Da experiência à escrevivência: reflexões sobre monumentalidade, ausência e presença no Museu Paulista da USP
por Ana Vitória Pereira de Macedo Dias
Lembro-me da primeira vez que entrei na exposição Uma História do Brasil, no Museu Paulista, com uma sensação difícil de nomear. Não era exatamente estranhamento, afinal, como mulher branca nestes espaços, eu sei que eles sempre foram pensados também para corpos como o meu circularem com certa naturalidade. Ainda assim, algo pesava. A arquitetura, tão cheia de mármores, colunas e alturas exageradas, parecia não falar uma língua universal. O edifício se erguia como um dedo em riste, que anunciava que a história ali dentro tinha dono, endereço, cor e sobrenome.
No hall, os bandeirantes de Taunay¹ me olhavam do alto, com uma arrogância pétrea que só a elite paulista conseguiu transformar em virtude. Eles estavam lá há cem anos, e eu sabia, pelas leituras da disciplina Cultura Material Afrodiaspórica em Museus de História e pelas aulas da professora Aline Montenegro, de que sua permanência não era um acidente: era um projeto. Um projeto de História única, como lembra Chimamanda, entronizado em pedra e bronze, tornado sagrado por um tombamento que, ironicamente, preserva também as exclusões estruturadas naquele imaginário. Ali, cada passo denuncia o peso do passado, mas também o quanto esse passado foi cuidadosamente coreografado para que alguns brilhassem enquanto outros permaneciam ocultados da História.
¹Afonso Taunay: diretor do Museu Paulista e responsável pela preparação do acervo para o 1º Centenário da Independência do Brasil

Enquanto observava as esculturas, lembrei-me de Conceição Evaristo e entendi que escrever é também inscrever-se. Entendi que minha presença ali enquanto mulher em uma universidade pública por tanto tempo marcada pela predominância masculina, era uma forma frágil, mas necessária, de ocupar um espaço. Mesmo como mulher branca, cuja imagem muitas vezes foi usada para legitimar esse imaginário nacional, percebo como a exposição de Taunay me oferece lugar, mas não voz. Uma presença enquadrada, disciplinada, quase ornamental. Caminhar entre os bandeirantes gigantes é ser lembrada de que o protagonismo, aqui, sempre teve gênero – e ele não é o meu. Talvez minha escrevivência tenha nascido desse atrito entre o que vejo e o que o espaço tenta me fazer sentir. Entre a história que o monumento grita e as histórias silenciadas sob ele.
Caminhando escadaria acima, percebi que ninguém ali me olhava nos olhos. Os bandeirantes sempre olham de cima. É o poder performado pela altura, pelo mármore, pela repetição de uma imagem que se naturalizou como tradição. Essa coreografia do olhar constrói hierarquias antes mesmo que o visitante leia uma legenda. Não é preciso explicar nada: basta sentir. A pedagogia do monumento é silenciosa e eficiente.

E foi justamente esse silêncio que começou a me incomodar. Onde estavam os corpos que fizeram São Paulo existir fora da fantasia bandeirante? Onde estavam as mulheres negras que lavaram, cozinharam, educaram, sustentaram? Onde estavam os povos indígenas perseguidos por aqueles mesmos homens eternizados nas paredes? Onde estavam os trabalhadores que construíram a cidade e que seguem nela espremidos entre ônibus lotados e jornadas intermináveis? Onde estavam os próprios trabalhadores que, tijolo a tijolo, ergueram este Monumento?
Foi então que me veio à memória o Territórios de Resistência, documentário que integra a exposição Uma História do Brasil e que eu havia acabado de assistir. O documentário, parceria entre Museu Paulista e Sesc, foi um meio encontrado para tensionar a narrativa monumentalizada por Taunay. Lembrei-me, sobretudo, da intervenção que amplia três figuras anônimas (a baiana, o indígena e o combatente da Guerra do Paraguai) e as coloca frente a frente com os bandeirantes. Pela primeira vez, os olhares se cruzaram. Pela primeira vez, a monumentalidade deixou de ser monopólio. Ali, diante da versão heroicizada do passado de Taunay, aquelas figuras reivindicaram o direito de existir e de participar da História.
