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Leituras de uma cidade: como você folheia o local onde vive?

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por Carolina Freitas

 

“Preciso ir lá na Casa da Banha”. Para quem não sabe, a Casas da Banha (CB) foi uma rede de supermercados de muito sucesso no Brasil entre as décadas de 1950 e 1990. Na pandemia produzi uma reportagem sobre a presença da empresa em Petrópolis e jamais me esqueci de um relato de uma entrevistada minha. Na época, ela disse que o pai sempre comentava, quando ia ao Centro da cidade, que precisava ir à Casa da Banha. Dada a popularidade da rede, até aí não haveria surpresa. Acontece que mais de 40 anos tinham se passado desde o encerramento das atividades do CB e ele continuava a se referir ao imóvel e ao ato de ir ao supermercado assim, o que me levou a uma reflexão: será que habitando uma mesma cidade o meu mapa mental será igual ao seu?

É interessante pensarmos nos pontos de referência que cada um possui dentro do meio urbano. Recentemente, em sala de aula, propus aos meus alunos que se colocassem de pé e tentassem, mentalmente, se locomover no Centro Histórico. Foi ali que percebi como cada um constrói para si referências distintas dependendo de seus afetos, experiências e relações construídas com a cidade. Enquanto que, para mim, a calçada da papelaria Caçula poderia ser descrita como aquela em que funcionaram as extintas Padaria Fragata e Loja Dako, para quem cresce na cidade hoje, a exemplo dos meus alunos, o mesmo local tem como uma de suas principais referências espaciais e comerciais a loja Top 10, que para os mais novos salta aos olhos pela venda dos produtos ao preço único de R$ 10.

Assim como a Casas da Banha, existem outros casos de usos que perduram mais do que os demais na memória dos petropolitanos. Um deles é o antigo Fórum de Justiça da cidade. Embora seja sede do Cefet há quase 20 anos, boa parte dos moradores ainda não consegue relacionar a construção à referida instituição. Essa é uma ideia que pode ser ainda melhor compreendida a partir do conceito de cidade palimpsesto, que compara as cidades a pergaminhos. Na antiguidade, uma prática comum era a de raspagem e reutilização do papiro devido ao alto custo do material e à dificuldade em obtê-lo. Como resultado, os textos acabavam sobrepostos. Na paisagem das cidades, o conceito se dá a partir da coexistência de diferentes tempos, narrativas e memórias.

 

Na imagem, o prédio do antigo Fórum de Justiça da cidade: desde 2008 sede do Cefet. Foto: Carolina Freitas

 

E quais aspectos influenciam nossas formas de folhear a cidade e internalizar suas páginas? Ouso dizer que a proximidade com o tema talvez seja um dos principais deles. É o que se evidencia quando paramos para analisar a fala do Sr. Erasmo (in memoriam) e sua relação com o supermercado CB. Em 2020, quando conversei com sua filha Vânia, ela me relatou que o pai, à época com 84 anos, era “atual” em muitos aspectos, mas que “essa se tornou uma memória afetiva que ele não quis largar”. Natural de Minas, Sr. Erasmo teve dificuldades financeiras ao se mudar para Petrópolis. Pai de quatro filhos, ele, contudo, nunca deixou faltar alimento em casa, e é justamente a imagem dele chegando em casa com as bolsas da Casas da Banha que permanece viva na memória de Vânia.

 

Registro de uma das unidades da Casas da Banha em Petrópolis. Hoje o imóvel é ocupado por uma igreja. Foto: Arquivo Histórico Municipal de Petrópolis

 

Sinônimo de superação das adversidades, não surpreende saber que, passados quarenta anos desde o fechamento da rede, o mineiro continuava a se ater àquela época e ao significado que ela teve. O professor e crítico cultural Andreas Huyssen, em sua obra “Seduzidos pela Memória”, faz uso do conceito de passados presentes. Segundo o autor, a partir da década de 1980 e da ampliação das discussões sobre o holocausto, o fio condutor das sociedades ocidentais deixa de ser o futuro e passa a ser o passado. Típico de um mundo em constante transformação, esse movimento contribui para o fortalecimento de nossa identidade e atua como um lembrete de quem nós somos em meio a um tempo marcado pela finitude das coisas.

Esse mesmo autor, Huyssen, fala também da relação quase simbiótica que existe entre o lembrar e o esquecer, e eu sinto que são essas escolhas, conscientes e inconscientes, que constroem nossos mapas mentais. Em se tratando do comércio da Rua do Imperador, em Petrópolis, é notório que, sobretudo após a pandemia, as chuvas de 2022 e a inauguração do shopping da cidade, houve uma mudança evidente no perfil das lojas presentes na rua. Se até ali ainda se destacavam empreendimentos de tradição, com o aumento dos preços dos alugueis e eventuais perdas de mercadorias em função das enchentes, os espaços deram lugar para negócios com propostas bastante semelhantes entre si que, normalmente, giram em torno de cosméticos e utilidades para a casa a baixo custo.

Visualmente as lojas também apresentam uma grande proximidade, o que torna desafiadora a sua diferenciação por parte do público que não se relaciona efetivamente com elas. Como resultado, os petropolitanos se voltam para o passado em busca de significado em meio a um centro urbano ocupado por um comércio que, muitas das vezes, tem um prazo de validade que expira antes mesmo que se tome conhecimento dele. Ainda que eu possua somente cerca de ¼ da bagagem do Sr. Ernesto, já me deparo com cenários que nas minhas leituras da cidade já apresentam um quê de CB: uma farmácia que eu continuo a me referir como uma lanchonete ou então um extinto colégio que uso como referência embora há tempos tenha sido adaptado para o funcionamento de um hotel.

Quando penso na maneira com que folheio Petrópolis percebo que o mapa que construo mentalmente traz referências muito próprias de quem eu sou. Uma cidade, rua ou estabelecimento podem ser vividos sob as mesmas condições e em um mesmo recorte temporal, mas as leituras feitas dos espaços inevitavelmente irão variar de acordo com as sacolas que cada um carrega. Para além das mercadorias que ocupavam as sacas de papel do Sr. Ernesto, há de se crer que elas carregavam também as vivências e emoções que a consolidaram em seu imaginário. Em uma realidade na qual tudo muda o tempo todo, qual lugar é o seu equivalente a um supermercado CB que te permite navegar por corredores de recordações?

 

Sobre a autora:

Carolina Freitas é jornalista, pesquisadora, empreendedora criativa e mestranda em Arquitetura e Patrimônio pela UERJ. Fundadora do projeto Petrópolis Sob Lentes, lidera projetos para empresas, instituições e iniciativas culturais, demonstrando como histórias bem contadas podem gerar valor, fortalecer marcas, preservar identidades e aproximar pessoas.

 

Para saber mais:

FREITAS, Carolina. Casas da Banha: de onde vinha a alegria. Petrópolis Sob Lentes, 16 ago. 2020. Disponível em: <https://petropolisoblentes.com.br/casas-da-banha-de-onde-vinha-a-alegria/>. Acesso em: 18 jul. 2026

HUYSSEN, Andreas. Seduzidos pela memória: arquitetura, monumentos, mídia. Tradução de Sérgio Alcides. Rio de Janeiro: Aeroplano, 2000.

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