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MICHAEL: o encontro com a mirada afetiva. O exercício entre a crítica cinematográfica e a Memória Social

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por Francis Picarelli

 

Existem cinebiografias que narram uma vida. Outras tentam compreender uma época. Michael, dirigido por Antoine Fuqua, parece interessado em algo mais complexo: investigar o espaço onde um ser humano deixa de pertencer apenas à própria biografia para tornar-se patrimônio simbólico de gerações inteiras.

Imagem de divulgação do longa Michael. Direitos de imagem de Universal Pictures

 

Desde seu anúncio, o projeto carregava uma dificuldade rara. Como representar cinematograficamente alguém que ultrapassou os limites da indústria do entretenimento para converter-se em fenômeno cultural global? Como enquadrar em poucas horas uma figura que redefiniu a música popular, transformou o videoclipe em linguagem artística e se tornou uma das imagens mais reconhecíveis do século XX?

A resposta encontrada pelo filme não está na tentativa de explicar Michael Jackson por completo. Está em fazê-lo ser sentido.

Essa escolha determina tanto suas virtudes quanto suas limitações.

Muito antes da fragmentação digital contemporânea, Michael já ocupava simultaneamente espaços que hoje pareceriam incompatíveis. Era músico, personagem midiático, ícone estético, produto cultural e fenômeno social. Sua influência atravessava fronteiras geográficas, raciais e geracionais em um período no qual a indústria do entretenimento ainda reservava aos artistas negros espaços muito mais estreitos do que aqueles que ele viria a conquistar.

O longa compreende essa dimensão sem recorrer ao didatismo. O peso simbólico de Michael surge nos silêncios, nos gestos e na maneira como a câmera observa um jovem artista tentando lidar com a condição paradoxal de tornar-se símbolo antes mesmo de descobrir quem realmente era.

Imagem de divulgação do longa Michael. Direitos de imagem de Universal Pictures

 

Nesse aspecto, a trajetória de Michael inevitavelmente remete à de Wolfgang Amadeus Mozart. Ambos pertencem à rara linhagem das crianças que nunca puderam ser crianças. Dois meninos extraordinários lançados prematuramente ao brilho cruel do mundo. Dois talentos conduzidos por pais severos para quem o sucesso parecia mais urgente que a infância.

Existe uma mutilação invisível que acontece quando a genialidade é arrancada cedo demais da vida. Algo deixa de amadurecer. Algo permanece menino para sempre.

Michael carregaria essa ausência ao longo de toda a existência.

Talvez por isso o filme encontre sua maior força quando abandona a obrigação de explicar e simplesmente observa.

Grande parte desse mérito pertence a Jaafar Jackson. Sua interpretação ultrapassa a imitação. Em muitos momentos, desaparece a preocupação com a semelhança física e surge algo mais raro: a sensação de presença.

Não parece um ator interpretando a Michael. Parece uma lembrança reaparecendo diante dos olhos.

Uma experiência quase espiritual se manifesta entre tio e sobrinho.

O elenco em geral está fantástico.

As discussões críticas sobre a estrutura narrativa do filme certamente continuarão. Há quem considere excessiva sua reverência ao personagem. Há quem lamente a ausência de conflitos posteriores que marcaram a vida do artista. São observações legítimas.

Mas talvez revelem uma expectativa equivocada.

Michael não parece interessado em funcionar como tribunal. Não deseja produzir um veredito. Sua ambição está mais próxima da elegia do que da investigação.

E foi justamente nesse ponto que esta crítica começou a escapar do controle de sua própria autora.

Entrei na sala vestida com minhas roupas salierescas.

Como Salieri, o grande antagonista mitológico de Mozart, carregava comigo o arsenal habitual da crítica cultural: desconfiança, rigor, distância emocional e a convicção elegante de quem acredita ser capaz de dissecar uma obra antes mesmo de senti-la.

Estava preparada para identificar excessos, omissões, sentimentalismos e concessões.

Mas então as músicas começaram.

E, pouco a pouco, a crítica foi cedendo espaço à memória.

Cada canção parecia abrir uma porta esquecida.

Já não era apenas Michael Jackson na tela.

Era minha própria história.

Era a menina que morreu de medo assistindo a Thriller pela primeira vez.

Era a estudante que dançou Black or White em uma apresentação escolar.

Era a adolescente que passava horas diante da MTV esperando surgir um pouquinho do Brasil em They Don’t Care About Us.

Ou a dançarina que por mil vezes treinou o “Moon Walk”, com as amigas ao escutar Billie Jean.

Imagem de divulgação do longa Michael. Direitos de imagem de Universal Pictures

 

Adescoberta dos primeiros amores embalados pelas baladas que atravessaram gerações.

A lembrança de uma época em que determinadas canções pareciam capazes de organizar afetos, amizades e sonhos.

De repente, já não se tratava apenas de cinema.

Nem de uma simples biografia

Tratava-se da capacidade singular que algumas obras possuem de habitar silenciosamente uma vida inteira.

Talvez por isso um julgamento definitivo pareça inadequado para a experiência coletiva que acontecia dentro da sala.

Ali estavam pessoas revisitando capítulos inteiros de suas vidas. Outras, mais jovens, descobriam pela primeira vez um artista que passava a fazer parte das suas.

O filme transformava-se em uma ponte improvável entre memórias e descobertas.

Em tempos marcados pela fragmentação permanente, pelo sectarismo e pela velocidade de conteúdos que frequentemente nascem e desaparecem em poucos segundos nas redes sociais, existe algo quase revolucionário na experiência de assistir a uma sala inteira compartilhando emoções provocadas por uma mesma obra.

Nem toda arte consegue sobreviver à aceleração do presente.

Michael Jackson conseguiu.

Talvez porque algumas canções deixem de pertencer ao mercado para pertencer à memória e a uma conectividade que se reconhece en uníssono.

Ao final, tornou-se impossível separar completamente a crítica da experiência afetiva.

Não me é possível classificar Michael.

Não me é possível transformá-lo em estrelas, números ou rankings.

Porque certas obras escapam dos critérios habituais de avaliação.

Como escreveu Daniel Pennac, “o verbo AMAR não suporta imperativos”.

Ninguém pode ordenar encantamento.

Ninguém pode ensinar a alguém a se apaixonar por uma música, um artista ou uma obra de arte.

E talvez seja exatamente por isso que um veredito se torne impossível.

Resta apenas reconhecer a experiência.

Reconhecer o menino, o mito e o homem.

Reconhecer a trilha sonora que acompanhou tantas vidas.

Que transcendeu as barreiras da branquitude e representou, independente da cor de sua pele, todas as etnias e se traduziu em muitas línguas.

Reconhecer que, ao menos por algumas horas, o cinema conseguiu devolver ao público algo cada vez mais raro: a capacidade de sonhar,

Não me é possível dar uma nota para Michael.

Porém, sim, afirmar uma única coisa:

“The love never felt so good”!

 

Sobre a autora

Francis é historiadora formada pela UERJ, mestre em Ciências Sociais (Memória Social e Documento) pela UNIRIO e graduanda em Ciências da Comunicação pela Universida de Buenos Aires, UBA. Comunicadora, jornalista, produtora e redatora, atua como correspondente internacional para diversos veículos de comunicação na América Latina.

Com experiência em jornalismo cultural, sendo colaboradora junto a vários medios gráficos e radiofônicos, é especialista em análise crítica cinemátografica. Seus textos abordam temas relacionados à cultura, história, cinema, artes em geral, que contribuem a reflexão dentro  do marco vinculado a memória e  as sociedades.

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