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Resisto! A chama dos educadores do Memorial da Resistência (SP)

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por Carina Martins Costa

 

Após a leitura do depoimento da visita da Carolina Morvillo Lima no blog (https://exporvisoes.com.br/2026/04/24/excursao-ao-inferno-reflexoes-sobre-uma-visita-ao-doi-codi-de-sao-paulo/), fiquei inspirada a pensar sobre os materiais pedagógicos e ações educativas da equipe de educadores do Memorial da Resistência (SP), sempre no interesse em perceber como são produzidas atualizações memoriais produzidas nestes diálogos.
A recente dissertação de Sonia Abrão, intitulada “ Educação para a democracia: o exercício da memória política da ditadura civil-militar no Brasil pelas mãos dos Educativos de museus”, apresentada na PUC-SP em 2024, traz elementos muito instigantes para pensarmos as potencialidades dos educadores. Ao mergulhar na documentação e nas ações educativas do Memorial, Sonia compartilha um documento que aponta os principais objetivos da Ação Educativa: “- Contribuir para a formação de cidadãos conhecedores e críticos em relação à História do Brasil Republicano; – Sensibilizar a respeito da conscientização sobre a importância do exercício da cidadania, da democracia e dos direitos humanos; – Trazer para a atualidade e discutir as questões relativas à resistência e à repressão no país (2009). É fácil perceber dois eixos importantes, o engajamento com as questões contemporâneas e a perspectiva de formação cidadã, calcada em valores democráticos, nos Direitos Humanos e na crítica.
Aprendi também com meus mestres, e aqui lembro de bell hooks, que transgredir na educação não é apenas disputar narrativas, mas fortalecer formas de fazer transgressoras. Como educação é coisa boa de se ver em movimento, fui pesquisar o site de olho nos materiais educativos produzidos pelo Memorial. Para minha surpresa, encontro literalmente o movimento: quatro audiovisuais produzidos pela Ação Educativa para o projeto “Resisto”, construído durante a pandemia e lançado em janeiro de 2022.
Os vídeos abordam quatro temas: repressão, resistência, direitos humanos e patrimônio. Queria, claro, falar de todos, mas vou selecionar para nossa conversa o último (será por que?). É o episódio menos assistido da série, com atuais 300 expectadores, enquanto o tema da repressão ultrapassa 1.300 cliques no Youtube. Espero que fiquem curiosos/as e corram para lá.
O episódio tem o formato de um telejornal e conta com cinco personagens: o Âncora, Sócrates, a Educadora, a Meteorologista e o Gameramen (não me perguntem o que significa, parece que algo entre jogador e miojo?). A ideia de ter vários personagens é interessante, pois assim possibilita várias vozes, inclusive um Sócrates grego graciosamente anacrônico.
O telejornal, narrado por uma voz masculina radiofônica, inicia com a chamada de abertura “(…) o jornal que está aqui para falar de assuntos que já foram proibidos mas graças à democracia, não são mais”. Negrito e sublinhado na voz. O primeiro bloco é dedicado à apresentação dos conceitos de patrimônio material e imaterial, conduzida por Sócrates e a Educadora. Há a apresentação do histórico do prédio, com muitas fontes primárias que permitem compreender os usos do espaço, inclusive com abordagem da mudança de nome do Memorial da Liberdade para o Memorial da Resistência, em 2008. A chamada para o comercial abre espaço para uma apresentação institucional, no qual os jargões “aqui nós não esquecemos” e “lembrar é resistir” são bem explorados. O segundo bloco faz a relação entre os conceitos e o próprio Memorial, enfatizando a importância dos testemunhos como patrimônio imaterial.
Entra a inusitada participação da Meteorologista, que explica as áreas de instabilidade geradas pelos nazi-fascistas durante a II Guerra Mundial e as constantes reverberações “de mau tempo” nos dias atuais, apresentando o dado de 12.000 crimes de ódio em 2019 no Brasil. Importante aqui a abordagem da própria Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948) como patrimônio, seguramente pela sua inserção no Programa Memória do Mundo da UNESCO.
Chega então o “Cinema socrático”, que considero o ponto alto do telejornal. O personagem Socrátes, com trajes gregos, aparece confuso na cidade de São Paulo, segundo um exemplar da Revista Anistia Política e Justiça de Transição, publicação da Comissão de Anistia do Ministério da Justiça no período de 2009 a 2014. O exemplar utilizado no episódio é justo o último, o que nos faz lembrar da interrupção da Comissão e do golpe de 2016 no país, dando espaço e condições para a ascensão da extrema-direita que desmobilizou as políticas de justiça de transição em sua gestão (2019-2022).

