Visita ao Quilombo da Ilha de São Vicente
por Miguel Pacífico Filho
Data: 25/04/2026, retorno em 26/04/2026.
Viajamos pelo Tocantins, do meio-norte ao norte do estado. No dia 25 de abril de 2026 saímos de Araguaína – TO, às margens da BR-153, batizada como Belém–Brasília; a primeira criada em 1958, a segunda em 1960. Estávamos no meio-norte do Tocantins. Ainda no mesmo dia 25 de abril de 2026 chegamos a Araguatins – TO, município fundado em 1868, no norte do estado e às margens do Rio Araguaia. Araguaína, Araguatins, Araguaia: o dicionário Tupi-Guarani publicado pela FUNAI nos diz o seguinte: “Ara: (de modo geral – com poucas exceções) relativo a aves, às alturas e (mais raramente) àquilo que voa (insetos) – pássaro”.
Partimos de Araguaína com um grupo formado por cinco pessoas: um historiador, um linguista, uma psicóloga, uma bióloga e o responsável pela condução do carro oficial da UFNT – Universidade Federal do Norte do Tocantins.

Nossa motivação foi o projeto “Tecnologias sociais e memória da sociodiversidade do Quilombo da Ilha de São Vicente (Araguatins, Tocantins, Brasil) e da Comunidade Indígena Autônoma de Raqaypampa (Cochabamba, Bolívia): mapeamento e intercâmbio de experiências”, submetido e aprovado por meio da Chamada Pública MCTI/CNPq nº 03/2025 – Pró-Amazônia.
A viagem teve como destino a comunidade do Quilombo da Ilha de São Vicente, localizada no Rio Araguaia e pertencente ao município de Araguatins – TO. Na bagagem, como prevenção a desvios de rota e outras desventuras, levamos três instrumentos propostos por amazônidas. O primeiro é a percepção de que a Amazônia é entendida como uma colônia do Brasil e também como o Outro do Brasil; Violeta Loureiro propõe esse entendimento e nos alerta sobre projetos de hidronegócio, garimpo, mineração, monocultura e rodoviarismo que afetam diretamente os saberes e fazeres das populações locais e acumulam capital em regiões externas à Amazônia e em determinados casos, também externas ao Brasil. O segundo é a percepção de que a Amazônia é, além da biodiversidade, lugar de urbanodiversidade. Araguaína, às margens da BR-153 e articulada majoritariamente a demandas externas à região, é entendida como uma cidade na floresta; Araguatins, às margens do Rio Araguaia, com cotidiano articulado à circulação fluvial e à dinâmica da natureza, é entendida como uma cidade da floresta. Essa percepção é proposta e emprestada pelo amazônida Saint-Clair Trindade Junior. O terceiro instrumento nos mostra que não somos os únicos a viajar pelo Tocantins. O cantador tocantinense Genésio Tocantins apresenta sua viagem em “Tocantins – de Paranã ao Bico do Papagaio”, num percurso de quase 1.000 km, reafirmando o caráter superlativo das escalas amazônicas. Paranã é município no extremo sul do Tocantins; a região conhecida como Bico do Papagaio está no extremo norte e abriga Araguatins. Portanto, compartilhamos destino com Genésio.

O percurso de barco até a Ilha de São Vicente, partindo do Porto da Dalva em Araguatins, teve duração de aproximadamente 25 minutos. Naquele momento o grupo foi composto por 7 pessoas: dois barqueiros, 4 docentes da UFNT, uma ex-aluna de mestrado e um representante da comunidade. O Araguaia, tão imponente quanto a diversidade da vegetação que compõe suas margens, nos lembra a todo momento que prudência é recomendação válida diante de tanta potência. O representante da comunidade, seu Miguel, percebendo a insegurança de parte do grupo de professores contava ininterruptamente durante o trajeto histórias sobre jacarés, onças e demais habitantes das águas e da floresta, reais ou imaginários. As reações com risos tensos do grupo contrastavam com as gargalhadas de segurança e autoridade de seu Miguel, típicas de quem tem domínio sobre o que fala e sabe onde está.
Fomos recebidos pela liderança da comunidade, Silvanei Barros, presidente da Associação Comunitária de Quilombolas da Ilha de São Vicente e por Miguel Batista Barros, o seu Miguel, que também exerce papel de liderança na comunidade. Organizados em roda de conversa e na companhia de crianças e animais de estimação, o que vimos e ouvimos nos possibilitou redefinir entendimentos sobre lutas e esperança. A exuberância da paisagem acompanha os seguidos relatos sobre conhecimento das mais diversas técnicas de manutenção e reprodução da vida entre águas e florestas. Técnicas de produção de barcos e o trato com madeiras de diferentes espécies, técnicas de construção em taipa, técnicas diversas de pesca, diversidade de saberes e fazeres. Nos chamou a atenção uma imagem de Nossa Senhora do Rosário que Silvanei nos mostrou, relatando que fora recentemente restaurada e que de acordo com a oralidade da comunidade chegou junto com os primeiros moradores ao final do século XIX. Também muito presentes foram os relatos de lutas para a obtenção da titulação de reconhecimento de propriedade da terra. Lutas que assumem contornos atuais e permanentes relatadas a partir da contradição de residirem numa ilha inserida no Rio Araguaia e o acesso a água potável ainda ser um dos grandes desafios para a comunidade.

Ao final da tarde percorremos juntos parte do território e também em roda de conversa, foram acordadas ações futuras para a troca de experiências com a comunidade de Raqaypampa da Bolívia, bem como a dinâmica para coleta e sistematização do repositório digital com o acervo a ser selecionado pela comunidade.
Para saber mais:
1 – FUNAI. Dicionário Tupi-Guarani. Brasília: Fundação Nacional do Índio, 2000.
2 – Violeta Loureiro discute a Amazônia enquanto colônia do Brasil em Amazônia Vox : Violeta Loureiro destaca condição da Amazônia como colônia do Brasil e indica caminhos e a Amazônia enquanto o Outro do Brasil em Amazônia, o Outro do Brasil – Amazônia Latitude
3 – Saint-Clair Trindade Junior discute cidades na floresta e cidades da floresta no trabalho: TRINDADE JÚNIOR, Saint-Clair Cordeiro da. Das “cidades na floresta” às “cidades da floresta”: espaço, ambiente e urbanodiversidade na Amazônia brasileira. Papers do NAEA, v. 22, n. 1, p. 1–20, 2013.
4 – Genésio Tocantins é autor da música “Tocantins – de Paranã ao Bico do Papagaio”. Tocantins – De Paranã ao Bico do Papagaio (Genésio Tocantins).
