O Memorial da Resistência abre suas veias: resenha da nova exposição permanente
por Marcelo Leite
Eu achei que tinha perdido a capacidade de me emocionar no Memorial da Resistência, depois de tanto tempo frequentando. A nova exposição me provou que estava errado.
Conheci o Memorial da Resistência em 2010, me emocionei com a história do cravo na cela 4, mas ainda não atribui significados para além da emoção. Filho da escola pública estadual paulista, passei pela educação básica sem estudar ditadura militar. Voltei em 2015 transformado: a finalização da graduação, docência na educação básica e o encontro com a exposição Ausênc’as Brasil me ensinaram a dar um sentido aquele espaço. Desde então, outubro virou ritual: levar alunos e alunas ao Memorial, ouvir quem ali esteve preso e torturado e fazer da memória parte da aula.
Dessa prática, surgiu um problema que enfrentei na pesquisa de doutorado, defendida em 2024, “O museu e a escola: o ensino da ditadura militar em aulas de história em São Paulo e Buenos Aires”, na Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio). São mais de dez anos que esse museu ocupa um espaço significativo das minhas reflexões. Quis escrever este texto para expor minhas visões sobre a nova exposição permanente, inaugurada em 23 de maio de 2026.
O Memorial da Resistência, aberto ao público em 2009, não raramente tem sua legitimidade questionada em ambiente acadêmico, sobretudo em razão de uma suposta falta de autenticidade histórica. Essas críticas se apoiam na ideia de que a trajetória do edifício teria sido descaracterizada pelas intervenções promovidas pelo poder público, especialmente pela tentativa anterior de convertê-lo em um equipamento cultural voltado às artes. Que o edifício foi alterado é inquestionável; trata-se de um dado histórico. No entanto, uma conjuntura estadual política favorável e a atuação de ex-presos políticos foram decisivas para reverter esse processo de apagamento e consolidar o primeiro e, até o momento, único museu dedicado a essa temática no país. O que esse trabalho de memória demonstra de forma exemplar é que não se altera o passado, mas se produz uma determinada relação com ele no presente, ou seja tratou-se de construir novos sentidos para narrar sobre memórias da repressão política.
Na tese, precisei me distanciar e desapaixonar. A pesquisa exigiu construir um olhar crítico que me permitisse compreender as marcas de um projeto pioneiro que, evidentemente, já não daria conta das demandas que hoje lhe são colocadas. Havia ali uma construção memorial marcada por certa exaltação dos ex-presos políticos homens, com pouca atenção às intenções e às práticas do DEOPS durante a ditadura militar e, para mim, sobretudo, ao não enfrentamento da principal ferida daquele lugar: a tortura.
A própria escolha por celebrar a resistência e a solidariedade, pilares da abertura do museu, talvez pudesse continuar suficiente se não vivêssemos em um contexto que, especialmente após 2013, voltou a tornar socialmente aceitável que pessoas defendessem publicamente o retorno da ditadura militar. Diante disso, apenas celebrar resistências parece insuficiente; tornou-se igualmente necessário nomear violências, explicitar projetos autoritários e enfrentar seus legados.
A nova exposição abre o tema com uma primorosa e rica linha do tempo que inicia em 1937, que deixa qualquer um em estado catártico, tal qual uma montanha russa, com tanta informação. Em primeira mão, parece exagero. E na segunda mão se confirma. É exageradamente necessário.
As Informações funcionam muito bem como uma antessala para o que será apresentado a seguir. Sem grandes mediações ou desvios, optou-se pela exibição de fotografias de quando vivos de pessoas que foram mortas e desaparecidas, uma escolha que sinaliza imediatamente uma estética memorial já consolidada em países vizinhos, como Argentina, Chile e Uruguai. Seguindo o corredor você vê uma sala audiovisual, que vou me atear ao final desse texto.


