“Os olhos de ver” sobre os jogos de memória que atravessam a cidade de Petrópolis
por Joyce de Souza Rodrigues da Silva
Acho curioso como podemos ficar tanto tempo sem conhecer muitas coisas, realidades, sociabilidades ou lugares que nos cercam durante o cotidiano, quem dirá, outras formas de produzir cultura, cidades ou países. Aí que entra, ao menos na minha realidade, a forma como uma pesquisa científica reafirma seu valor e função social, ao menos na minha realidade, para variadas contribuições para a ciência brasileira e na emancipação do outro. A pesquisa, antes de tudo, é feita de um pouquinho de cada um de nós.
Atualmente, sou mestranda no PPGAP/UERJ, motivada pelo meu projeto de pesquisa, que dialoga com museus e seus objetos de mediação cultural. Mas, antes de chegar aqui ou na própria universidade, percebi que nunca tinha visitado os museus que fazem parte do meu grupo de pesquisa – Museu Histórico Nacional, Museu Imperial e Museu Paulista. Os museus em si nunca fizeram parte do meu cotidiano e minha relação com o Museu Imperial vem da reflexão da falta e de que é uma das primeiras instituições, senão a primeira instituição museal, que visitamos quando crianças através de passeios escolares. Não foi muito diferente da minha infância, teve o famoso passeio na minha escola, porém me recordo que fui a única a não ir, por não ter condições no momento.
Percebo que apenas pude conhecer de fato os museus além de ter transformado meu olhar completamente sobre eles, por meio da pesquisa científica. Aos meus 26 anos de vida, sequer conhecia a cidade de Petrópolis, que agora faz parte do meu lugar de passagem, e tinha a leitura canonizada de uma “Cidade Imperial”. A primeira vez que estive na cidade me marcou conhecer o desconhecido aos meus olhos, mais familiar às leituras. O pouco que pude conhecer – entre a Avenida Ipiranga, Rua da Imperatriz, Rua do Imperador e a 16 de março – me fez compreender como a construção de uma cidade pode legitimar a construção de projetos políticos de memória que valorizam olhar para um passado que, no presente, não dialoga com a pluralidade que habita a mesma.
No meu primeiro retorno à cidade, como mestranda, tivemos uma Jornada Inaugural, no dia 17 de março de 2026, que me marcou ao longo do dia. Após o primeiro momento, entre os discentes e docentes, caminhamos pelas ruas sob a visita guiada do projeto “Olhos de Ver na Cidade”, apresentado por estudantes da graduação de Arquitetura e Urbanismo, Clara Rocha e Ludmila Calderucci. Foi interessante perceber como uma mesma rua, no caso, o ponto de partida foi a Avenida Ipiranga, pode abrigar variados estilos arquitetônicos ao mesmo tempo, passando pelo neoclássico, eclético, modernista e o contemporâneo. No mesmo dia, a conferência inaugural “Museu da Maré: direito, desejo e devir da memória” ministrada pelo Prof. Dr. Mário Chagas, foi fundamental, constituindo um contraponto com a própria “Cidade Imperial” em que estávamos localizados, a partir da perspectiva do nascimento do Museu da Maré, com um processo de luta e emancipação democrática de um território que coloca para fora a construção da sua memória. Toda a sua constituição rompe com o que compreendemos como os museus tradicionais funcionam, preservam e expõem, colocando como centro a agência dos moradores e outras formas de se relacionar com os objetos, o espaço museal e as construções de sentido.
O que dialoga com o que Mário Chagas nos leva a refletir, que lugares de memória como os museus, o patrimônio e a própria memória em si, ao mesmo passo que legitimam, lembram e difundem, ao mesmo tempo se constituem como lugares de esquecimento e silenciamento. Não são neutros, são permeados por disputas, conflitos e negociações.
Após o fim do dia, segui reflexiva e caminhando com os “olhos de ver” a cidade, até chegar na Praça D. Pedro II e algo me chamou atenção: Havia uma coroa de flores aos pés da estátua de Dom Pedro II – inaugurada em 1911 – que de longe não fazia tanto sentido, mas ao me aproximar, havia também uma faixa escrito “Imperador Dom Pedro II pelo aniversário de 183 anos da Cidade”. Tudo fez sentido, inclusive, continuar olhando a cidade como um lugar de disputa permanente. No dia anterior, foi a comemoração da assinatura do Decreto Imperial nº 155, o qual o Imperador Dom Pedro II funda oficialmente a Povoação-Palácio de Petrópolis, em 16 de março de 1843.

