Cartografia das memórias antidemocráticas em Petrópolis: mapeamento sensível e expografia urbana das narrativas políticas inscritas na cidade.
por Dora da Silva Quirino Ribeiro
Este texto emerge da necessidade de aprofundar a investigação sobre as memórias antidemocráticas no âmbito do meu trabalho de conclusão de curso. Para esta etapa, proponho um deslocamento metodológico e conceitual que desloca o foco da análise puramente documental em direção à experiência direta no espaço urbano. Apoiando-me na perspectiva de James Corner e no conceito de Deep Mapping (Mapeamento Profundo) de Ribeiro, compreendo a cartografia não como um registro neutro do território, mas como uma prática, processual e investigativa. Ao colocar meu corpo em movimento, assumo a caminhada como um dispositivo sensível para apreender o que extrapola a superfície da paisagem. O objetivo não é localizar respostas prontas ou marcos isolados, mas investigar como as memórias políticas se inscrevem, ou são silenciadas, na cidade, tensionando as relações entre o visível e o oculto, o patrimônio oficial e as ausências cotidianas.
Para isso, concentro meu percurso no centro histórico de Petrópolis, recorte marcado pela forte institucionalização da memória, pelo turismo e pela exaltação de narrativas oficiais. A escolha dessa área carrega também uma dimensão pessoal, pois ressignifico meu olhar sobre trajetos que me eram familiares no período em que fui moradora da cidade. Ao percorrer um circuito que abrange a Praça da Liberdade, Avenida Koeler, Rua do Imperador e o Museu Imperial, busco desacelerar o passo e acionar meus sentidos para ler as texturas, os sons e os vazios do espaço. Assim, investigo os mecanismos do lembrar e do esquecer no “coração” da cidade, convidando o leitor a caminhar comigo para perceber como as escolhas materiais e simbólicas de Petrópolis atuam na manutenção ou no apagamento das memórias políticas.
Como parte simbólica da apreensão e do entendimento de cada local percorrido, organizo minhas percepções e experiências a partir da feitura de poemas autorais que confeccionei como produto daquilo que vi, ouvi e senti. Sendo, o presente texto, uma coletânea dos mesmos.
Praça da Liberdade
LUGAR
Substantivo masculino cujo significado abriga múltiplos sentidos.
Dizem que é onde algo cabe.
Onde algo está.
Onde alguém ocupa.
Lugar na fila.
Lugar na mesa.
Lugar no mundo.
Há quem diga que lugar é endereço.
Mas endereço muda.
É a porção do mundo
onde encontramos morada,
onde cultivamos afetos
e fazemos jornada.
Sua casa. Seu quarto.
A praça e a calçada.
Em meio a tanta falta,
espaço e identidade,
ela abraça, enlaça
e faz morada.
São tantos os frutos
aqui germinados
que hoje se lambuzam
do que foi ofertado.
Memórias do outro,
ocultas por muitos,
alimentam quem sequer conhece
a raiz do fruto.
Lugar de sentido,
vivido, compartilhado.
De tantas camadas,
percursos entrelaçados,
o gosto do novo
incomoda de novo.
Se lugar é feito
de tantos fatores,
talvez tenhamos
que conhecer as dores.
À memória.
Ao outro.
Ao esquecido.
Praça é afeto,
partilha
e sentido.
Lugar de quem foi,
de quem está
e de quem ainda virá.

Fonte: acervo autoral, 2026.
Avenida Koeler
RUA
Passa o tempo, passa tudo
A paisagem pouco muda
Tem detalhes diferentes
mas o todo se consuma
A função já não é a mesma,
a beleza ainda deslumbra.
São tantos os olhares
que muitos se confundem.
Será possível ver a falta
Da parte não contada?
É verdade toda história
que se mostra lapidada?
Quem diz, diz por inteiro?
Ou melhor não perguntar?
Se não há nenhum problema,
Porque se esquivar?
Se essa rua fosse minha,
eu mandava ela lembrar.
Lembrar do outro,
das outras vidas
que aqui fizeram estar.

Fonte: – Acervo autoral, 2026
Rua do Imperador
COM PASSO
O compasso acelera
a calçada.
A memória virou
produto, vitrine.
coroa impressa em guardanapo,
que limpa os feitos ocultados.
Sob o templo do Deus que é Amor,
o chão não guarda a marca do passo,
nem o braço estendido escondido,
nem a fita que a filha cortara.
O medo é essa coisa que passa
com cheiro de café e rotina.
No meio do caminho, a agulha de pedra:
Trabalho. Continuidade. Progresso.
vocabulário é ordem gravada
no bronze, nos corpos, na alma.
Cem nomes contam uma história,
Que poucos reconhecem morada.
A cidade não apenas lembra:
desenha o mapa que sustenta.
molda a curva por onde o rastro cede,
Aprisionando o tempo
em sua própria rede.
A ausência também é monumento.
O silêncio também é resposta.
Aqueles ocultos conduzem o norte.

Fonte: Acervo autoral, 2026.
Museu Imperial
MOLDURA
O vidro guarda a fumaça
Do pano lustrador
Uma luva veste o tempo
Com a linha do favor
E a voz da sala dizendo
O que é que eu tô fazendo
Catalogando a dor
A placa prende o nome
O nome prende o lugar
A luz acende o retrato
Pro escuro não falar
O ouro doura a moldura
O brilho faz cobertura
Do que não pôde brilhar
Conserva a porcelana
Conserva o corredor
Conserva o gesto antigo
Conserva o conservador
E o pano tira a poeira
Mas deixa a vida inteira
Debaixo do cobertor
Retrato veste parede
Parede veste poder
Memória veste uniforme
Pra ninguém reconhecer
Quem escolhe o que é relíquia
Também fabrica a política
Do lembrar e esquecer
A vitrine abre os olhos
A reserva fecha a mão
O silêncio ganha moldura
E diploma de razão
No peito da sala limpa
Toda ausência vira tinta
Pintando conservação.

Fonte: Acervo autoral, 2026.
Sobre a autora
Me chamo Dora da Silva Quirino Ribeiro, tenho 23 anos e estou no nono período da faculdade de Arquitetura e Urbanismo na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) . Minha trajetória universitária foi profundamente marcada pela participação no projeto de extensão Olhos de Ver. Foi por meio dessa vivência extensionista que pude me descobrir, tanto como futura profissional quanto como pessoa, reconhecendo a arquitetura para além da sala de aula.
