Entre o toque e o olhar: Visita ao Instituto Tocando em Você na Tijuca (RJ)
por Mariana Gil
Existem lugares que conhecemos pelos olhos. Outros, porém, precisamos conhecer com todos os sentidos. Precisamos sentir as texturas das paredes, os cheiros das plantas, os sons do teatro… Precisamos sentir um lugar além de apenas vê-lo.

Fonte: Autoral, 2026.
O Instituto Tocando em Você (Figura 1) é uma instituição criada pelo Grupo Educart (Figura 2). O Instituto tem como objetivo promover ações educativas e culturais voltadas para crianças, jovens e famílias de comunidades carentes. Seu público é voltado para pessoas com e sem deficiência física e/ou neurológica, oferecendo diferentes atividades terapêuticas, sociais e culturais e contribuindo para o desenvolvimento das crianças, tanto em sala de aula quanto em seu crescimento pessoal.
‘’A existência é a busca do saber.’’ Simone Colucci, Diretora do Instituto, 2026.

Fonte: Site educart.com.br
A sede fica localizada na Rua General Roca, 362. É uma sede compartilhada com 3 instituições diferentes: Espaço Cultural Tocando em Você (Instituição privada, funciona como escola de artes, centro de terapias integradas às artes e produtora cultural), Instituto Tocando em Você (Instituição filantrópica que trabalha com projetos sociais nas áreas de produção cultural e línguas estrangeiras) e Escola Tempo de Infância e Juventude (Aplica a metodologia criada pelo Grupo Educart e atua do fundamental 1 ao 2 e EJA inclusivo do 1º ao 9º ano).
Sou aluna de Arquitetura e Urbanismo na UERJ e escolhi o Instituto como objeto de projeto para o meu TCC. Sempre soube do trabalho que realizavam e do quanto ajudavam a comunidade. Sempre admirei a empatia do Grupo Educart em ajudar quem precisava, muitas vezes sem receber nada em troca.
Passei diversas vezes em frente ao local e, depois de uma primeira visita despretensiosa, comecei a me questionar sobre as condições de inclusão sensorial e de conforto ambiental da edificação. Essas questões continuaram comigo até a escolha do tema do meu TCC. Foi quando percebi que talvez pudesse ajudar de alguma forma, retribuindo um pouco do cuidado que o Instituto oferece à sociedade. Mas havia também um grande obstáculo: a falta de verba.
O imóvel é alugado há anos pelo Grupo Educart e sofreu diversas modificações arquitetônicas na tentativa de adequar o local ao público alvo. Precisaram criar mais salas de aula, transformaram a antiga quadra coberta em um teatro e adaptaram escadas para acessibilidade. Minha ideia é produzir um projeto de requalificação de alguns espaços do imóvel, considerando e respeitando as condições físicas já existentes da edificação, os recursos financeiros disponíveis e conceitos de arquitetura sensorial e inclusiva para crianças com deficiência, pensando na saúde e no bem-estar da comunidade frequentadora do Instituto.
Penso em ideias acessíveis relacionadas a mobiliários feitos com materiais recicláveis, como bancos feitos com pneu, painéis sensoriais envolvendo diferentes materiais e texturas e hortas verticais feitas com garrafas pet. Ideias que possam ser replicadas em outros locais e que melhorem a rotina dos usuários sem gastar muito.
O principal local de intervenções que estou planejando em conjunto com o Instituto é a varanda localizada na fachada principal. O projeto se chama Varanda: Lounge Cultural e a ideia é que, além de um local de espera e transição, possa ser também um local de aulas e de transmissão de conteúdo. Percebemos a necessidade de uma flexibilidade na setorização do local e principalmente aumentar a visibilidade da fachada para que o público consiga conhecer os trabalhos feitos pelo Grupo e apoiá-lo.
UM LUGAR DE RESISTÊNCIA:
Em agosto de 2025, tive meu primeiro contato com o Instituto Tocando em Você e com a Diretora Simone Colucci. Simone é pianista, arte-educadora e diretora artística do Instituto. Trabalha ativamente no local e demonstra uma enorme paixão pelo trabalho que desenvolve ali.
Segundo ela, a própria existência do Instituto e o trabalho realizado no espaço são um ato de rebeldia.
‘’Consegue entender? Aqui nós somos todos rebeldes…
Pacíficos, claro. Mas somos rebeldes.’’
Simone Colucci, Diretora do Instituto, 2025.
Ao falar sobre essa rebeldia, Simone se referia à visibilidade, à arquitetura, à educação e à força. A existência de um espaço dedicado ao atendimento e ao acolhimento de pessoas com deficiência é, por si só, uma forma de resistência. Resistir é ir contra o preconceito e afirmar que todos têm direito à educação, à cultura e às artes. É também mostrar que existe um espaço onde pessoas que tantas vezes são excluídas pela sociedade podem se sentir seguras, acolhidas e pertencentes.
Talvez essa também seja uma forma de resistência arquitetônica: construir e manter espaços que afirmam, na prática, que todos têm o direito de ocupar, aprender, criar e simplesmente estar.
UM OLHAR DE PERTO:
No dia 05 de agosto de 2026, quase um ano depois da minha primeira visita, voltei ao Instituto. Dessa vez, pude observar como os espaços eram utilizados por quem realmente vive aquele ambiente todos os dias. Tive a oportunidade de sentar na varanda (Figura 3) ao lado dos pais que aguardavam seus filhos terminarem as aulas, acompanhar de forma mais próxima as aulas de artes e música, conhecer profissionais e alunos e caminhar pelo Instituto observando cada detalhe do que acontecia ao meu redor. Fui absorvendo tudo o que podia, enquanto, ao mesmo tempo, observava a arquitetura.

