Da Vênus Hotentote à Globeleza: Celebrar a exótica para distanciar a humanidade
por Sophia de Souza Teodoro

A representação da mulher negra é/foi marcada pela ridicularização e a hipersexualização dos corpos. Escolhi duas imagens de períodos distintos, que possuem sentido diferente, porém terminam no mesmo problema de fetichização da mulher preta. A primeira, Sarah Baartman, a Vênus Hotentote. De origem khoi-san, onde atualmente é a África do Sul, e que foi retirada da sua terra natal para servir de entretenimento e experimento científico na Europa, tendo ainda, seu corpo e seus restos mortais explorados para teorizar cientificamente os pensamentos racista. Na segunda imagem, temos a GLOBELEZA, uma figura carnavalesca que, durante anos, foi popular na televisão do que seria o “Carnaval do Brasil”, ou seja, o corpo da mulher negra hipersexualizada no meio do maior espetáculo do mundo.
Quando estava lembrando da figura da Globeleza veio uma memória dual da minha infância: sempre gostei muito de Carnaval e toda vez que tocava essa abertura, eu corria para afrente da TV para imitar os passos da sambista e minha mãe, mulher preta, me elogiava e falava “que iria ser igual ela”, mas no sentido de afeto, e até uma tentativa dela de apresentar pessoas negras no meio de comunicação marcada pelo predomínio de indivíduos brancos. Como citei anteriormente, em qualquer circunstância que ouvisse essa música eu iria correr para dançar e nos espaços fora desse afeto ocorriam os fatídicos comentários maliciosos “vai ser igual as mulatas de carnaval ” e “essa daí quando crescer vai dar trabalho”.
A história de vida de Sarah Baartman, conhecida como a Vênus Hotentote, expõe a hipersexualização e o fetichismo da mulher negra. A trágica história de Sarah evidencia a tentativa do cientificismo branco europeu de exotizar o corpo negro a fim de categorizar como espécie de anomalia humana, em frente à suposta superioridade do homem europeu. A criação dos estereótipos contra os povos africanos e afro-diaspóricos serviu à função da fobia e fetichismo colonial. Contudo, estereotipação gera uma familiaridade, pois aquilo que é considerado comum, no caso na visão dos europeus, poderá ser considerado como verdade “absoluta” e o “desconhecido” tem uma característica/personalidade, ou seja, se tem o conhecimento do que é estrangeiro . O sistema colonial conseguiu empregar o modelo de representação dos povos como se fosse “senso comum”. Apesar dessa alteridade, como assinalou Homi Bhabha, “algo aparentemente estrangeiro e distante adquire por alguma razão (..) familiaridade” (pág.114) . Pois, o novo deixa de estar na zona cinzenta e passa a ser visto como algo previamente conhecido seguido de estereótipos.
Após sua morte, seu corpo foi dissecado e exposto no Museu do Homem na França – focado nos estudos etnográficos -, com intuito novamente de reiterar a superioridade do homem branco. As narrativas criadas nos museus por vezes contribuíram para criação da “narrativa oficial”. A história de Sarah Baartman, expõe a tentativa do Museu de criar uma narrativa científica, no sentido de oficializar a superioridade do homem branco europeu. A exposição serviu para qualificá-la futuras gerações de mulheres pretas, como primitivas e exóticas.
A escolha da gravura de Louis François da representação da Vênus Hotentote serve para analisar como a iconografia europeia representou Sarah Baartman, mas cabe salientar que a sua situação não é particular. Há inúmeras pinturas que ridicularizam a população preta, povos originários e demais grupos não europeus, ou seja, todos aqueles que são considerados bárbaros. Na gravura, a figura da Sarah Baartman é colocada em evidência em cima de uma espécie de palco, nele há uma legenda de identificação de “Vênus Hotentote”. Nota-se, que nesse local não é da superioridade da Vênus Hotentote em relação ao público. Ao contrário, o papel era expor o exótico e a considerada anomalia, o palco serve para diferenciá-la dos demais gerando curiosidade dos “espectadores”, e o uso da legenda de identificação a coloca como espécie de “animal”.
Outro ponto destacado é a própria representação da Sarah Baartman, que além dos glúteos distorcidos tem a cor branca. Na gravura a Vênus Hotentote possui traços europeizados demonstrando o possível desconhecimento do autor com a figura, e sua tentativa de aproximar do exótico ao mundo europeu.
