O 15º (Re) Encontro da Rede de Memória e Museologia Social de São Paulo (ReMMuS-SP)
por Letícia Fernanda Simão
Peço licença para compartilhar um pouco do que foi o 15º (Re) Encontro da Rede de Memória e Museologia Social de São Paulo (ReMMuS-SP), ocorrido em Ubatuba/SP nos dias 16 e 17 de maio de 2026.
Durante a graduação em História, deparei-me inúmeras vezes com temáticas e atividades relativas a patrimônio e a museologia. Tive a oportunidade de refletir para além dos museus tradicionais por meio de aulas e ter tido experiências significativas com colegas de cursos, projetos, estágios e coletivos. No entanto, tem sido a partir da atuação com a Rede de Memória e Museologia Social de São Paulo (ReMMuS-SP), por meio da bolsa PUB do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB/USP), que tenho compreendido melhor a articulação entre as iniciativas comunitárias características da museologia social e as formas pelas quais os grupos se organizam para promoverem suas atividades. A bolsa é coordenada pela professora Inês Gouveia em parceria com representantes da Rede, como Suzy Santos, do Museu Comunitário do Jardim Vermelhão, e Mãe Silvana, do Quilombo Urbano Negra Visão.
Na última década, as reflexões sobre a necessidade de acervos representativos, da história, cultura e diversidade de povos marginalizados e do acesso e acessibilidade no campo cultural, têm oportunizado a emergência da museologia social. Essa perspectiva propõe uma crítica aos museus conservadores e colonialistas, de modo a deslocar a centralidade do objeto para as pessoas. Nesse sentido, a importância da articulação entre as instituições e iniciativas com o território é ressaltada e incentivada e, juntamente a isso, a ideia de autogestão do patrimônio a partir do domínio de ferramentas de preservação e da participação nos debates e produções sobre o tema.
Ao iniciar meus estudos sobre museologia, no entanto, me questionava: como a museologia social se dá na prática? Como as políticas públicas culturais, tão controversas, atuam no fomento (ou não) de propostas de grupos historicamente marginalizados? De que forma a composição de rede favorece o trabalho das iniciativas, coletivos e grupos que trabalham a partir de uma perspectiva da museologia social? No 15º (Re)Encontro da ReMMuS-SP pude elaborar algumas possibilidades de respostas para essas perguntas…
A Rede de Memória e Museologia Social de São Paulo é uma organização independente que reúne coletivos, museus comunitários, movimentos sociais, instituições e outros agentes culturais para construir coletivamente modos de fortalecimento de sujeitos e iniciativas que atuam na defesa e promoção da cultura. Busca-se, portanto, entre outros aspectos, a promoção da gestão democrática, o agenciamento coletivo e a defesa de territórios tradicionais.
Uma das estratégias de articulação utilizada pela ReMMuS-SP é a organização de encontros periódicos para reunir as pessoas, grupos, coletivos e afins que a integram a fim de promover trocas de experiências e conhecimentos para atuação em rede. Desde 2014, ano em que a ReMMuS-SP foi fundada, diversos municípios paulistas em que as iniciativas estão situadas foram sede dos encontros, como na Terra Indígena Vanuíre (que ocupa os municípios de Tupã e Arco-Íris), em Campinas, Atibaia e Itu. A cidade de Ubatuba, representada pelo Museu Caiçara e o Quilombo da Caçandoca, foi a escolhida da vez para receber o 15º (Re) Encontro da Rede, que ocorreu nos dias 16 e 17 de maio de 2026.

A programação contou com a participação de diversos grupos localizados no litoral norte paulista. O primeiro dia de evento ocorreu no território da Caçandoca e teve seus trabalhos abertos pela Folia do Divino Espírito Santo do Mestre Pedrinho. A Festa do Divino é uma tradição caiçara secular reconhecida como bem de natureza imaterial integrante do Patrimônio Cultural de Ubatuba. Em seguida, o grupo Mamulengo de Si Mesmo trouxe o teatro de bonecos para contar histórias sobre o território caiçara com criticidade e ludicidade. Os jovens quilombolas e cineastas Deco Machado e Ramon Soares apresentaram o curta-documentário intitulado “O Brilho da Herança”, trazendo a relação pessoal e a sensibilidade de Deco com o território da Caçandoca e com a visualidade. As refeições do dia foram preparadas pelo Quiosque das Rainhas, que é dirigido por Rosa e Maria, duas mulheres caiçaras e quilombolas, que trazem a tradição de suas raízes firmadas na comunidade tradicional através de sua culinária.
No período da tarde, tivemos uma vivência com o Sr. Horácio, pescador e morador do Quilombo, e pudemos conversar e refletir sobre sua experiência, transformações e desafios da pescaria, dos hábitos e costumes caiçaras e quilombolas. Posteriormente, fizemos a reunião geral da ReMMuS-SP, em que apresentou-se as ações realizadas desde o 14º (Re) Encontro, ocorrido em outubro de 2025 no Ilê Axé Omo Ajunsun. O dia se encerrou com um baile de fandango com o grupo Fandango Caiçara de Ubatuba, na casa do Sr. Horácio.

