Clubes, museus e futebol: um potencial educativo
por Monalysa Sarmento
Em um primeiro post, escrevi sobre o Museu Flamengo, onde atuava. Neste momento, vou partilhar um trabalho de visitação que realizei em outros museus de futebol, em resposta ao grande interesse que despertou entre os leitores!
A maioria dos Clubes de esportes, em específico de futebol, costumam ter em alguma área de suas sedes, o local de exibição de suas conquistas, que pode ser uma vitrine, até um museu. E, no último caso, tem se observado um interesse por parte desses clubes em investir na construção de verdadeiros memoriais. Essas escolhas são realizadas pela curadoria, pela gestão da instituição e pelo trabalho de mediação. Para me ajudar a analisar esse tipo de museu, me debrucei sobre a pesquisa de Maria Cristina de A. Mitidieri e Luisa Maria G. M. Rocha que analisaram 15 museus privados de clubes esportivos e 12 museus públicos municipais de esporte. Segundo as pesquisadoras, a maior parte deles exalta vitórias e celebrações, bem como os ídolos do esporte.
Essa afirmação se torna uma evidência na minha pesquisa após eu mesma ter visitado 6 museus de clubes pelo Brasil, tendo como foco observar como tem sido feita essa mediação do acervo com o público. Estamos tratando de uma tipologia muito peculiar de museus, um campo acadêmico que ainda ganha forma e força.
Desde a exposição das taças em vitrines, existe um interesse do Clube em fixar na história as memórias de suas conquistas. E existe um grande público que absorve e compartilha dessas memórias, que são os torcedores desses times. Muitos assistiram essas conquistas retratadas nesses museus, e materializam essa memória vendo de perto esses troféus, bolas, chuteiras. Ou seja, um Museu esportivo atrai uma audiência popular pelo fator passional que ele carrega e, ainda assim, não deixa de ser um espaço que enriquece debates e construção de saberes.
Para analisar a forma com que os clubes realizam suas narrativas históricas através de seus museus, realizei visitas entre 2019 e 2023, em alguns dos principais do Brasil, como o Museu do Bahia, o Museu do Sport Club Internacional – Ruy Tedesco, o Museu Hermínio Bittencourt do Grêmio, o Memorial do Corinthians, o Memorial de Conquistas do Santos, a Sala de troféus do Palmeiras e o Museu do Futebol. Este último deixarei para um próximo texto.
Nessa pesquisa, pude observar que existem dois tipos de mediação de exposição nesses museus, e que não necessariamente precisam possuir um setor educativo para realizar ações educativas dentro de um Museu, inclusive com ações fora do espaço físico do Museu, utilizando-se do espaço interno e social do Clube. Há a visita mediada com presença de um guia, mediador ou educador, a nomenclatura vai depender do tipo de contrato e serviço prestado. E, há a visita que é livre, sem mediação, tendo a presença apenas de segurança ou dos orientadores de espaços, que ficam parados em pontos estratégicos do museu apenas para conservar o patrimônio e tirar dúvidas relacionadas ou não sobre a exposição.
Vamos conhecê-los?
O Museu do Bahia foi inaugurado na Arena Fonte Nova em Salvador em 2022, com curadoria de Daniel Rangel. Sua exposição é composta pelo acervo do próprio clube, doações e empréstimos de torcedores. O custo de construção do museu foi distribuído pela captação de receita através da Lei Rouanet, além do financiamento coletivo. O museu não possui um setor educativo e a visitação é organizada pela equipe de comunicação e marketing do próprio Clube, que disponibiliza um agendamento de visita guiada no momento da compra online do ingresso. O museu traz a exposição de taças de títulos importantes para o time, indumentárias antigas e recortes de jornais que contam a história do clube, reforçando a participação social e política por parte da torcida no contexto interno da instituição e do cenário político de Salvador.
O Museu do Sport Club Internacional – Ruy Tedesco, visitado em 2019, fica localizado no Estádio Beira-Rio em Porto Alegre e foi inaugurado em 2010, com 1.200 metros quadrados e teve a curadoria de diversos nomes. Tem em seu acervo diversas taças, documentos oficiais do Clube, indumentárias, fotografias, entre outras coisas. Ele funciona todos os dias e possuía um setor educativo que é responsável por três tipos de visitas; à livre dentro do museu sem mediação; a visita Colorada que tem horários fixos e passa pelo Museu, sala de imprensa, vestiário, túnel de acesso, beira do gramado e arquibancadas e a visita express que é mediada no Museu e na beira do gramado. O Museu do Inter, segundo eles mesmos, foi o primeiro a ter uma equipe educativa em museu de clube no Brasil. Eles recebiam diversos grupos escolares e realizavam atividades lúdicas e dinâmicas, com materiais de apoio que enriqueciam as visitas.

O Museu Hermínio Bittencourt do Grêmio, aberto para visitação em 2015, fica na Arena do Grêmio em Porto Alegre. Possui 785 metros com salas que reúnem taças, uma linha do tempo, camisas, bastante telas interativas e uma sala de vídeo imersiva com tela em 360º de momentos históricos do Clube. Em 2019, quando visitei o museu, eles não possuíam um setor educativo e a equipe que cuidava do museu era bem enxuta com a presença de apenas 1 pesquisador e 1 museóloga. A parte de operação e conservação do acervo era terceirizada a empresas e serviços contratados. Sua visitação funcionava de segunda a domingo e não possuía nenhuma visita mediada.