Olhar para esta coroa de flores diante da estátua me faz relacionar com alguns pontos trabalhados pelo autor Ulpiano Meneses Bezerra (1992) ao apontar que a memória é um trabalho permanente de construção e reconstrução. Esse gesto simboliza que ainda existem agentes que operam em prol de um projeto específico de uma sociedade que não existe mais. E o que nos leva novamente ao encontro do autor, ao superarmos o entendimento, de forma idealizada, de que a memória está ancorada no passado e, portanto, precisa de um resgate. Na verdade, conforme o autor provoca, a memória ocorre sempre no presente para responder ao próprio presente.


E quanto mais eu caminhava, mais vestígios eu encontrava. Ao entrar na Rua 16 de Março, havia uma placa parabenizando Petrópolis, com a imagem de D. Pedro II e o Museu Imperial. E mais à frente, um “Jogo de Memórias” no formato de uma casa, para que o público pudesse interagir com as imagens atreladas ao período imperial. São elementos que não são novos, mas que, de certa forma, causam um estranhamento sobre os usos do passado e processos de produção do passado no presente. O próprio ato de comemorar já incorpora a exaltação de algo que não existe mais, mas que precisa ser acionado para dialogar com uma determinada reivindicação de memória na cidade. O autor Marcelo Abreu apresenta que as comemorações dependem de um repertório e assim acionam o que já foi consagrado. Assim, existe uma segurança ao evocar uma nostalgia do passado, porque o canonizado é sinônimo de sucesso.
“Planejar uma comemoração tem algo de ficcional. Não apenas porque muitas vezes o evento celebrado é reencenado sem fissuras, criando imagens edulcadoras da história cujo sucesso reside na elisão da violência e no silenciamento e na invisibilidade dos subalternos. Mas também porque se trata de uma montagem que aproxima o ato de comemorar dramaturgia […] Como performances, as comemorações dependem de um repertório e acionam roteiros já consagrados.[…] (ABREU, 2021, p..261)
O consagrado tem seu lugar legitimado, porque precisou silenciar outros sujeitos e próprios “passados” para que uma única narrativa pudesse ser digna de comemoração. Os autores Lucas Ventura e Natalia da Paz (2024), ao pensarem outras formas de enxergar a cidade de Petrópolis, dialogam com Paul Ricoeur a partir das três tipologias para os abusos da memória e do esquecimento, sendo elas a memória impedida, memória manipulada e a memória obrigada. Só que entre elas, a que mais dialoga com a cidade é a memória manipulada. Essa memória relaciona-se com a narrativa, que segue critérios de seleção, direcionando o que vai ser lembrado e o que vai ser esquecido. No entanto, ainda existe algo mais fundo que a memória manipulada como construção social perpetua no tecido da cidade e dos imaginários coletivos, evocando tanto uma narrativa para que não possa existir espaços para outras. Mas não tem como apagar o que tem marca, a própria ausência é um discurso a ser investigado.
Chego ao fim, refletindo ainda sobre o jogo de memórias da Rua 16 de Março. A mesma cidade que comemora a partir de um jogo que privilegia a memória imperial, é a cidade que tem múltiplas interações de outras memórias que a atravessam. Se reparar bem, no jogo tem uma peça faltando e o que falta é o que envolve, tece e constrói a cidade. Mas, qual memória eu poderia encaixar na parte que ironicamente falta? A memória das mulheres, dos operários, dos negros, dos indígenas, dos imigrantes, dos sindicalitas, dos perseguidos políticos na ditadura militar? A falta e a ausência, também podem apresentar caminhos de outras memórias que construíram e constroem a cidade.
Para saber mais
ABREU, Marcelo Santos de. Comemorações, imaginação histórica e a linguagem nacional. In: Lugares e Práticas Historiográficas: escritas, museus, imagens e comemorações. / Ana Paula Sampaio Caldeira, Douglas Atila Marcelino (orgs) – Curitiba: CRV, 2021.
MENESES, Ulpiano Toledo Bezerra de. A História cativa da Memória? Para um mapeamento da memória no campo das Ciências Sociais. Revista do Instituto de Estudos Brasileiros. São Paulo, 1992, v. 34, p. 9-24.
Petrópolis, entre o conhecido e o (des) conhecido: história, estudos reunidos e novas abordagens / organização: Lucas Ventura da Silva e Natalia da Paz Lage – Petrópolis: Instituto Municipal de Cultura, 2024.