 

Frame do episódio “Patrimônio”, com destaque para “Sócrates”. Disponível em: https://memorialdaresistenciasp.org.br/projeto-resisto/.

 

É um ponto alto primeiro pelo tom cômico, que nos provoca assombro e riso. Um Socrátes com mochila nas costas, com um grande estranhamento sobre a persistência de homenagens de nomes de ruas à ditadores, matadores de índigenas e torturadores na cidade de São Paulo. Ao desvelar outra possibilidade de nomeação, em placas como esta de “Ditador sanguinário, 64”, suposto endereço da biblioteca que vai estudar, o personagem nos indica o poder de nominar no espaço público. “Por que sua cidade tem tantos nomes ruins?” – é uma pergunta que vale a pena fazermos. E há quem faça essa disputa de memória de forma corajosa nos plenários do Legislativo, como a vereadora Maíra Marinho (PT) no Rio de Janeiro, também uma educadora, que recentemente aprovou seu Programa Memória, Verdade e Justiça Carioca, com a finalidade de identificar publicamente os lugares de repressão política durante a ditadura civil-militar (1964-1985) no município e incluir as sinalizações nos respectivos locais onde a repressão política vitimou cidadãs e cidadãos.
Ao final, a equipe traz questões no “Agora é com você”, que permitem que os expectadores assumam, a partir daí, o protagonismo. Este processo dialógico é respaldado em um material de orientações. Importante dizer que todos os vídeos possuem versões em libras, audiodescrição e inglês, o que amplia sua acessibilidade e garante o direito à educação para maior número de pessoas.
O título “Resisto” do projeto evoca o mito de Prometeu, o titã que roubou o fogo para dar à humanidade e foi punido severamente por Zeus. A expressão marca uma postura de rebeldia e inconformismo diante do tirano. Aqui, fazemos um registro e uma pequena homenagem às educadoras e educadores do Memorial e da Câmara do Rio de Janeiro- Alessandra, Alexia, Ana Carolina, Aureli, Marcus Vinícius e Daniel; Maíra Marinho -, que nos convidam, por meio da chama de sua ação, a olhar com claridade e acender nossa capacidade de indignação, questionamento e resistência.

 

Frame do episódio “Patrimônio”, com destaque para a “Educadora”. Disponível em: https://memorialdaresistenciasp.org.br/projeto-resisto/. Palmas para toda equipe do Memorial da Resistência!!

 

PARA SABER MAIS

Fonte sobre objetivos da Ação Educativa: Memorial da Resistência. Centro de Referência. Armário 1 – Caixa 1 – Educativo: Cursos e Oficinas, 2009. Está disponível na dissertação “Educação para a democracia: o exercício da memória política da ditadura civil-militar no Brasil pelas mãos dos Educativos de museus”, da pesquisadora Sônia Maria Brandão, defendida na PUC-SP em 2024.

Vídeos e materiais de referência do projeto Resisto!: https://memorialdaresistenciasp.org.br/projeto-resisto/. Acesso em 22 mai. 2026.

Sobre o Mito de Prometeu: https://pt.wikipedia.org/wiki/Prometeu. Acesso em 22 mai. 2026.

Sobre o Programa Memória, Verdade e Justiça Carioca, ver https://camara.rio/vereadores/maira-do-mst/leis-de-sua-autoria. Acesso em 22 mai. 2026.

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