“Excursão ao inferno”: reflexões sobre uma visita ao DOI-Codi de São Paulo
por Carolina Morvillo Lima
Bacharel e licenciada em História pela Universidade de São Paulo (USP). É também mestranda no Programa de Pós-Graduação em História Social (PPGHS) da mesma instituição e integrante da equipe do Exporvisões.
No dia 17 de janeiro de 2026, participei de uma visita ao antigo DOI-Codi (Destacamento de Operações de Informação – Centro de Operações de Defesa Interna) de São Paulo, organizada e mediada pelo Núcleo de Preservação da Memória Política. Também conhecido como Núcleo da Memória, este se trata de uma instituição sem fins lucrativos que, desde 2009, atua na preservação e no reconhecimento de espaços marcados pela repressão como lugares de memória, fundamentais para a garantia do direito à memória, à verdade e à justiça, e para a defesa dos direitos humanos.
Nesse dia, fui acompanhada de meu pai, o que, por si só, já tornava a experiência muito significativa. Ele cresceu durante a ditadura militar e foi militante do Partido Comunista Brasileiro (PCB) no período de redemocratização. Seu tio integrou um dos grupos de resistência durante o regime, e sua mãe é ex-professora de português da rede pública e lidava diariamente com a censura e a vigilância dos militares em sala de aula, em um contexto de medo constante.
Quando chegamos, à primeira vista, o prédio, que continua funcionando como delegacia, parece comum. Quem anda pela Vila Mariana e passa pela Rua Tutóia, 921 não suspeita que, ao adentrar e dirigir-se para o fundo do terreno, encontrará um antigo centro clandestino de repressão, que operou dos anos 1970 até o início de 1980, sob comando de Carlos Brilhante Ustra, o maior símbolo da tortura no Brasil. Criado a partir da Operação Bandeirantes (OBAN) de 1969, o DOI-Codi era um dos principais locais para onde pessoas consideradas inimigas do regime eram levadas para serem interrogadas, torturadas e brutalmente assassinadas, tudo isso sem qualquer forma de registro oficial. Não havia nome, não havia documentação, não havia garantia de existência. Lá não se estava preso, estava-se sequestrado.

Ao entrarmos na delegacia, fomos direcionados aos fundos do prédio, onde, em uma sala organizada pelo próprio Núcleo da Memória, teve início a visita guiada. A conversa inicial apresentou a trajetória do grupo, as disputas em torno da preservação do DOI-Codi e as dificuldades de consolidar aquele espaço como um lugar de memória efetivamente protegido, mesmo com a aprovação, em 2014, de seu tombamento pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado de São Paulo (CONDEPHAAT).

Foi também nesse primeiro momento que ouvimos Maurice Politi, ex-preso político do regime e diretor do Núcleo de Memória, o qual ajudou a fundar. Ele esteve detido no local por 28 dias, o que fez com que cada uma de suas falas representasse, também, um poderoso testemunho. Ao descrever o transporte dos presos, Politi relatou: ficavam algemados, deitados no chão, com os pés dos agentes sobre seus corpos. Ao chegarem, ouviam: “Você sabe onde está?”. E a resposta vinha dos próprios torturadores: “Você está na excursão ao inferno”.
Ainda nessa primeira parte da visita, fomos apresentados ao jornalista Rodolfo Lacerda, pesquisador da trajetória de Manoel Fiel Filho, operário assassinado no DOI-Codi em 1976. Naquele dia específico, a visita também assumia um caráter de homenagem: completavam-se cinquenta anos de sua morte. Sua história foi reconstruída a partir de fragmentos, de rastros, de um esforço contínuo para devolver nome e narrativa àquilo que o regime tentou silenciar. Durante 24 horas, Manoel foi torturado até a morte. Entre os agentes, segundo testemunhas, a frase dita após sua execução foi “o omelete está feito”, uma gíria policial para indicar que alguém havia sido morto.
A banalidade da linguagem contrasta brutalmente com a dimensão da violência.
Após essa conversa inicial, seguimos para o interior do prédio.
Durante a visita interna, subimos as escadas que levavam às salas de interrogatório e tortura. Politi comentou algo que me marcou profundamente: muitos ex-presos se lembram da escada. Da cor cinza. Daquele momento específico que representava o instante anterior à tortura, quando eram obrigados a subir nus, expostos, já destituídos de qualquer proteção. Há algo de profundamente significativo nessa memória compartilhada: a escada como limiar entre o mundo de fora e o inferno.

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Nas salas, os relatos ganhavam corpo, revelando a violência extrema. A tortura não era improvisada, era estruturada, pensada, operacionalizada. O espaço era organizado justamente para comportar instrumentos que exigiam uma certa organização física. O pau de arara, por exemplo, um dos métodos de tortura física mais comuns utilizados pelos agentes do regime militar brasileiros — que consistia em amarrar a vítima pelos pulsos e tornozelos, suspensa em uma barra de ferro, deixando-a de cabeça para baixo para aplicação de choques, espancamentos e afogamentos — tinha que ficar na sala com maiores dimensões. Choques elétricos, estupros, “cadeira do dragão” e o jogo entre o “policial bom” e o “policial ruim” — estratégia que combinava ameaça e hostilidade com aparente negociação e compadecimento — também eram frequentemente utilizados.

