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O patrimônio que há em mim

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por Mariana Constantino Pereira

 

Inicio esse texto a partir de reflexões internas sobre minha relação com o saber fazer, a partir das aulas sobre memória, história e patrimônio, em especial na aula inaugural da matéria onde a professora nos questionou a respeito de uma imagem e o que ela nos remetia. A imagem em questão tratava-se de uma foto aproximada de uma casa/comércio com características arquitetônicas coloniais, paredes amarelas, janelas azuis de madeira, com diversos objetos bem característicos do comércio artesanal de Minas Gerais, como peças em madeira, elementos e flores em ferro, com pinturas coloridas diversas.

Lembro de uma peça em especial que me chamou atenção: uma namoradeira. Apesar de toda questão problemática relacionada à representação de mulheres negras que esse tipo de peça carrega, este objeto me remete a uma memória que tenho de minha mãe. Minha mãe é uma magnífica pintora/restauradora autodidata que ao longo de boa parte da minha infância, no quintal de casa, seu então ateliê, trabalhou com arte. Santos e anjos de gesso cercavam o espaço, e apesar de não compreender na época a beleza das esculturas dos artistas que o modelaram e a pintura de minha mãe, este foi o primeiro degrau que me conduziu ao caminho do patrimônio.

Imagem 1: Namoradeiras. Fonte: Mariana Constantino Pereira (sem data)

Minha ambiência familiar, conscientemente ou inconscientemente, me conduziram de forma a aprender sobre as grandes obras de arte e artistas, o que me estimulou a desenhar. Essa expressão criativa me despertou a curiosidade pela capacidade de comunicar sentimentos, registrar graficamente histórias e compreender a existência humana. Aos poucos aprendi que uma obra, assim como o patrimônio, não está isolada, ela carrega marcas do tempo, do seu contexto de criação, e das pessoas que a criaram.

Apesar da grande paixão que o desenho me deu para as artes, não me via, profissionalmente, como uma artista plástica. Resgato minhas memórias da época que meu padrinho ia me visitar. Ele trabalhou por muitos anos com desenho técnico e projeto de arquitetura e, a partir dessa relação, houve em minha vida a junção com a arte espacial e a arquitetura, o que me fez me apaixonar pela área.

Então retorno à minha mãe, eu era adolescente e naquela fase já precisava trabalhar e me preparar para prestar vestibular e entrar numa faculdade, lembro que precisava ter o meu dinheiro e minha mãe me chamou para trabalhar com ela. Na época, ela pintava para diversas lojas, de arte popular à arte sacra, então ela começou a me ensinar. Lembro que na época as namoradeiras estavam na moda, então minha mãe as pintava e me ensinou o processo: lixar bem, passar a base, pintar com as cores que ela tinha feito, lixar novamente, pintar a segunda camada com mais cautela, pintar os detalhes na ordem: roupas e detalhes das mãos, boca, olhos e por último, sobrancelhas, eu era particularmente boa nessa fase final então minha mãe sempre me pedia para fazer os rostos, por fim, embalar muito bem e entregar nas lojas. Na época eu não sabia, mas além dos momentos de união que tivemos, ainda mais fortalecidos nas loucuras de entrega do final de ano, ela estava me ensinando, o que hoje, com o conhecimento que tenho sobre patrimônio, me ensinava o saber fazer.

O saber fazer, é construído ao longo do tempo, nasce da experiência, da observação, da tentativa e erro, da repetição. É o conhecimento que alguém aprendeu a preparar uma receita, como a minha mãe quando preparava os tons exatos para pintarmos e eu achava que eram os mais bonitos que já tinha visto, é aprender a construir um objeto, produzir um artesanato, cultivar a terra, produzir festas e permanecer com conhecimentos que integram a história de uma sociedade ou grupo específico. Mais do que uma técnica, o conhecimento gerado carrega valores, memórias, modos de se expressar e ver o mundo.