Em uma visita a São Paulo em 2022, pude conhecer o Memorial do Corinthians, a Sala de troféus do Palmeiras e o Memorial das Conquistas do Santos.
A Sala de troféus do Palmeiras, localizada no Allianz Parque, ainda não tinha sido aberta ao público quando fui visitar, não possuía um setor educativo, e ainda faltavam algumas finalizações na exposição. Porém, a sala de 2.200 metros chamou a atenção, pelo tamanho e pela distribuição do acervo. Diferente de todos os outros museus de clubes, a Sala de troféus do Palmeiras era a mais ampla e com poucas paredes, um espaço aberto com uma indicação no chão de qual caminho seguir, deixando o visitante livre na exposição.
A vidraçaria com paisagem para a parte interna do Clube tem uma plotagem que conversa com o Patrimônio que fica do lado de fora das delimitações da sala de troféus. Sua visitação comum acontece de terça a domingo, e a visitação com monitor de quinta a domingo com horários pré-definidos. É possível visitar o Estádio também, porém essa visita é com outra empresa, que é responsável pela gestão do Allianz Parque.

O Memorial do Corinthians fica localizado no Clube Parque São Jorge, foi inaugurado em 2006, com aproximadamente 1.500 metros², e atualmente conta com visitas livres ao memorial e visitas monitoradas por um guia que passa pelo memorial e pelo Clube. Atualmente, o Memorial conta com um Departamento Cultural, porém na época da visita, que foi pós pandemia (2022), havia poucos funcionários cuidando do Memorial, entre eles, pesquisadores e jornalistas, sem um setor educativo. O espaço também possui a exibição das principais conquistas e diversos acervos, mas a principal diferença do Memorial do Corinthians para qualquer outro centro de memória de clube visitado, é definitivamente a forte presença da narrativa da torcida e suas lutas democráticas como a Diretas Já, entre outros movimentos históricos da política nacional.

O Memorial das Conquistas do Santos foi inaugurado em 2003 no Estádio Urbano Caldeira, na Vila Belmiro. Com 380 metros possui uma linha do tempo, taças, indumentárias, entre outros itens, e além da visitação livre ao memorial, eles possuem um Tour da Vila que é uma visitação que inclui uma volta ao vestiário, gramado e centro de imprensa com um monitor realizando a mediação. Sua equipe, como a de todos os centros de memórias visitados em 2022, estavam mais enxutas, permanecendo apenas os pesquisadores, historiadores e equipe de operação do memorial, sem um setor educativo. A visita ao memorial do Santos tem um apelo emocional muito grande, pelo fato da camisa do clube ter sido vestida pelos maiores nomes do futebol nacional, como a Marta, Neymar, Pelé, este último até hoje possui um armário trancado no vestiário no qual os itens que ele deixou propositalmente seriam revelados após a sua morte, e essa mística é uma das principais experiências da visita do Tour da vila.

Os museus de clubes utilizam suas exposições como interação do esporte profissional e ações de marketing, tendo em comum o tipo de coleção e o discurso. As ações educativas se mostram essenciais para trazer uma diversidade de narrativa à exposição, quanto mais estruturada e organizada essa ação for, mais efetivo é o impacto que ela gera nos visitantes e mais singular ela se torna ao identificar as diferentes percepções e contribuições que esses visitantes trazem à exposição.
Todos esses museus de clubes possuem característica de curadoria em comum, como a escolha da narrativa através de uma linha do tempo, a exposição de taças de importantes conquistas, os símbolos identitários do clube e a narrativa heroica de atletas considerados ídolos. Essa reunião de memórias através de indumentárias, flâmulas, faixas, recortes de jornais, documentos como atas de fundação e contratos, são utilizadas como ferramentas narrativas na construção dos museus. Alguns contam com um sistema de tecnologia que promovem experiências imersivas e outros apenas com a contemplação.
Quando o Museu está inserido em um estádio, com certeza a experiência fica mais enriquecida, atraindo um número maior de turistas, e trazendo mais elementos sobre a história e a participação social daquele local, consequentemente, aumentando o número de visitantes, e geralmente tendo um valor de ingresso mais elevado. É o caso do Inter, Grêmio, Santos, Bahia e Palmeiras que ainda recebem jogos do time profissional de futebol masculino nos estádios onde ficam localizados seus espaços de memória. Já o memorial do Corinthians e o Museu Flamengo não recebem jogos do profissional masculino de futebol nos estádios que ficam os espaços de memória.
Os museus/memoriais/salas de troféus de clubes que possuem registro no Ibram (Instituto Brasileiro de Museus) são o Museu do Inter, o Museu do Grêmio, o Memorial do Corinthians e o Memorial do Santos. Não localizei o registro do Museu do Bahia nem da Sala de troféus do Palmeiras. De todos os citados, apenas o Grêmio não possui nenhum tipo de visita mediada, e apenas o Internacional possuía oficialmente um setor educativo. Nenhum dos centros de memória de clubes visitados em São Paulo se autodenominam como Museu. Essa formalização de registro junto ao Ibram possibilita entender quais museus estão comprometidos com as diretrizes da Política Nacional de Museus (2003), e consequentemente com um possível trabalho educativo. A falta de registro por parte do Museu do Bahia e da Sala de troféus do Palmeiras talvez se explique pela recente inauguração deles.
Mesmo a maioria não possuindo oficialmente um setor educativo, tirando o Grêmio, todos realizam ações educativas, com visitas mediadas e atividades pontuais em datas comemorativas. O futebol é o personagem principal desses museus, e é o que atrai torcedores e curiosos a entrar nestes espaços, podendo ver de perto a materialização das conquistas de determinado clube.
