Queijos, sabores, memórias…
por Ana Elisa de Oliveira
Sabor vem de saborear. Saborear é uma palavra que brota e se estende do sentido do gosto, do paladar. Uma experiência com o mundo mediada pelo tato (sabor é tátil, palativo) no ato de comer. Uma experiência mediada pela boca (contato direto) e não apenas pelos olhos. (Gratão e Marandola Júnior, 2011, p.61.)
Hoje à tarde fui almoçar com a minha mãe num bar tradicional daqui da cidade. Juiz de Fora – MG tem como um bem o Futrica. Esse bar/restaurante localiza-se em uma das galerias – galeria Hallack. Minha cidade tem uma trama de galerias. Pedimos o prato do dia e durante nossas garfadas minha mãe, que estava de frente para uma geladeira, avistou um queijo. Um queijo bolota, chamado de queijo Palmyra, como ela me disse. Minha mãe, que esse ano faz 70 anos, me contou uma história sobre sua infância e juventude quando visitava familiares em um outro município próximo chamado de Santos Dumont. Ela disse que tinha uma lembrança gostosa sobre tal queijo e o jeito especial que ele chegava até ela e sua família. O queijo vinha embalado em uma cuia vermelha chamada de combreio. E isso era o mais legal de comer o queijo. Comê-lo nessa lata redonda como a lua era a sensação. Sobre esse mesmo bar/restaurante, ela contava pra mim quando eu era criança sobre dividir uma pizza que só vende lá com as sua irmãs. Pedaços pequeninos. Fragmentos de memória. O queijo pra mim traz algumas histórias. Hoje de manhã acordei atrasada e preparei um queijo coalho que me acompanhou pelo caminho enquanto eu ia em direção a minha mãe. Por sinal, estava muito bom. Pensei no parmesão que deixei na geladeira para fazer uma armadilha para os possíveis ratos soltos aqui em casa. Me lembrei dos ratos soltos na praça do Clube da Esquina.
Quero estar onde estão os sonhos desse hotel
Muito além do céu, nada a temer, nada a combinar
Na hora de achar o meu lugar no trem e não sentir pavor
Dos ratos soltos na praça
Minha casa
Me lembrei do Beco do Mota.
Diamantina é o Beco do Mota
Minas é o Beco do Mota
Brasil é o Beco do Mota
Viva o meu país
E, então, volto-me para uma das viagens à Diamantina que eu fiz no contexto da faculdade. Fomos também para o Serro. Tirei uma lasquinha para experimentar o queijo mineiro do Serro, patrimônio imaterial reconhecido pelo IPHAN e pela UNESCO. Porém, eu só lembro dos belíssimos atributos desse queijo. Do gosto não. Uma pena! Mas bom que tenho uma saborosa desculpa para sair daqui e depois de horas e horas chegar a esse lugar. E quem sabe Diamantina, que eu tanto gostei. Em uma das vezes que estive por lá, comemos à luz da lua – que aqui em Minas Gerais é um grande pão de queijo – um pacote imenso de pipoca. Foi incrível. Faltou só uma coisa, que eu sei que tem em poucos lugares no Brasil, como minha cidade. O queijinho. Volto-me à Juiz de Fora. Como é bom estar em casa. E como! Devoro. E assim eu me lembro de Djavan e a beleza que um paquera recente cantou algumas lindas canções aqui no primeiro café da manhã. Te devoro:
É um milagre
Tudo que Deus criou pensando em você
Fez a Via Láctea, fez os dinossauros
Por sinal, ele não cantou Via Láctea, uma das suas músicas. E nesse papo – eu comigo – lácteo fico pensando sempre no próximo café da manhã que teríamos. 1ª pessoa do plural do futuro do pretérito do indicativo. O que o futuro indica? Só sei do que passa e passou na minha cabeça. Sempre compro pão de queijo congelado, porque comemos um da padaria que não estava tão bom. E esse é sucesso. Mas está congelado, assim como eu queria fazer com essa memória. Congelar. Mas pensando bem, qual é a graça de uma memória congelada, que não é cinética e não me esquenta de tanta raiva ou tanto carinho? Não tem graça. Memória boa é quentinha. A pipoca com queijinho que a gente comeu, por exemplo, antes de ir dançar forró pela primeira vez e depois de uma palestra é uma memória gostosa. Cheira bem! Foi lindo quando ele cantou essa música. Mas a questão não é essa. É o queijo e as memórias de cada buraquinho. Falando desse aperitivo juizforano, eu gosto tanto de pipoca com queijinho, porque minha mãe sempre comprou pra nós quando íamos ao Centro. O dengo é o queijinho quentinho. É… memória boa é quente – não há por que querer congelar. Envolve. Um desses queijos quentes e cremosos que eu me vi comendo por esses dias foi em uma porção que dividi com esse paquera. Ele cantou um forró para mim, que eu pedi. Nesse dia, só conversamos. E esse só foi tão muito. Foi bom. Queria que essa batata com queijo não tivesse acabado. E acho que não chegou a acabar, pelo que me lembro. Na esfera da memória, nunca acabou: todas essas lembranças se fazem presentes e ainda sinto o gosto de Minas Gerais – de Diamantina, do Serro, de Juiz de Fora e até de Santos Dumont que minha mãe contou aonde quer que eu vá.

Referências
BECO DO MOTA. Intérprete: Milton Nascimento. Compositores: Milton Nascimento; Fernando Brant. In: MILTON NASCIMENTO. [S. l.]: Odeon, 1969. 1 disco sonoro, faixa 5
EU TE DEVORO. Intérprete: Djavan. Compositor: Djavan. In: BICHO SOLTO – O XIII. [S. l.]: Sony Music, 1998. 1 disco sonoro, faixa 1.
GRATÃO, Lúcia Helena Batista; MARANDOLA JÚNIOR, Eduardo. Sabor da, na e para Geografia. Geosul, Florianópolis, v. 26, n. 51, p. 59-74, jun. 2011.
TREM DE DOIDO. Intérprete: Lô Borges. Compositores: Lô Borges; Márcio Borges. In: CLUBE DA ESQUINA. [S. l.]: Odeon, 1972. 1 disco sonoro, faixa 19.
Sobre a autora
Ana Elisa de Oliveira é mestranda no Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Patrimônio da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (PPGAU/UERJ). Graduada em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade Federal de Juiz de Fora (FAU/UFJF). Técnica em Edificações pelo Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Sudeste de Minas Gerais (IF-Sudeste). Atualmente, trabalha no Estado de Minas Gerais como professora de ensino básico no ensino médio. Sua pesquisa aborda as relações de fé e festa que são tecidas nas praças de Juiz de Fora, sob a perspectiva das manifestações de matriz africana.