A maneira de transmissão acontece de forma simples e cotidiana, como minha mãe ao me mostrar cuidadosamente e carinhosamente todo o procedimento, nós duas de roupa de casa, com nossa cachorra ao lado enquanto assistíamos televisão. Ou uma criança que observa o avô trabalhando, uma jovem que aprende a sopa da família ou uma comunidade que compartilha os conhecimentos através de uma celebração, o conhecimento é transmitido através do contato, pela participação, como a ideia de Aristóteles, que é fazendo junto que se aprende.

No entanto, existe uma diferença entre saber que algo existe e saber como o produzir, podemos conhecer uma receita de bolo sem fazê-lo, ou saber uma letra de música sem nunca a ter tocado, o saber fazer reside também na experiência, reside no movimento das mãos, na escolha do material, saber o tempo certo de secagem, saber o clima ideal ou as nuances das cores, aprender o que não é dito, através da repetição e convivência.

O saber fazer aproxima as pessoas com o patrimônio, como uma relação íntima onde o patrimônio se mistura com a vida, com a pele, com as sensações. É um aprendizado fora das salas de aula, onde o conhecimento não é apressado, o próprio tempo faz parte do conhecimento. Quem aprende sabe o tempo de esperar, observar e perceber, aprende que o produto final não é o mais importante e sim o trajeto para alcançá-lo.

No entanto, saber fazer não basta, o registro de patrimônios imateriais é de suma importância para que o conhecimento seja preservado, criando-se uma memória que pode ser consultada, compartilhada e retomada pelas próximas gerações. “Esses bens são práticas, saberes e domínios da vida social apropriados por indivíduos e grupos sociais como importantes elementos de sua identidade” (IPHAN, s/d).

Através desse resgate das minhas memórias, entendo que minha mãe foi responsável por me ensinar mais do que qualquer leitura poderia me dar de conhecimento, me ensinou a importância de se ensinar ao próximo o que consideramos importante, despertando a mim, o sentimento de identidade e continuidade. Hoje compreendo que o patrimônio não consiste somente nos edifícios antigos, formados apenas por materiais como pedra, madeira ou cal, mas também nas pessoas que dão vida a ele, nas experiências humanas que acontecem e pelos significados que permanecem ao longo do tempo, que o patrimônio está em mim, através do presente de minha mãe.

 

Imagem 2: Aprendizados. Fonte: Mariana Constantino Pereira (sem data).

Sobre a autora

Mariana é graduada na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo pela Universidade Católica de Petrópolis (2017) – bolsa PMP/UCP; Especialista em Gestão e Restauro Arquitetônico pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (2022) – ESDI/UERJ, dissertação em aplicações de tecnologias digitais em Patrimônio Cultural Edificado. Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Patrimônio (PPGAP/ UERJ). Atuou como arquiteta em produções de projetos arquitetônicos, restauro e intervenções em bens tombados, projetos museográficos, desenvolvimento de simulações tridimensionais em arquitetura e peças escultóricas em bens de interesse cultural, e atividades no campo do design. Atualmente trabalha como técnica no escritório técnico regional serrana do Instituto Estadual do Patrimônio Cultural (INEPAC) em Petrópolis/RJ.

 

Para saber mais 

INSTITUTO DO PATRIMÔNIO HISTÓRICO ARTÍSTICO E CULTURAL. Patrimônio Imaterial, [s.d]. Disponível em: https://www.gov.br/iphan/pt-br/patrimonio-cultural/patrimonio-imaterial. Acesso em 09 Ago. 2026.

INSTITUTO DO PATRIMÔNIO HISTÓRICO ARTÍSTICO E CULTURAL. Registro do Bem. Disponível em: https://bcr.iphan.gov.br/registro-do-bem/. Acesso em 09 Ago. 2026.

MANGILI, Liziane Peres; AVELAR, Ana Laura Ferreira; FERRAREZI, Bia. A preservação do saber-fazer: considerações sobre o projeto de restauro das fachadas e esquadrias do Fortim dos Emboabas. Revista CPC, São Paulo, v. 18, n. 36, p. 73-105, 2023.

 

 

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