17º Encontro da Folia de Reis do Cruzeirinho em Belford Roxo (RJ)
por Fernanda de Sales Fernandes
“Hoje é o dia do Santo Reis
Anda meio esquecido
Mas é o dia da festa do Santo Reis
Hoje é o dia do Santo Reis
Anda meio esquecido
Mas é o dia da festa do Santo Reis
Eles chegam tocando sanfona e violão
Os pandeiros de fita carregam sempre na mão […]”
— Tim Maia, em “A Festa do Santo Reis”
Este texto nasce a partir do incentivo da professora Carina Martins na disciplina “Memória, história e patrimônio” no Programa de Pós-graduação em Arquitetura e Patrimônio (PPGAP), vinculado à UERJ. Sob a perspectiva de Néstor García Canclini, o patrimônio cultural não é um acervo de objetos estáticos, mas um processo social vivo e um espaço de disputa simbólica atravessado pela ação do Estado, dos movimentos sociais e do poder privado.
Neste cenário, penso em compartilhar o meu relato com o objetivo de contrapor o estigma vinculado à minha cidade, Belford Roxo, que por muitos anos tem sua imagem reduzida à extrema violência, pobreza e abandono estatal por uma cobertura midiática e sensacionalista. Enquanto o Estado ainda falha em incluir a Baixada Fluminense em seus mapas oficiais de salvaguarda, coletivos locais como os Amigos do Cruzeirinho operam o patrimônio como uma ferramenta de resistência e de exercício da cidadania cultural. Por isso apresento outra realidade da cidade, fora dos discursos oficiais e que compõe o cenário cultural: A Folia de Reis do Cruzeirinho, em Belford Roxo.

Fonte: Machado (2026).
Quanto à origem da Folia de Reis, França e Soares (2011) compartilham que é de origem europeia e acontece em diferentes localidades na América Latina, entre os meses de dezembro e janeiro. No Brasil, fontes históricas apontam sua origem portuguesa trazida no período colonial, de caráter rural, mas se adaptou aos centros urbanos e periferias. Na Região Metropolitana do Rio de janeiro, o ciclo da epifania, que tradicionalmente vai de 24 de dezembro a 6 de janeiro, costuma se estender até o dia 20 de janeiro, dia de São Sebastião, padroeiro da capital (Souza, 2020).
Pertencente à cultura popular brasileira, a festividade possui configuração artística e ritualística, e se destina homenagear os três reis magos: Baltazar, Belchior e Gaspar. Possui uma configuração artística regida pelo “fundamento”: um conjunto de saberes, rezas e regras de conduta transmitidos oralmente que orientam a relação entre foliões, devotos e o sagrado. Há uma distribuição das tarefas e atribuições de cada componente de forma hierárquica e geralmente hereditária, são elas: o Mestre, o Contramestre, o alferes, os foliões e o palhaço (Souza, 2020).
Fazia um tempo que eu pretendia prestigiar a Folia de Reis na minha cidade. Cresci no bairro de Vila Madalena, próximo ao centro de Belford Roxo. Não havia escutado sobre o evento, nem quando criança! Ele acontece em bairro distante do meu, mas como não ouvi falar na escola? Como não vi cartazes incentivando a participação da população? Questionamentos sobre uma cidade periférica que se estendem à outros âmbitos de fomento à cultura relacionados à cidade, que não caberão aqui.
Eis que há alguns anos uma amiga fotógrafa, Gabriela Machado, também moradora de Belford Roxo e que residia próximo ao bairro onde acontecem os encontros dos grupos da Folia de Reis me convidou para prestigiar. Quando comentei com meu pai, Almir, nem precisei perguntar se ele conhecia, no mesmo momento lembrou que prestigiava desde a infância e não acreditou que a festividade ainda acontecia.
Finalmente pude prestigiar no dia 11 de janeiro de 2026, acompanhada dos amigos fotógrafos, Gabriela Machado e Bruno Ferrari, fomos juntos prestigiar o Reisado. Neste ano, ocorreu o 17º Encontro da Folia de Reis do Cruzeirinho, no bairro Nova Aurora, em Belford Roxo, com início às nove horas da manhã, organizado pela Instituição Cultural Amigos do Cruzeirinho. Como era verão, o dia estava quente e infelizmente a cidade não possui arborização suficiente, o que torna a temperatura mais elevada e deixa o local sem áreas de sombra, para proteger do sol. Apesar desta questão, chegamos à concentração na Praça do Cruzeirinho. Havia uma grande lona onde ocorreriam as apresentações. Abaixo dela, uma mesa com a imagem do menino Jesus.
Seria uma sequência de grupos de Folia de Reis à se apresentar, de diferentes regiões do Estado. Cada grupo fazia a sua concentração em algum cantinho da rua, próximo à praça, para a procissão até a lona, sempre anunciados com um rojão de fogos.