Em determinado momento, fomos levados aos possíveis locais onde militares forjaram a morte de Vladimir Herzog para sustentar a versão de suicídio, após o terem assassinado. Nem mesmo ali havia uma certeza absoluta. A memória, naquele espaço, também se apresentava de forma fragmentada. Pouco tempo depois da visita, no dia 29 de março, foi divulgada, em reportagem do Fantástico, a identificação da sala exata, resultado de um trabalho longo e minucioso que reuniu arqueólogos, historiadores e arquitetos. Mais do que localizar um ponto no espaço, essa descoberta preenche uma lacuna produzida por décadas de silenciamento. Diante de um crime que o próprio Estado tentou negar e distorcer, identificar o lugar da morte significa restituir materialidade ao acontecimento, tratando-se, portanto, de uma evidência que confronta a versão oficial, afirma a existência do crime e fortalece a luta pela memória, pela verdade e pela justiça.

Estar dentro do prédio é uma experiência física. Em determinado momento, tanto eu quanto meu pai passamos mal. A pressão caiu, o ar parecia mais denso e a angústia tomou conta do corpo. Mesmo tendo estudado tanto, ouvido testemunhos e assistido a tantos filmes sobre o período, há algo naquele espaço que não se explica em palavras; um desconforto difícil de nomear, mas impossível de ignorar. Esse lugar não permite distância.
Ao final da visita, retornamos ao ponto inicial para uma conversa de encerramento. Refletimos sobre memória, educação, direitos humanos; sobre a importância de tornar esses espaços acessíveis, de reconhecer o passado como parte da construção da identidade coletiva. Sobre a necessidade de lembrar, não como um exercício nostálgico, mas como um compromisso político.
Politi, então, retomou uma questão fundamental e que dialoga diretamente com o que venho pesquisando. Ele defende que aquele espaço deve ser preservado sem estetização, sem transformações que suavizem ou reorganizem a violência em moldes expositivos tradicionais. Lugares como esse, marcados pelo trauma, não se enquadram na lógica do “belo” que historicamente orientou a preservação patrimonial. O DOI-Codi não é um museu nos moldes tradicionais. Não há vitrines organizadas, nem um percurso expositivo estruturado. E, ainda assim, ou talvez justamente por isso, ele se impõe como um dos mais potentes lugares de memória da ditadura no Brasil. Um espaço onde o que não está exposto pesa tanto quanto aquilo que é dito.
Essa visita abre múltiplas possibilidades de reflexão que estão longe de se esgotar em um único texto. Cada relato, cada espaço e cada silêncio exigem um aprofundamento próprio, o que ficará para outro momento. Finalizo dizendo: visitar o DOI-Codi não é apenas olhar para o passado, mas confrontar permanências, disputas de memória e as escolhas que seguimos fazendo no presente. É também recusar qualquer tentativa de relativizar aquilo que não pode jamais ser repetido.
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Carolina Morvillo Lima é bacharel e licenciada em História pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP). É, também, mestranda no Programa de Pós-Graduação em História Social (PPGHS) da mesma instituição e integrante da equipe do Exporvisões.
PARA SABER MAIS
As visitas ao DOI-CODI são organizadas mensalmente pelo Núcleo de Preservação da Memória Política, que atua na manutenção e na abertura desse lugar ao público. Esse trabalho não consiste apenas em uma mediação, mas principalmente em uma forma de garantir que o espaço continue existindo como lugar de memória, mesmo diante de disputas e limites institucionais. Para saber mais, acesse: https://www.nucleomemoria.com.br/
Acesse a matéria exibida no Fantástico pelo link https://g1.globo.com/fantastico/noticia/2026/03/29/pesquisadores-identificam-sala-onde-ditadura-simulou-a-morte-de-vladimir-herzog.ghtml
Conheça a “Corrida por Manoel Fiel Filho”
Leia os livros Memória e violência e 1964: História do Regime Militar Brasileiro, escritos por Marcos Napolitano.
Leia também o capítulo “Patrimônio da Ditadura” do livro Dicionário Temático do Patrimônio: Debates contemporâneos, de Aline Carvalho e Cristina Menegello.

Belo e profundo texto que você produziu. Parabéns . Sou também um dos sobreviventes da sucursal do inferno, como diziam.
que bom que temos jovens como vc preocupados/as com a memória de atrocidades cometidas pela ditadura civil militar, como um meio de reflexão para uma ação política agora e sempre. Ditadura nunca mais. Tortura nunca mais.
Lembrar é resistir.
Me emocionei muito com o seu comentário. Muito obrigada pelas palavras, elas significam ainda mais vindas de alguém que sobreviveu às atrocidades cometidas naquele espaço. Escrever esse texto foi, também, uma forma de reafirmar meu compromisso com a memória, com a verdade e com a luta para que nada disso se repita. Comentários como o seu me fazem perceber que estou no caminho certo. Ditadura nunca mais. Tortura nunca mais.
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