O Condomínio Solaris da Torre – o “Tijolinho”
por Vivaldo Lima de Magalhães com introdução e edição de Aline Montenegro Magalhães
Mudar de casa é sempre um momento de introspecção, ao nos vermos nas coisas que ficaram guardadas, fora do nosso dia-a-dia, e que agora são reencontradas pela necessidade de deslocamento. Esvaziar um lugar para ocupar outro, às vezes menor, nos força a fazer escolhas sobre o que levamos e o que precisamos deixar, nos confrontando com as lembranças de diferentes tempos das nossas próprias vidas. Algumas coisas seguem fazendo sentido e outras nos fazem questionar “por que eu guardei isso?”.
A revista com um artigo que meu pai escreveu e deu o título acima foi uma das coisas encontradas e que escolhi carregar para a nova residência. É uma forma de tornar presente uma ausência de doze anos, junto com as fotografias, as cartas, os cartões de aniversário, a dedicatória em livros, … Manancial de recordações e de uma saudade sem fim. É também uma reminiscência do lugar onde morei durante a maior parte de minha vida, dos sete aos vinte e nove anos. Onde cheguei ainda criança, deslumbrada com a imensidão do condomínio, sem ter ideia de que eu me mudava para um patrimônio histórico da cidade do Rio de Janeiro, e de onde saí já adulta para me assumir como pessoa no mundo.

A revista chama-se “Rota Tijucana”, uma publicação de bairro, com distribuição gratuita, com muitos anúncios de comércio e serviços locais. A edição aqui tratada é a de n. 24, Ano 2, de 2012. Uma fotografia do Condomínio Solaris da Torre ilustra a capa com a manchete “Andaraí que se reinventa: de vila operária a condomínios e shoppings”. É justamente nessa seção, dedicada à história do bairro do Andaraí, que meu pai publicou o artigo que agora reproduzo aqui com algumas edições e atualizações para seguir os preceitos deste blogue. O que aparecer entre colchetes e em notas de rodapé são as minhas intervenções.
Desejo uma boa leitura pra todo mundo, esperando que esse artigo, hoje preso às páginas físicas de uma revista que talvez não se encontre mais por aí, possa ser conhecido por muitas pessoas ao ganhar sua versão virtual.
Deixo aqui um salve para esse ser que foi jornalista e funcionário público, e que eu e meus irmãos, Gustavo e Andrea, tivemos a sorte e a alegria de ter como pai e nossa mãe, Nilzeth, de tê-lo como companheiro de vida.

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“No final do século XIX foi fundado no bairro do Andaraí um significativo Parque Industrial, com a construção de várias fábricas: Fábrica Confiança (em parte conservada até hoje por supermercados [agora é um supermercado da rede Açaí Atacadista]) […] Botões Hashya (onde trabalhou “Fina”, namorada de Noel Rosa, que compôs “Três apitos” em sua homenagem); […] Hanseática (no local onde funcionou a [cervejaria] Brahma até o final dos anos 90, hoje o espaço é ocupado pelo Extra Supermercados, na [rua] José Higino [atualmente, outro supermercado da rede Açaí Atacadista], entre outras.
A fábrica América Fabril, cuja área hoje é ocupada pelo Condomínio Solaris da Torre, Banco do Brasil (ex-sede da Compensação Nacional), Caixa Econômica Federal (onde funcionava a sede das Loterias) e a ASBAC (Associação dos Servidores do Banco Central), fazia parte desse grande complexo industrial. Estava localizada entre os bairros do Andaraí, Vila Isabel e Grajaú. Em 1968, foi desativada e desmembrada entre seus credores: Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal e Banco Nacional de Habitação.
O banco [BNH] foi extinto em 1986, através do Decreto-Lei nº 2.291, de 21.11.1986, o qual o repassou à Caixa Econômica Federal.
A palavra “Solaris”, que deu nome ao Condomínio Solaris da Torre (o Tijolinho), localizado no bairro do Andaraí, é de origem latina e significa: Solar, Morada de família nobre, Mansão, Palácio, relativo a Sol, entre outros. A torre e a chaminé, marcos da construção da fábrica têxtil, equipada com tecnologia inglesa, fundada em 1895, foram preservadas. Essas duas relíquias, tombadas pelo IPHAN [Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional], são resquícios do monumentoso parque industrial que se instalou no bairro do Andaraí e adjacências, no século XIX.
[…] A construção desse complexo habitacional deveu-se à iniciativa do saudoso professor Darcy Pereira, primeiro presidente da Cooperativa Habitacional Barão de Mesquita. No início dos anos [19]70, ele reuniu um grupo de colaboradores cooperativados para implantação de um empreendimento que pudesse oferecer apartamentos aos moradores com melhores condições de moradia, diferente dos conjuntos residenciais tradicionais. Foram feitos vários estudos e pesquisas para que os custos fossem acessíveis e dessem maiores opções para aquisição, de acordo com a disponibilidade financeira e da preferência de cada um pelo tamanho do imóvel.