Fonte: Autoral, 2026.
Desenhei junto com as crianças na aula de artes e me entregaram pastas enormes com desenhos para olhar. Pude conversar com os profissionais e entender melhor sobre arteterapia na prática. O mais engraçado de estar ali e de participar das aulas é que todos no Instituto se conhecem e perceberam imediatamente que eu não era dali. Vários alunos curiosos me questionaram sobre quem eu era, se eu era professora, se eu iria começar a trabalhar no local, perguntaram meu nome, minha idade… queriam simplesmente saber tudo e me conhecer. Recebi abraços, carinhos e perguntas. Todos com um interesse e carinho genuíno, um acolhimento que nunca tinha visto antes.
Conversando com profissionais da psicopedagogia, aprendi que a inclusão também está na forma como lidamos com os momentos de desregulação de crianças autistas, por exemplo. O Instituto não possui salas específicas de autorregulação e, sempre que possível, a criança permanece em sala com os colegas, recebendo apoio para se regular de uma crise. Essa escolha transforma o próprio espaço da sala de aula em um lugar de aprendizado coletivo, mostrando aos outros alunos que crises acontecem, fazem parte de algumas experiências e não duram para sempre. Assim, o ambiente também ensina empatia. Ao mesmo tempo, a criança que está se regulando percebe que os colegas continuam suas atividades, sem se afastar ou se assustar com a situação. Isso pode ajudá-la a se regular e, aos poucos, retornar à convivência com a turma.
Acima de tudo, a empatia é a real chave para se pensar tanto uma arquitetura inclusiva quanto uma vida inclusiva.
EU QUERO É BOTAR MEU BLOCO NA RUA:
No fim da visita, fui convidada por um dos alunos, que é autista, para assistir à aula de música deles. Os alunos estavam sentados em roda quando começaram a tocar “Eu quero é botar meu bloco na rua”, música eternizada por Ney Matogrosso. A canção fala sobre o desejo de ocupar o espaço público, se expressar e colocar para fora aquilo que existe dentro de nós. Cada criança tocava um instrumento diferente. Cada uma no seu próprio ritmo, na sua própria vibração, encontrando sua maneira de participar daquele momento.
Até que, em determinado momento, um dos alunos sentiu que precisava tocar de pé. Levantou com seu tambor e, acompanhando o ritmo, cantou com força o refrão da música.
Aquele momento me arrepiou.
Havia ali uma mistura de liberdade, amor e empatia que é difícil explicar. Todos naquele espaço pareciam compreender que cada pessoa tinha sua própria maneira de estar ali. Tinham um respeito enorme uns pelos outros e pareciam sentir uma única coisa em comum: a vontade de viver.
Pensei: Por que tanto preconceito?
Eles só querem botar o bloco na rua e se expressar sem medo.
O que há de tão errado nisso?

Fonte: Autoral, 2026.
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O Instituto se chama Tocando em Você e talvez seja exatamente isso que ele tenha feito comigo: tocou. Tocou meu olhar sobre a arquitetura, minha percepção sobre a inclusão e minha compreensão sobre o que significa construir espaços verdadeiramente humanos.
Se esse lugar também te tocou: Doe, compartilhe e ajude o Instituto Tocando em Você a continuar tocando vidas!
Endereço: Rua General Roca 362, Tijuca, Rio de Janeiro
WhatsApp: (21) 99457-1663 | (21) 99457-7163 | (21) 2567-4378
Redes Sociais: YouTube (Canal Tocando em Você) | Facebook e Instagram
@espaçoculturaltocandoemvoce | @institutotocandoemvoce | @tempodeinfanciaejuventude
Caso tenham tido alguma ideia de soluções acessíveis utilizando materiais recicláveis que possam agregar no meu TCC e, assim, ajudar o Instituto: Entrem em contato comigo!
Instagram: @marigil_ | @marianagil.arq