Fonte: Ferrari (2026).
Nos grupos, os instrumentistas, o mestre, o alferes, cantadores etc, todos de “uniforme”. Na caminhada de cada agrupamento, os instrumentistas anunciavam sua chegada e ao lado, atrás e à frente, seus palhaços encantavam com acrobacias e cambalhotas de frente para trás, além de outros truques. Cada palhaço de uma cor, ou melhor, muitas cores e máscaras diversas. Especificamente um deles me marcou, com uma máscara com duas faces. Quando chegavam à lona, iniciavam a apresentação do grupo à imagem de Jesus, de forma cantada tradicional. Em seguida, dava-se sequência e espaço aos palhaços, para seguirem e apresentarem seus malabares.
Me chamou atenção às apresentações, a livre circulação das crianças em meio aos grupos, interagindo com os instrumentos e outros membros dos grupos. Assisti muitos grupos e ainda faltavam tantos outros, que se encaminhariam ainda há outros pontos de encontro no bairro, e a programação perduraria por todo o dia.
Esse é um breve relato de festividade da minha cidade, Belford Roxo, que serve para marcar que a cultura e a memória fazem parte desse território e que não se resume ao estigma da violência e abandono. A Folia de Reis do Cruzeirinho mostra que a tradição não está guardada no passado, mas pulsa vida e a alimenta, se renova no presente. Através da caminhada sagrada e da rua como espaço de encontro, a comunidade garante que sua história continue sendo contada em voz alta.
Por tudo isso, Belford Roxo e toda a Baixada Fluminense merecem e exigem outros olhares.

Fonte: Ferrari (2026).

Fonte: Machado (2026).

Fonte: Machado (2026).

Fonte: Machado (2026).
Para saber mais
BITTER, Daniel. A bandeira e a máscara: estudo sobre a circulação de objetos rituais nas folias de reis. Orientador: José Reginaldo Santos Gonçalves. 2008. 191 f. Tese (Doutorado em Ciências Humanas – Antropologia Cultural) – Instituto de Filosofia e Ciências Sociais, Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2008.
CANCLINI, Néstor García. O patrimônio cultural e a construção imaginária do nacional. Tradução de Mauricio Santana Dias. Revista do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, Brasília, DF, n. 23, p. 94-115, 1994.
FERRARI, Bruno. [Folia de Reis do Cruzeirinho em Belford Roxo]. 2026. Fotografias. Acervo pessoal.
FRANÇA, Cristina Pierre de; SOARES, Daisy Santos. Arte e patrimônio na Baixada Fluminense. In: ENCONTRO NACIONAL DE FORMAÇÃO DOCENTE EM ARTES, 1. ; ENCONTRO REGIONAL SOBRE FORMAÇÃO DE PROFESSORES PARA O ENSINO DA ARTE, 2., 2011, Rio de Janeiro. Anais […]. Rio de Janeiro: FE-UFRJ, 2012. p. 50-61. Disponível em: https://d1wqtxts1xzle7.cloudfront.net/52457509/Pontes_de_Barro_p._529_ANAIS_Desfronteiramentos_2011-libre.pdf. Acesso em: 10 ago. 2026.
MACHADO, Gabriela. [Folia de Reis do Cruzeirinho em Belford Roxo]. 2026. Fotografias. Acervo pessoal.
MAIA, Tim. Folia de Reis. Compositor e intérprete: Tim Maia. In: MAIA, Tim. Tim Maia. São Paulo: Continental, 1976. 1 disco de vinil, Lado B, faixa 3.
NASCIMENTO, Luciano. Dia de Reis marca tradição centenária da cultura popular brasileira. Brasil de Fato, 6 jan. 2026. Disponível em: https://www.brasildefato.com.br/2026/01/06/dia-de-reis-marca-tradicao-centenaria-da-cultura-popular-brasileira/. Acesso em: 10 ago. 2026.
SOUZA, Luiz Gustavo Mendel. Devoção e resistência: as táticas dos anfitriões da Folia de Reis na região metropolitana do Estado do Rio de Janeiro. Revista de Antropologia, São Paulo, v. 63, n. 3, e178857, 2020. DOI: https://doi.org/10.11606/1678-9857.ra.2020.178857. Disponível em: https://revistas.usp.br/ra/pt_BR/article/view/178857. Acesso em: 10 ago. 2026.
Sobre a autora
Fernanda de Sales Fernandes é arquiteta e urbanista pela UFRRJ. Atualmente é mestranda no Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Patrimônio (PPGAP/UERJ), direcionando sua pesquisa para o estudo das exposições em museus, em seus aspectos históricos, curatoriais e patrimoniais.