No Salão Nobre, diante da pintura Independência ou Morte, Conceição Evaristo, mais uma vez, ressoou em mim, pois escrevivências são, essencialmente, nossas histórias amassadas nas dobras do cotidiano. E foi isso que, por muito tempo, faltou no Museu Paulista: dobrar-se, abandonar a pose, admitir a rachadura. Mas hoje, em razão do árduo trabalho de seus curadores, professores e professoras da USP, o Museu Paulista transformou-se em espaço de disputa viva, onde memórias se friccionam e onde o desconforto não é interditado, mas elaborado.
Foi só então que percebi algo fundamental: eu não estava ali apenas para visitar; eu estava ali para reivindicar. Minha presença (minha história, meu olhar crítico, minha posição no mundo) também é uma forma de patrimônio. Não aquele patrimônio congelado e monumentalizado, mas o que se move, o que desafia, o que pergunta. Um patrimônio insurgente, como defendem autores da museologia crítica, que insiste em lembrar que toda narrativa é uma escolha e toda escolha exclui alguém.
Ao sair do edifício, fiquei olhando novamente para sua fachada, sua imponência erguida sobre silêncios. Mas pensei também no que mudou em mim enquanto percorri seus corredores. Se Taunay insistiu em narrar uma história em que só alguns importam, cabe a nós insistirmos em escrever as outras. As pequenas. As desgastadas. As cotidianas. As histórias feitas por mulheres, indígenas, negros, trabalhadores, todas as que Taunay tentou disciplinar para fora da cena. Afinal de contas, havia um rosto em quem amamentava, lavava, cozinhava, educava, cuidava, trabalhava (tudo enquanto os homens “faziam a nação”). O cotidiano não deve ser visto apenas como um “ruído” nos museus de História, uma vez que é na vida cotidiana das pessoas comuns que a História se constrói.
Nesse sentido, o Museu Paulista continua a ser um campo de disputas. E talvez a escrevivência seja justamente isso: uma maneira de devolver o olhar, de recusar a verticalidade do monumento e de sustentar uma história que nasce de baixo, das margens, dos corpos que sobrevivem apesar do Museu de Taunay. Vejo que, como aluna, uma escrevivência deve tentar devolver perguntas a um Museu que por décadas quis oferecer apenas respostas. Porque, enquanto existirmos (e insistirmos), nossas histórias continuarão a escapar. E talvez seja justamente assim que a História, enfim, se transforme.
Assim, deixo este texto como registro de uma travessia, como gesto pequeno de insurgência. Porque, se o Museu ainda é dominado por memórias alheias (e aqui penso não somente no Museu Paulista, mas também no Museu Histórico Nacional do Rio de Janeiro), sigo acreditando que nossas histórias, escritas com a tinta da experiência e das contradições, continuarão a escorrer pelas frestas, resistindo. E é resistindo que refazemos o mundo.
Sobre a autora
Historiadora formada pela Universidade de São Paulo, com licenciatura em andamento pela mesma instituição. Atua como estagiária na Divisão de Acervo e Curadoria do Museu Paulista da USP, desenvolvendo atividades relacionadas à pesquisa, documentação e catalogação de acervos históricos.
Para saber mais
ADICHIE, Chimamanda Ngozi. O Perigo da História Única. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.
EVARISTO, Conceição. A escrevivência e seus subtextos. In: DUARTE, Constância Lima; NUNES, Isabella Rosado (Orgs.). Escrevivência: a escrita de nós. Reflexões sobre a obra de Conceição Evaristo. Rio de Janeiro: Mina Comunicação e Arte, 2020.
MARINS, Paulo César Garcez. Nas matas com pose de reis: a representação de bandeirantes
e a tradição da retratística monárquica européia. Revista do ieb, n. 44, p. 77-104, fev 2007.
_________. Uma História do Brasil. São Paulo, SP: Edusp: Museu Paulista da USP, 2022.
https://museudoipiranga.org.br/wp-content/uploads/2024/09/uma_historia_do_brasil.pdf
