Skip links

Esse rio é minha rua

Compartilhar

por Nilo Marinho

 

Vista do rio e das matas

 

Depois de quase 20 anos, sendo nascido em Belém/PA, em que os rios e as comunidades ribeirinhas são muito presentes, tive a oportunidade de entrar em um barco de pequeno porte, e me aventurar no rio para viver uma nova experiência com pessoas quilombolas. Oportunidade essa que se deu em virtude da segunda visita do projeto Pró-Amazônia ao Quilombo São Vicente localizado no Rio Araguaia no município de Araguatins – TO.

Desta experiência, gostaria de destacar a viagem do porto até a ilha, em que, como canta no carimbó de minha amada terra Belém, fomos “rio abaixo, rio acima” nas “ruas” formadas pelas águas do rio Araguaia, que vai cortando a paisagem repleta de matas e céu, despontando as belezas da região Amazônica.

Quanto mais adentrávamos no rio Araguaia, mais percebíamos a imensidão de águas ladeadas pelo verde das matas. Vislumbrando essa paisagem, é possível para muitos pensar que não existem vidas para além deste verde, que podem ser apenas amontoados de árvores; talvez habitados por alguns animais, como imaginamos muitas vezes nas regiões tomadas por matas e por rios.

Contudo, é importante olhar para além, olhar através, ter coragem de aventurar-se e adentrar nas matas, sair do rio e em terra firme abrir o olhar para o que está além. Bem como a Alice que foi além do espelho, ou mesmo Pedro, Susana, Edmundo e Lucia ao terem coragem de ir além do armário e, assim, encontraram paisagens e realidades extraordinárias.

Essa experiência foi parecida para nós, que após, mesmo com alguns medos e desafios de alguns, entramos no barco e nos propomos a ir além. Quando chegamos em nosso destino e descemos do barco, subimos o barranco e adentramos entre as árvores. Aí sim, tudo muda! Percebemos que existe vida pulsante para além dos rios e das matas. Pessoas que batalham pela sua sobrevivência, pelo seu sustento, pela preservação de sua história. Pessoas que lutam contra a desigualdade e têm esperança de tempos melhores e mais justos. Pessoas que não estão lá há pouco tempo, mas que trazem consigo a história daqueles que vieram primeiro e deixaram sua marca.

 

 

Ficamos muito animados ao ouvir a experiência dos mais antigos como Seu Miguel e Dona Da Luz, seus ensinamentos e lembranças, suas histórias que descrevem o desenvolvimento de seu povo. Também foi muito bom ouvir os mais novos, como Letícia, Silvanei e Deuzivan, que agora continuam sua história de luta pelo reconhecimento e pela manutenção da história de seu povo.

 

Dona Da Luz, matriarca do Quilombo São Vicente

 

Além de ouvir os moradores sobre suas histórias de vida, nossa atenção se voltou principalmente para suas relações com a moradia, tanto na questão estrutural como sentimental. Conhecemos sobre as construções de suas habitações, mas também ouvimos sobre o que cada casa representa na história de seus moradores.

 

Lateral de uma casa do Quilombo

 

Enfim, olhar para o quilombo São Vicente foi uma experiência maravilhosa e cheia de compartilhamento de saberes. Ver que para além das matas tem uma vida que pulsa e significa.

 

Sobre o autor 

Nilo Marinho Pereira Junior, Doutor em Linguística e Literatura (UFNT/PPGLLIT), Mestre em Letras (UFT/PPGL), Graduado em Biblioteconomia (UFPA), Amazônida de Belém, residente em Araguaína-TO,  relata sua visita ao Quilombo Ilha de São Vicente, em Araguatins-TO, realizada no âmbito do projeto Pró-Amazônia, do qual é pesquisador/colaborador.

Comentário