O segundo dia aconteceu no Museu Caiçara de Ubatuba, localizado dentro do Projeto TAMAR, no centro da cidade. Lá, o espaço foi apresentado por membros do Museu, ressaltando o histórico e as transformações no espaço e o acervo composto por objetos procedentes de diversas pessoas caiçaras. Discutimos também a respeito da gestão de acervos comunitários, desde a incorporação até a documentação e catalogação dos itens.
O Encontro permitiu que as iniciativas identificassem umas nas outras desafios, dilemas e angústias muito semelhantes, desde as lutas pelo território – tão ameaçados pela especulação imobiliária e pela ocupação depredadora do território – até as contradições de editais públicos de fomento cultural. A distância física faz com que, muitas vezes, as iniciativas não estejam conectadas, mas a ideia de Rede e do (Re) Encontro vem justamente para aproximar, conectar ainda mais, esses grupos e construir um canal de comunicação constante. Esse movimento fortalece os vínculos entre os participantes e amplia as perspectivas de atuação coletiva e fortalecimento mútuo.

Foi nesse aspecto que algumas das perguntas que me acompanharam desde o início dos estudos em museologia passaram a ganhar contornos mais concretos. A museologia social requer uma somatória de muitos esforços e agentes. Isso significa que se está sempre lidando com temáticas e práticas em disputa, porque as organizações esbarram e enfrentam a todo tempo aquilo que os fazem existir: as estruturas de reprodução de injustiças e desigualdades. A museologia social funciona, muitas vezes, como um trabalho de militância e, consequentemente, de estratégia de quais agentes devem ser mobilizados, articulados e ativados.
Nesse cenário, as políticas públicas culturais – sobretudo as de média e longa duração – e a inserção e articulação com o cenário cultural são importantíssimas para garantir a continuidade e autonomia das iniciativas. O 15º (Re) Encontro veio para firmar parcerias e criar novas conexões para atuação conjunta em diferentes espaços de construção de políticas (e lutas) culturais, como o Programa Conexões Museus SP. Ao mesmo tempo, é notável que muitas das atividades realizadas pelas iniciativas da museologia social acontecem sem o fomento público. As comunidades se auto-organizam para arrecadar fundos, promover a circulação e produção de saberes e mobilizar sua população para atuar nos processos de salvaguarda de suas tradições e manifestações culturais. Mais do que o registro da memória, o trabalho auto-organizado também confere a preservação e proteção das próprias comunidades, que encontram maneiras de resistir às opressões cotidianas e às assimetrias das políticas de cultura.
Além de ressaltar a importância da Rede, reafirmo o compromisso que as universidades e, especialmente os cursos ligados à memória, têm em se articular com iniciativas da sociedade civil. Porque há algo dentro das políticas públicas culturais que realmente só são dimensionados na prática. A caminhada é extensa – retrospectiva e prospectivamente. Agradeço imensamente a todas as pessoas da Rede e a todas as pessoas que participaram do Encontro. Possibilidades de respostas e ainda mais perguntas…
Para saber mais
DA SILVA SANTOS, Suzenalson. Museu Kanindé: fórum de conhecimentos a ancestralidade Indígena. Museologia & Interdisciplinaridade, v. 10, n. 19, p. 52-59, 2021.
GOUVEIA, Inês; PEREIRA, Marcelle. A emergência da museologia social. Políticas Culturais em Revista, v. 9, n. 2, p. 726-745, 2016.
SANTOS, Suzy da Silva. Ecomuseus e museus comunitários no Brasil: estudo exploratório de possibilidades museológicas. 2017. Dissertação de Mestrado. Universidade de São Paulo.
Sobre a autora
Letícia Fernanda Simão é historiadora (FFLCH/USP), estudante do curso técnico de Museologia (ETEC Parque da Juventude) e bolsista da Rede de Memória e Museologia Social de São Paulo (ReMMuS-SP) pelo Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo (IEB/USP), em projeto coordenado pela docente Inês Gouveia.
1 – Aqui, referencio Ellen Nicolau, minha professora de Ação Educativa na ETEC e membra da ReMMuS, a qual trouxe essa importante perspectiva.
2 – Programa do Sistema Estadual de Museus de São Paulo (SISEM-SP), em parceria com a Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas. O 14º e o 15º (Re) Encontro receberam fomento do Programa através do Museu Afro Brasil Emanoel Araújo e do Museu das Favelas.