A história do Condomínio Solaris da Torre começou em 1976, quando o Banco Nacional de Habitação (BNH) adquiriu da antiga América Fabril dois lotes de terreno para a construção de um parque residencial destinado à moradia de famílias de classe média. “Era um dos mais belos projetos arquitetônicos urbanísticos do BNH no Rio de Janeiro nos últimos tempos e a expectativa dos proprietários era de vir morar no empreendimento dois anos depois de iniciadas as obras” – disse Darcy Pereira, então presidente da CHBM, o suplemento do Globo Tijuca, em 29/01/1985.
“Era realmente uma coisa atípica. Foi a primeira vez que o BNH promoveu um concurso de arquitetura para um projeto de interesse social como esse, no qual concorreram 36 escritórios de arquitetura. O trabalho vencedor causou entusiasmo: eram oito prédios, com uma praça central, uma praça comunitária com clubes esportivos na parte alta do terreno, um supermercado, uma escola, que seria doada pela comunidade ao Município” – disse o professor Darcy.
Em 1983, a Construtora Marajá, responsável pela construção do Solaris da Torre, apresentando problemas de capital de giro, passou a “perder o pique” das obras. “Corremos o risco de ver todos os nossos sonhos e projetos de aquisição da casa própria ir por água abaixo, se nosso empreendimento fosse incorporado à massa falida da construtora”, disse Darcy na entrevista. Um grupo de cooperativados liderados pelo prof. Darcy, com muita luta e determinação, impediu a incorporação para que o condomínio não virasse um monstro de concreto abandonado. Finalmente, conseguiu-se o “habite-se”. Com o dinheiro do seguro, no valor de 110 milhões de Cruzeiros, foram reiniciadas as obras de acabamento dos 1.232 apartamentos de um, dois e três quartos. Além da criação de uma comissão fiscal, para acompanhar os trabalhos, foi também criada, mais tarde, a Associação dos Condomínios Solaris da Torre – Consol – com o objetivo de administrar as partes comuns do núcleo habitacional. A Cooperativa, por sua vez, completou sua função de entregar as unidades aos respectivos proprietários. Em virtude de problemas operacionais, a Consol foi extinta no final dos anos [19]80, início dos anos [19]90, quando a CHBM resolveu reassumir as suas funções de prestação de serviços aos cooperativados e administração das partes comuns do núcleo habitacional, incluindo aluguel de lojas e realização de benfeitorias.
Nestes 26 anos de fundação, os moradores do Solaris da Torre participaram de vários eventos que ficarão marcados em suas vidas e na história deste belo condomínio. Entre outros, podemos destacar a inauguração da escola Municipal João Goulart, em que tiveram presentes o governador Leonel Brizola, o prefeito Marcelo Alencar e a ex-primeira dama Maria Thereza Goulart (12/06/1984); e um debate sobre a Constituinte com a presença de vários candidatos, promovido pela Consol e a Amaraí – Associação de Moradores e Amigos do Andaraí (25/09/1986).
O Solaris da Torre é, talvez, o maior e mais belo condomínio da zona norte. Localizado nas proximidades do maior estádio de futebol – o Maracanã, […] representa um privilégio para os moradores.
Para os que gostam de carnaval, existem três escolas de samba nas proximidades do Condomínio: Salgueiro, Vila Isabel e Mangueira […] Dentro do Solaris da Torre tem lojas, restaurantes, padaria, […]. Tem duas praças – a dos Arcos e Praça Darcy Pereira (a da Torre) – muita vegetação, pista para caminhada em torno da praça, ciclovia, quiosques, parquinho para o lazer infantil e uma série de outros benefícios para o conforto e segurança dos moradores.
O Solaris tem 8 blocos de edifícios com 14 andares, num total de 1. 232 unidades habitacionais, construídos numa área de 120 mil metros quadrados, bem distribuídos. Os tijolos aparentes predominantes em toda a área construída são reminiscências da antiga fábrica construída no século XIX, para dar um pouco de originalidade aos moldes das construções inglesas da era industrial. […] Cercado de áreas verdes, tem o privilégio de ser servido pela maior floresta urbana do mundo – a Floresta da Tijuca – uma região da Mata Atlântica, com 3.300 hectares – cerca de quatro mil gramados do estádio do Maracanã juntos. Tem ainda a reserva florestal do Grajaú, fruto de um reflorestamento, e que representa importante meio de preservação de deslizamentos que ocorriam anteriormente no local, além de representar uma importante área de lazer para os moradores.”
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P.S.: Enfim, além de contar a história de um conjunto habitacional na Zona Norte da cidade do Rio de Janeiro, S. Vivaldo nos fez lembrar de uma política pública de habitação acessível, que poderia inspirar os usos dos terrenos ao seu entorno, como o do Banco do Brasil, que, ao que parece, infelizmente, já está tendo uma destinação bem diferente.
