Elemento Ancestral: A fuga como herança de resistência
por Artemiza Silva Mendes
Pedagoga e graduanda do 7° Semestre de História da Universidade de São Paulo – USP.
Este texto nasce de reflexões desenvolvidas em sala de aula, no curso Cultura Material Afrodiaspórica em Museus de História, ministrado pela professora Aline Montenegro Magalhães, no Museu Paulista (USP).

Começamos a aula com a exposição do texto de Janaína Damasceno, “O corpo do outro” que ficou aberto diante de nós enquanto a discussão se espalhava pela sala: as “imagens de controle”, o corpo feminino negro capturado por olhares que o animalizam, sexualizam, medem e exibem. Falávamos de como essas estruturas atravessam séculos, chegamos a Sarah Baartman. Ali, a conversa se adensou. Não era uma fala só, mas o acúmulo das nossas vozes, tentando entender como alguém pôde ser tão profundamente negada em sua humanidade, desde a exibição pública até o que fizeram com seu corpo depois da morte.
Em algum momento, penso no cansaço que atravessa vidas negras marcadas por tanta violência. Alguém comentou sobre alcoolismo, sobre tentativas de fuga que surgem quando não há mais para onde correr. A palavra ficou reverberando: Fuga. Não como conceito acadêmico, mas como sensação corporal. Senti que ela mexeu em algo em mim, porque logo veio outra lembrança, Beatriz Nascimento em Ôrí, a voz calma, firme, ancestral: “Talvez a fuga seja uma consequência cultural, uma consequência ancestral”, a fuga se impõe aqui como caminho de encontro à liberdade.
No choque entre essas duas fugas, a de Sarah e a que nos explica Beatriz, alguma coisa se abriu. A aula não colocava essas figuras lado a lado, mas elas se juntaram dentro de mim. E eu percebi que não queria opô-las. A fuga de Sarah, tão marcada pela dor, não deixa de ser uma forma de agência dentro das condições violentas que a cercaram. Quando penso no alcoolismo que atravessou seus últimos anos, vejo a possível fresta mínima de alívio, a tentativa de afastar, por instantes, o olhar que a classificava, media, aprisionava, violentava, a fuga que resta quando quase nada resta.

Já a fuga para Beatriz é gesto amplo, escolha consciente, quilombo em movimento. É recusa ativa diante da história colonial, é invenção de território, é reinscrição da própria existência. Mas ao invés de enxergar conflito entre as duas, reconheci uma continuidade. Ambas são respostas à violência. Ambas surgem diante do cerco que Damasceno descreve. Uma fuga preserva o corpo o quanto consegue; a outra preserva o futuro. São modos distintos de insistir na vida quando o mundo trabalha para nos reduzir, nos silenciar.
Enquanto a discussão avançava, comecei a pensar nos museus de que falamos ao longo do curso, objetos africanos sem nome, sem território, classificados de forma genérica, como se pertencessem a um passado distante e morto. Pensei em como essa mesma lógica atravessou o corpo de Sarah, tornado objeto científico, na violência de ser exposta mesmo depois da morte. E percebi o quanto o que Damasceno chama de construção racial do corpo negro depende justamente disso, da incapacidade de deixá-lo se mover, se deslocar, desaparecer, escolher seu próprio rumo.
Talvez por isso a fuga seja tão ameaçadora.
Não porque desaparece com o corpo, mas porque o retira do controle.
Porque escapa.
Saí da aula com a palavra “fuga” ainda vibrando. Não como oposição entre destruição e liberdade, mas como um campo inteiro de possibilidades, limites, resistências. Pensava em como simbolicamente herdamos tanto a fuga estreita de Sarah quanto a fuga expansiva de Beatriz. A fuga como respiro mínimo e a fuga como projeto de mundo.

Enquanto caminhava para casa, pensei até onde é possível fugir dentro de uma estrutura que tenta nos capturar o tempo todo? Às vezes a fuga dói. Às vezes salva. Às vezes é só o que resta. Às vezes é tudo o que nos permite sonhar. E talvez escrever seja também uma forma de fuga, não para desaparecer, mas para abrir caminho. Nos lembra Conceição Evaristo que “escrever é uma maneira de sangrar, muito e muito”. Penso em como esse sangramento também é fuga, não para longe, mas para fora do cerco. Um modo de fazer jorrar aquilo que o mundo tentou conter, talvez seja isso que une Sarah, Beatriz e nós, essa decisão antiga, silenciosa, coletiva, ancestral de continuar sangrando em palavras para não morrer do silêncio. Escrever, então, vira mais que gesto, vira passagem, insistência, ferida aberta que se recusa a cicatrizar enquanto a violência existir. Porque, como diz Conceição Evaristo, “a gente combinamos de não morrer”, e fugir, sangrar, escrever…são modos diferentes de cumprir esse acordo.
Para saber mais
DAMASCENO, Janaína. O corpo do outro. Construções raciais e imagens de controle do corpo feminino negro: o caso da Vênus Hotentote. Fazendo Gênero 8 – Corpo, Violência e Poder. Florianópolis, 2008.
EVARISTO, Conceição. A gente combinamos de não morrer. In.: Olhos d’Água. Rio
de Janeiro: Pallas, 2015.
EVARISTO, Conceição. Da grafia-desenho de minha mãe, um dos lugares de nascimento de minha escrita. Representações performáticas brasileiras: teorias, práticas e suas interfaces. Belo Horizonte: Mazza Edições, 2007.
ÔRÍ. Documentário Raquel Gerber (dir), 1989.