A primeira vez que tive ciência da história de Sarah Baartman foi no primeiro semestre de 2025, na disciplina História da África ministrada pelo professor Doutor Alexandre Marcussi. Durante a aula onde justamente analisamos a gravura usada como base deste artigo, a turma era majoritariamente branca e o professor branco. O debate em si focou muito na questão da hierarquia de raças e estereotipização, temas notáveis para entender a construção do racismo ao longo da história. O problema é que ao trabalhar muito com conceitos o debate fica limitado e distancia-se o historiador daquele grupo que está sendo analisado, podendo ter um sentido abstrato. A discussão sobre o fetichismo e hipersexualização dos corpos negros foi feita, porém não foi aprofundada. Tampouco a problemática da representação de mulheres negras na iconografia e na mídia.

A figura da Globeleza possui similaridades com a gravura, uma vez que, a dançarina está no palco nua e nós somos espectadores curiosos diante do “ser exótico ”, que fica velado durante o ano todo e apenas reaparece nos momentos do Carnaval no contexto da nítida hipersexualização. Quando realizava a pesquisa, revi os comerciais da Globeleza ao longo dos anos, que evidenciam o apelo sexual na representação dos corpos das mulheres pretas.A maioria das dançarinas estavam nuas. E por que a escolha da Globeleza ? A figura dessa popular mulher afrodescendente somente aparecia no sentido sexual, pois em outros meios de produções televisivas a representação desse grupo majoritário do Brasil era “inexistente” e só aparecia em papéis estereotipados.
Academicamente o celebrado Gilberto Freyre em sua notável obra “Casa Grande e Senzala”, na qual teorizou o mito da Democracia Racial, havia mencionado “o convencionalismo social da superioridade da mulher branca e da inferioridade da preta, a preferência sexual pela “mulata” (pag.70), existem muitas questões que Gilberto Freyre aborda que discordo, por exemplo o uso reiterado do termo mulato, a forma da descrição das mulheres pretas e indígenas . Porém, o sociólogo ao citar essa frase, reverbera aquilo que está no imaginário nacional: os corpos das mulheres negras são fetichizados e servindo basicamente sexualmente. O Gilberto Freyre tem essa frase difícil de aceitar, porém aquilo que está impregnado no cotidiano da sociedade, como havia mencionado anteriormente, com a fatídica frase “vai ser igual aquelas mulatas de Carnaval”.
Na primeira aula da disciplina “Cultura material afrodiaspórica em museus de história”, com a professora Aline Montenegro nos debruçamos na música Caravanas do Chico Buarque que cita:
“Em sungas estufadas e calções disformes
É, diz que eles têm picas enormes
E seus sacos são granadas”
Os corpos negros sob as ideias racista possuem o diformismo anormal e tudo nesse corpo “exótico” deve ser exagerado Na gravura da Sarah Baartman essa característica em seus glúteos é vista como uma anomalia, algo totalmente disforme. A hipersexualização e exploração do corpo negro feminino atravessa gerações. Quando realizava a pesquisa, me defrontei com uma espécie de retrospectiva das “Globelezas” onde reiteradamente a mulher negra é colocada nesse papel de apelo sexual, sendo tão somente lembrada nesses momentos. Foram poucas protagonistas ou escritoras pretas que participaram em obras televisivas na mesma emissora, que atualmente tenta “reparar”, mas devido a imposição das Lei de Cotas na televisão e avanços dos debates raciais na sociedade.
O problema principal que gostaria de levantar é a desigualdade de gênero e raça que toda mulher ou menina preta vive, e me incluo nessa afirmação. Os acessos a ambientes são basicamente bloqueados para adentrarmos o que poderia levar uma melhor condição de vida para nós e nossa família. Sempre seremos vistas neste local de subserviência ou de apelo sexual, e também de agressivas. Atualmente discussões sobre as representações das mulheres pretas avançaram, porém ainda não geram mudanças no cotidiano.
Para saber mais:
DAMASCENO, Janaína. O corpo do outro. Construções raciais e imagens de controle do corpo feminino negro: o caso da Vênus Hotentote. Fazendo Gênero 8 – Corpo, Violência e Poder. Florianópolis, 2008.
BHABHA, Homi. A outra questão: o estereótipo, a discriminação e o discurso do colonialismo. In: O local da cultura. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 1998, p. 105- 128
Gilberto Freyre. Casa grande & senzala, 25ª ed. Rio de Janeiro, José Olympio, 1987, p.3-54
