo McDonald´s favorito na cidade, perdendo apenas para o da Rua do Imperador, pelo simples fato de haver um segundo andar, porque como é de bom senso comunitário, sabemos caro leitor, nada mais sofisticado do que ter um segundo andar em um restaurante de Fast Food.
Nesse restaurante, havia comemorado vários aniversários pessoais e de amigos, com a companhia do próprio palhaço e sua gangue de criaturas humanoides, que não eram tão bonitinhas quanto suas ilustrações nas paredes. Hoje, quando penso no “Méqui da 13”, ele continua sendo um marcador da paisagem dessa região da cidade. Só que agora ele carrega outras características além da reforma pastiche e a memória dos meus aniversários. O lugar que antes era uma referência para encontrar a minha turma também passou a ser uma referência espacial, uma espécie de marco na minha leitura daquela parte da cidade. E talvez seja justamente aí que percebo que não deixei para trás a criança que experimentava a cidade: apenas passei a enxergá-la através de outras camadas.
Ainda ao caminhar pela charmosa Avenida Koeler, e seus exuberantes casarões, lembro das inúmeras aventuras de desbravamento de um dos meus lugares favoritos da cidade: a Praça da Liberdade. Lembro de um senhorzinho que vendia uns ratinhos por ali. Minha mãe nunca me deixou ter um, e hoje eu não a culpo, uma criança e um rato não é a combinação mais tradicional. Na época, entretanto, aquilo fazia parte da aventura. Era uma tarde perfeita: brincar na praça, passear no hoje extinto passeio dos bodinhos e, em algum momento, comer as batatas do Marowil. São lembranças que, isoladamente, podem parecer pequenas ou até banais, mas que acabaram construindo a minha relação com aquele lugar e hoje percebo que nesse exercício de memória o quanto a cidade pode e deve moldar seus indivíduos.

Talvez seja justamente por causa dessas memórias do passado que hoje acho difícil vivenciar Petrópolis sob uma perspectiva única. Quando me graduei arquiteto, não significou abandonar a criança que sabia de cor os horários dos ônibus, lembrava-se do caminho para a catedral ou outros inúmeros caminhos que uma criança percorre em um território que a forma, ou recordava exatamente onde comprar batatas fritas depois de brincar na praça.
Agora, quando caminho pela cidade, ainda reconheço os locais de forma quase que assíncrona por meio das memórias ali acumuladas, mas também percebo uma infinidade de novos detalhes. Percebo a escala das ruas, a interação entre as fachadas dos edifícios e as calçadas, os pontos onde as pessoas fazem uma pausa e os trajetos que preferem seguir observando quais espaços parecem convidar à permanência e quais parecem incitar os pedestres a passar apressados. Percebo sons antes mesmo de identificar suas fontes, reconheço cenas específicas pelos seus aromas e observo como a luz e a sombra transformam a paisagem urbana ao longo do tempo. Às vezes, fico tentando compreender por que determinado local desperta uma emoção que não consigo traduzir imediatamente em palavras.
Curioso pensar que a minha formação não apagou aquelas experiências primordiais da primeira infância. Mas sim ajudou a dar forma e profundidade a sensações que eu já percebia, mas não conseguia articular. Um lugar uma vez vivido e experienciado agora me surge como um patrimônio, uma relação entre imobilidade e transformação, perspectivas que, de fato, coexistem. É por meio da sobreposição desses múltiplos pontos de vista que passei a reexaminar a cidade que habito. Ela já não é apenas um conjunto de edifícios, ruas e praças facilmente identificáveis em um mapa, mas uma série de lugares estão impregnados de diversos significados ao longo da minha trajetória de vida: alguns permanecem onde sempre estiveram, outros passaram por transformações físicas e alguns mudaram apenas na minha própria percepção subjetiva.
O mapa que acompanha este texto nasce da minha tentativa de entrelaçar essas diversas camadas. Os locais nele representados representam mais do que meras coordenadas em um território urbano; são marcas de experiências variadas que integram: memórias de infância, observações, encontros pessoais e vínculos emocionais, bem como as percepções e compreensões que adquiri desde que me tornei arquiteto. O que busco retratar não é apenas onde meus passos me levaram, mas também como esses lugares me moldaram e, por sua vez, o que neles percebi.

Sobre o AUTOR
Graduado em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro e
mestrando no (PPGAP/UERJ). Possui trajetória acadêmica voltada à interface entre
patrimônio, memória urbana, urbanização e conforto ambiental.
Para saber mais
NORA, Pierre. Entre memória e história: a problemática dos lugares. Projeto História, São
Paulo, n. 10, p. 7-28, dez. 1993.,
DUARTE, Cristiane Rose; PINHEIRO, Ethel. Imagine uma tarde chuvosa…: pesquisas sobre
ambiência, alteridade e afeto. In: ENCONTRO DA ASSOCIAÇÃO NACIONAL DE PESQUISA
E PÓS-GRADUAÇÃO EM ARQUITETURA E URBANISMO, 3., 2013, Salvador. Anais […].
Salvador: ANPARQ, 2013.