No salão onde antes se localizava a linha do tempo, icônica entre 2008 e 2025, agora ocupa lugar uma exposição que convoca o público a encarar o horror produzido naquele edifício. Trata-se de um exemplo de como se constrói essa imersão no funcionamento do DOPS: réplicas de documentos produzidos pelo órgão, relatórios da Comissão Nacional da Verdade, interrogatórios, entre outros materiais, compõem uma narrativa que expõe a racionalidade burocrática da repressão.

Uma senhora que visitava o espaço no mesmo momento que eu, ao olhar para o corredor que possui as celas, me disse que não queria avançar. Segundo ela, estava “sinistro demais, como pode?”. Eu a encorajei, mas ela preferiu não continuar.
As quatro celas preservadas, em contraste com o início da exposição, tão preenchido de informações, agora são marcadas pelo vazio. Diferentemente da montagem anterior, sobra espaço. Um vazio que, particularmente, exige imaginação. Em uma das celas, uma instalação artística convida o visitante ao toque para revelar. Mas o que um espaço vazio pode revelar?
Nesse museu, talvez revele justamente a concretude da ausência: a impossibilidade de respostas plenas para vinte e um anos de violência institucionalizada. O cravo e o áudio na cela 4 permanecem como antes. Um acerto.

O cenário que antes ocupava a cela 3 deixa de existir, mas permanece aquilo que considero o exercício de memória mais sofisticado do Memorial: as inscrições reescritas por aqueles e aquelas que passaram por ali e que, em 2008, aceitaram participar da construção desse espaço. Não se trata de reproduzir fielmente o que estava nas paredes, mas de reinscrever aquilo que lembravam, aquilo que ainda demandava ser dito.
Aliás, no salão mencionado anteriormente, estão expostas fotografias belíssimas desse processo. Porque, afinal, o que é a memória senão uma ação do presente?
Deixei para o final, o que considero o maior acerto, sem dúvidas: a sala audiovisual. Nela é apresentada uma narrativa extremamente sofisticada, que costura e tece uma narrativa a partir dos testemunhos coletados pela instituição desde 2009. Ainda que eu sinta falta de informações ao visitante, como o tempo total de duração da produção audiovisual, bem como do registro do período em que cada depoente esteve preso e sua respectiva organização, isso acaba passando despercebido diante da tamanha atmosfera afetiva que se constrói. O museu não poupa o visitante de narrativas permeadas por diferentes registros de dor.

Se antes as narrativas femininas estavam ausentes, a sala audiovisual dá conta dessa lacuna e oferece uma leitura que busca devolver certa humanização às vítimas que, naquele mesmo espaço, os agentes da repressão fizeram o possível pare retirar. A sala deixa claro que a repressão política não se resume a excessos ou desvios, mas constitui uma escolha institucional que, mesmo quando não matou ou desapareceu corpos, deixou marcas e assombros inscritos na pele e na alma daqueles que sobreviveram.
Por fim, é importante demarcar que a escolha de preservar as marcas da exposição anterior nas paredes revela o caráter temporário e processual da memória em um museu. Ela não é eterna. Ainda que a memória pretenda se tornar permanente, sua não abertura a novas leituras, corre o risco de cristalizar interpretações e perder sua capacidade de diálogo com o presente. Se fosse imutável, dificilmente teríamos uma reconfiguração do passado ditatorial tão bem articulada às demandas do nosso tempo: fortalecer e construir uma democracia cada vez mais sólida e plural.
Para saber mais
LEITE, Marcelo. O museu e a escola: o ensino de ditadura militar em aulas de história em São Paulo e Buenos Aires. 2024. Tese (Doutorado em História) – Programa de Pós- Graduação em História, da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2024.
Sobre o autor
Marcelo Leite é doutor em História pela UNIRIO e atualmente realiza estágio de pós-doutorado na Unicamp, com bolsa da FAPESP. Suas pesquisas situam-se nas intersecções entre passados sensíveis, práticas de memória, patrimônio e ensino de História. Apaixonado por museus, interessa-se especialmente pelas reflexões e pelos diálogos que essas instituições promovem para/com seus públicos.
