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Conexão Brasil – Bolívia: conhecendo os indígenas de Raqaypampa

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por Carolina Freitas

 

“Me encantan los colores en su ropa”. Um dos detalhes que mais se destacam entre os indígenas de Raqaypampa é a beleza e a coloração de seus trajes. E esse foi um dos pontos de partida para a primeira conversa que tive com Sonia, Florencio e Jaime, que vieram para o Brasil para a Semana de Internacionalização, Interiorização e Extensão promovida pelo Programa de Pós-Graduação em Demandas Populares e Dinâmicas Regionais (PPGDire) da Universidade Federal do Norte do Tocantins.

 

Imagem da viagem de carro entre Araguaína e Tocantinópolis

 

Confeccionadas por eles próprios, as roupas – como me explicou o professor Jaime Zambrana Vargas – são pensadas nos detalhes. Ao mesmo tempo em que protegem do frio, reúnem elementos e tons que simbolizam a diversidade de suas comunidades. Assim, a paleta de cores pode referenciar, por exemplo, o verde das chácaras ou as diferentes tonalidades de flores presentes nas aldeias. E o mais interessante é que, a partir desse primeiro estímulo visual, as peças conduzem a uma mensagem mais ampla: a importância da natureza na vida coletiva.

 

Imagem dos detalhes que contam histórias da comunidade Raqaypampa

 

Reconhecida como um dos primeiros territórios indígenas a conquistar o autogoverno e a autonomia administrativa na Bolívia, Raqaypampa – que possui registros anteriores aos próprios incas – foi uma das regiões exploradas pelos espanhóis a partir de 1825. Em palestra ministrada no Instituto Federal do Tocantins, o professor Jaime explicou que durante mais de 120 anos a área foi oprimida pelos colonizadores e tinha seus moradores escravizados. Segundo ele, foi com a reforma agrária ocorrida nos anos 1950 que o Estado reconheceu o direito dos povos indígenas à propriedade e à terra.

Além do traje típico, é importante ressaltar também que durante toda a agenda cumprida pelos bolivianos no Brasil eles carregaram consigo instrumentos musicais performados por Jaime. Além da sonoridade característica, eles trazem uma curiosidade: nos períodos de seca os itens tocados serão diferentes daqueles utilizados nas temporadas chuvosas. Mais um exemplo de que nas aldeias indígenas a natureza dita os acontecimentos e o ritmo da vida coletiva, indo desde os alimentos consumidos às entidades que serão adoradas pelo grupo.

 

Imagem que representa como a música ocupa um lugar central na comunidade

 

Outro ponto fundamental em se tratando dos indígenas de Raqaypampa é sua relação com a água. Até hoje a comunidade não conta com água potável e 85% das aldeias ainda não dispõem de energia elétrica. Florencio Alarcon Caero, reconhecido como a primeira autoridade administradora da Autonomia Indígena Originária Camponesa, relatou – também em fala no IFTO – que diante dos cenários de escassez observados a própria comunidade se organizou na construção de represas que fazem o armazenamento e a reutilização da água da chuva na plantação de alimentos.

Se até pouco tempo as mulheres precisavam percorrer 30km para fazer o abastecimento d’água, hoje a aldeia tornou possível o consumo animal e humano. Florencio destacou ainda que outro grave problema enfrentado foi a desnutrição das crianças do povoado que, impossibilitadas de ingerir água e se alimentar de verduras, já se mostravam fragilizadas. Responsável pela criação de uma constituição própria de seu povo, o território conta com líderes que atuam de maneira voluntária em prol dos interesses do grupo.

 

Imagem representando um dos papéis exercidos pelas mulheres: a manutenção das represas

 

”Quem administra os recursos fornecidos pelo governo é o próprio povo. A assembleia geral das comunidades conta com a presença das mulheres e de mais de 50 membros porque cada comunidade elege uma pessoa íntegra para exercer os mandatos. Não tem remuneração. É um trabalho feito para o seu povo. Essa é a diferença. Nos governos tradicionais as leis tradicionais mandam. Nesse caso o povo indígena diz como tem que ser feito”, pontua Florencio.

 

Imagem de Florencio e Sonia e os trajes que reúnem as memórias de seus povos

 

Instaurada em 2008, a organização das mulheres na comunidade prevê deveres como a participação nas assembleias, a manutenção das represas, o cuidado dos animais e crianças e a recente produção de shampoos e sabonetes para a geração de renda. Sonia Fernandez é uma das lideranças femininas e, aqui no Brasil, abordou o acesso restrito das mulheres à educação. Enquanto no passado essa era uma opção inexistente, ela diz que em Raqaypampa algumas indígenas agora buscam traçar outros destinos em sua formação educacional o que, segundo ela, ainda é um caminho de resistência, uma vez que seus trajes e tradições são frequentemente discriminados.

Durante as passagens de Jaime, Florencio e Sonia pelas comunidades e instituições de ensino do Tocantins, nota-se que, embora nem sempre na mesma língua, os diálogos construídos comunicam os mesmos princípios. Saberes ancestrais, lutas seculares e a compreensão da natureza e consequente preservação dela como fonte de vida e sabedoria.

 

Sobre a autora:

Freitas é jornalista, pesquisadora, empreendedora criativa e mestranda em Arquitetura e Patrimônio pela UERJ. Fundadora do projeto Petrópolis Sob Lentes (@petropolisoblentes), lidera projetos para empresas, instituições e iniciativas culturais, demonstrando como histórias bem contadas podem gerar valor, fortalecer marcas, preservar identidades e aproximar pessoas.

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